ANO: 26 | Nº: 6590

Luiz Fernando Mainardi

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Deputado Estadual
04/06/2020 Luiz Fernando Mainardi (Opinião)

É a economia, estúpido.

A frase do título foi usada por um assessor do então candidato democrata a presidência dos EUA, Bill Clinton, em 1992. Naquela eleição, Bush, o pai, concorria à reeleição com uma aprovação significativa por seus feitos em política externa, mas a economia interna acabou por motivar a sua derrota. Depois do fato, a expressão se popularizou e é usada até hoje como uma expressão capaz de explicar o humor do eleitorado. Segundo a tese, de certa forma confirmada em vários episódios eleitorais, se a economia vai bem, o governante tende a se reeleger, se, ao contrário, a economia vai mal, a eleição do oposicionista é a maior probabilidade.

No Brasil, entretanto, além da realidade da economia, há, como se sabe, a narrativa sobre a economia. O atual governo federal, por exemplo, através do seu porta-voz econômico, o banqueiro Paulo Guedes, vinha há tempos sendo reiterativo sobre o fato de que a economia brasileira estava se preparando para alçar voo, após os anos de recessão gerados pela "gastança" dos governos anteriores. Segundo essa narrativa, as "reformas" (trabalhista e previdenciária) seriam o passo inicial para um período de crescimento e estabilidade. Esse discurso era repetido ao cansaço também pelos principais jornais, todos empenhados em fortalecer o caminho hiperliberal de Guedes, dos banqueiros e dos analistas interessados.

A pandemia desnudou o país que estava sendo construído por esta política desumana e desestruturadora do Estado. Em uma situação limite, o país se viu de frente com milhões de trabalhadores sem vínculos empregatícios, sem renda, sem poupança. E precisou enfrentar, também, a situação da maior parte das empresas, sem crédito, sem ativos suficientes para viver uma quarentena de isolamento social, sem planos de contingência para assegurar empregos, etc. E tudo isso no contexto de um governo cujas políticas econômicas todas sinalizavam para o "virem-se" das medidas hiperliberais de desestatizações e desmonte de relações formais de trabalho.

Custou para que o governo entendesse que precisava ajudar trabalhadores e empresas a enfrentarem o necessário distanciamento exigido pelo alto grau de contágio do novo coronavírus. Foi só quase um mês após o início das mortes por Covid-19 no país que a ajuda emergencial começou a ser paga. E nesse caso, por iniciativa do Congresso, já que o governo primeiro não pensou na medida e, depois, tentou que a ajuda se limitasse a três repasses de R$ 200,00. Pior do que isso, aprovada a ajuda, demorou e dificultou o acesso a ela. Paradoxalmente, por incompetência gerencial, permitiu que milhares de "golpes" fossem realizados, incluindo a distribuição de auxílio para militares e até foragidos da justiça.

No âmbito empresarial, a conduta foi ainda mais perniciosa. Sintetizada pelo ministro da economia durante a famosa reunião ministerial de 22 abril, a decisão sempre foi ajudar aos grandes (o que aliás, vem acontecendo desde o início deste governo), o que, segundo o ministro, permitiria ao governo ganhar dinheiro. O resultado é que até agora centenas de milhares de micro e pequenas empresas correm atrás do prejuízo, sem acesso a ajuda nem a crédito facilitado. Até meados de maio, dos R$ 40 bilhões que o governo anunciou como ajuda para o setor, apenas algo em torno de R$ 2 bilhões tinha sido acessado. O resultado é uma crise sem precedentes entre os empreendimentos que realmente geram os empregos no Brasil.

O governo federal, portanto, em suas ações e em suas omissões está gerando uma crise avassaladora no país. Evidentemente, a pandemia da Covid-19 tem ampliado as consequências negativas destas políticas, mas não é apenas a Covid-19 a responsável pelos problemas que estamos vivendo e prestes a viver, com aumento do desemprego, diminuição da produção, da renda pública e privada, do comércio, etc, etc. No Brasil, infelizmente, as crises econômica e sanitária se agregaram à crise política, de um governo que não sabem nem proteger a vida dos brasileiros, nem a nossa economia.

Na contramão do governo brasileiro, muitos países agiram rápido e com profundidade para proteger o seu povo e a sua economia, com programas profundos de apoio às empresas e aos trabalhadores e, ao mesmo tempo, um tratamento científico, baseado no distanciamento social, para enfrentar com a maior rapidez possível a crise de saúde provocada pelo novo coronavírus. A Alemanha, por exemplo, não apenas adotou medidas de impacto como passou a transformar paradigmas de suas orientações econômicas, com um fortalecimento do papel do Estado no processo econômico. De alguma forma isso foi feito em todos os países centrais, até mesmo nos EUA, que além de programas extensos de apoio imprimiu moeda e fez girar a economia mesmo no momento de crise mais aguda.

Mas na esfera do governo federal brasileiro, o único sinal que algo poderia ser gestado para incentivar a economia a se recuperar no pós-pandemia foi virulentamente atacado por Guedes, com apoio de Bolsonaro. O programa Brasil, que reeditava, embora de forma mais limitada e frágil, os PACs, lançado pelo general Braga Neto foi atacado com virulência pelo banqueiro, inclusive de forma pública na malfadada reunião ministerial, e enterrado antes mesmo de ser parido. Sem saber o que fazer para proteger e recuperar a economia, resta ao ainda presidente desenvolver sua única capacidade – a de confundir a opinião pública – sugerindo que a crise econômica foi gerada apenas pela pandemia e pelos que quiseram parar a economia com as políticas de distanciamento. Não vai se livrar dessa responsabilidade. A crise econômica que herdaremos tem a cara de Bolsonaro e a mão de Guedes. São eles os responsáveis. Por tudo o que fizeram até aqui e também por tudo o que não fizeram.

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