ANO: 26 | Nº: 6573

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
04/06/2020 João L. Roschildt (Opinião)

Supremo Tribunal do Fester

Era uma vez um ministro. Destes que habitualmente ocupam uma cadeira em Cortes Supremas em algum incorruptível país latino-americano. O nome dele era Fester Addams. Nunca foi a personagem principal de uma aterrorizante família, mas sempre que podia aprontava alguma surpresa. Apesar de ser movido por uma peculiar maldade, um traço muito bem delineado pela expressão de seus olhos, Fester era sempre muito cuidadoso com os membros de sua família. E havia reciprocidade nessa relação.

Quando suspendeu a nomeação de um indicado pelo presidente da República Federativa da Banânia, Mito, para ocupar o cargo de diretor-geral da Polícia Festerial (PF), em razão de laços de amizade entre o chefe do executivo e seu escolhido, Fester foi alvo de dura crítica: “Como é que o senhor Fester Addams foi para o Supremo? Amizade com senhor Dracul van der Temer, ou não foi?”, disse o presidente em entrevista, alegando que a amizade não impede que alguém tome posse. Pronto! Foi o suficiente para que os parentes de Fester se mobilizassem.

João Plenário, outro ministro do STF, disse que é inaceitável uma crítica personalista aos membros da família. Na mesma linha, o Novato, que já chamou João Plenário de “pessoa horrível” (não se poderia esperar “monstruosidade” diferente dessa família), afirmou categoricamente que Fester chegou a Alta Corte “após sólida carreira acadêmica [...] sempre com competência e integridade”, enfatizando o quão honrado fica na presença de seu parente. Já a Associação dos Juízes Festerianos (Ajufe) manifestou “total repúdio” às declarações de Mito, ao que classificou de “agressões e ofensas”. Antigamente os vilões de filmes de terror eram um pouco mais duros e não se ofendiam quando alguém dizia que laços de amizade são importantes em Banânia. Uma autêntica agressão!

Por falar em “sólida” carreira acadêmica, Fester, que já cortou pés de maconha no Paraguai, poderia dar algumas explicações mais detalhadas sobre questões que foram jogadas para baixo do tapete intelectual. Reza a lenda que, pouco antes de entrar para a famiglia, surgiram informações bastante sólidas (seguindo a linguagem de Novato) de que um de seus livros fez algumas transcrições literais de trechos de uma obra de um ex-juiz espanhol. Em segredo, um serelepe tucano relatou que é possível fazer uma busca no Google e rapidamente comparar os trechos dos dois livros. O animal está até agora de bico aberto com o resultado...

Tanto que a Comissão de Ética da “melhor” universidade de Banânia, provocada por dois deputados de um partido, em que “trabalho” é uma palavra sem sentido, teve que se pronunciar. Com a decisão, todos aprenderam que contra fatos há argumentos: não houve plágio. Mas isso é passado. O careca funéreo sempre vendeu muitos livros para “concurseiros”, uma das “profissões” mais prestigiadas no país em questão.

Recentemente, Fester entrou em uma crise de humor que lhe gerou grande dor de cabeça. Por conta de supostas ameaças e críticas reiteradas a membros de sua preciosa família, o ministro resolveu fazer uma verdadeira caçada às fake news. Despreocupado com a liberdade de expressão, tipificação penal, se um ministro (“juiz”) pode investigar ou com a Constituição, o fato é que acionou a PF para atacar conservadores e apoiadores de Mito. Mas essa história fica para o próximo episódio.

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