ANO: 26 | Nº: 6586

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
30/05/2020 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Bagé e Aparício Saravia: a carta que não chegou (4)

1. A CARTA.
O pacto da Cruz, firmado para o fim da guerra com o presidente Cuestas previa, além da liberdade de sufrágio, que os departamentos de Cerro Largo, Trinta e Três, Rivera, Maldonado, Flores e São José seriam chefiados por blancos, o que foi respeitado para que os partidários de Aparício. Que depõem as armas. Tudo cumprido. O líder do Partido Nacional retira-se para El Cordobés; e aceita residir em Melo, aonde passa a viver como verdadeiro citadino. Mas mantendo a liderança. Sucede, tempos depois, que Cuestas aceita ser embaixador na Itália e Império Austro-Húngaro, sediando-se em Roma, para onde viaja logo após a posse de Batle y Ordóñez.
Que, mais tarde, demonstra que desobedecer ao acordo onde constava cláusula que apenas obriga a Cuestas e não seus sucessores. Após a Missa do Natal de 1903 a família Saravia ruma para a fazenda. Em 29 de dezembro Aparício parte para os preparativos para a guerra, acompanhado de Nepomuceno, Aparício e Villanueva. Ramón, que estava em Montevidéu, junta-se a eles. No dia 31 de dezembro de 1903 Cândida chega a Bagé, junto com os filhos Exaltación e Mauro, mais Emancipada, Clemência e Fortuna, serviçais. Moram na casa da Rua Marcílio Dias.
A luta não inicia logo, há tratativas para evita-la. Apenas em 15 de março Aparício levanta em armas. Há intermediários e negociações; escaramuças e aviamentos. Somente em janeiro de 1904 Batle declara guerra. Seguem-se as batalhas de Mansavillagra, Ilescas, Las Conchas, Fray Marcos, Paisandú, Cerros Brancos, Passo do Parque, Minas Tubampaé, vitórias e derrotas. Aparício, filho, perde a perna ortopédica em Ilescas, o que determina sua ida a Bagé. É substituído por Exaltación. Em Tubampaé uma bala perfura o estômago de Villanueva. Ramón é ferido na boca por um tiro de Mauser, e é levado para Melo. Em Bagé circulam boatos sobre as derrotas e os ferimentos, notícias omitidas a Cândida, que seguidamente escreve ao esposo. Em julho Ramón está em Bagé com a "mandíbula imóvel".
Chega o combate de Massoler, lugar entre Rivera e Salto. Uma chuva de balas cai sobre os cavaleiros blancos. Aparício é alvo fácil com seu poncho branco. Que fica empapado de sangue. Aparício, montado em seu tordilho Palomo e com Ramon, percorria sua montonera incentivando seus companheiros a repelir a agressão. Era entardecer e a bala, entrando pelo costado esquerdo, atravessa o ventre do General, perfura os tecidos e os rins. A hemorragia é abundante. Dia 1º de setembro de 1904.
Os fuzis se calam no dia seguinte. Improvisa-se uma padiola e de carroça chega-se à estância de Luiza Pereira de Carvalho, mãe de João Francisco, antigo adversário de Aparício na guerra gaúcha de 1893. Onde o líder oriental irá sucumbir. Era o meio da tarde de 10 de setembro. O fato se espalha. Muitos não acreditam. Outros festejam. Em Bagé ninguém conta para Cândida.
Na madrugada de 5 de setembro Cândida não dormira bem. Haviam lhe dado a notícia que Aparício estava ferido. Rezara muito para a Virgem de Montserrat. Ajoelhada debulhara as contas de seu rosário pedindo ao Espírito Santo que protegesse Aparício. A insônia demonstra que seu corpo sentia angústia. Nem o chá feito por Celina a acalma. Noite de intensa vigília. Quando amanhece um raio de luz ilumina o tinteiro do pequeno escritório. Coloca os chinelos. Cobre os ombros com uma manta. Abre os postigos e a janela. O ar, frio. Tem calafrios. Caminha até a mesa do escritório. Assentada, toma a pena que mergulha no tinteiro. E escreve:
" Querido esposo:
Desejo que ao receberes esta, te encontres restabelecido, que assim sendo estarão atendidos meus desejos. Que pedir-te que me tires desta incerteza. Vivo desesperada ao saber que estás ferido e que eu não te pude ir te ver. Podes imaginar as lágrimas que derramei. Tão logo soube que haviam lutado, telegrafei, pedindo notícias tuas e dos meninos. Responderam que os meninos estavam bem e que tu estavas levemente ferido na perna. Não me confortei jamais. Sigo acreditando que teu ferimento é grave. Mandei novos telegramas e todos, todos me respondem que segues bem. Pedi para ir te ver e me responderam que não convém que vá alguém da família, que quando seja possível me avisarão. E tal aviso nunca chega. Assim resolvi te escrever diretamente, mas ninguém aqui sabe onde estás. E ninguém me diz onde estás.
Sigo esperando que me escrevas. Quero te ver de qualquer modo. E se entendes que eu não vá quero comprovar com tua letra. Nossos filhos que estão comigo, aguardam tuas ordens. Estão ansiosos como eu para te encontrar. Recebe um milhão de abraços de tua esposa que muito deseja te ver. Cândida. "
Busca um envelope. Escreve o nome de seu marido. Dobra a carta e a introduz nele. Umedece a aba. Fecha o envelope. Espera que Celina acorde para despachá-lo através de um próprio: mas onde acha-lo?
Caminha até a mesa de jantar. Depois se dirige ao quarto onde apanha o rosário. Senta-se à beira da cama. Olha a paisagem que atravessa as vidraças da janela. E recomeça a rezar.
2. Um chiste de Dona Cândida.
Depois do combate de Cerros Brancos muitos soldados de Aparício se dispersam no território brasileiro. Um deles, morto mais tarde na batalha do Parque, vai junto com companheiros saudar Dona Cândida Diáz de Saravia, esposa do General, que nesta ocasião estava em Bagé.
- Somos soldados de seu marido, disse ele, como apresentação.
E dona Cândida, com singular ironia, digna de seu esposo, replica:
- Meu esposo não tem soldados no Brasil.
Tão inesperada e franca resposta deixa profundamente envergonhados os visitantes que, sem resposta, resolvem retirar-se.

Leituras: 1. Diego Fischer. Doña Cándida Saravia. Montevidéu: Penguin Random House, 2018. 2. Washington Reyes Abadie. Crónica de Aparício Saravia. V. II. Montevidéu: Talleres Gráficos de Barreiro y Ramos Ltda., 1989

 

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