ANO: 26 | Nº: 6588

Rodrigo Tavares

06/06/2020 Rodrigo Tavares (Opinião)

Ainda é céu

Foto: Reprodução JM

"A literatura existe porque a vida não basta", disse o mestre Fernando Pessoa. O que seria da vida se não houvesse os momentos de fuga que nos permitem abstrair e, assim, amenizar a dureza da rotina e suas inúmeras obrigações que preenchem de vazio nossos dias?
A poesia de Gabriela Silva é justamente uma porta que se abre, uma fresta entre as grades das gaiolas que prendem os pássaros de nosso peito, para que esses sentimentos voem livres, afinal ainda há céu, mesmo nesses dias obscuros em que vivemos. A autora é graduada em Letras, tem licenciatura plena em língua portuguesa e literaturas de língua portuguesa pela FAPA (Faculdades Porto-Alegrenses) em 2003; Especialista em Leitura: Teoria e Prática pela FAPA em 2005; Mestre em Teoria da Literatura na PUCRS em 2009; Doutora em Teoria da Literatura com a tese Fabulae Moriendi: a ficcionalização da morte em quatro romances da literatura portuguesa contemporânea pela PUCRS, 2013.
Gabriela participou da segunda edição do FestFroteira Literária e estaria de novo em Bagé para a terceira edição do evento, onde autografaria seu novo livro, que está pronto, porém aguardando a divulgação da nova data de lançamento, em razão da pandemia do Coronavírus.
A autora lançou a obra "Ainda é céu" (2015), pela editora paulista Patuá, onde reúne poesias por vezes delicadas, mas em geral arrebatadoras. No escolha cirúrgica das palavras, dos ritmos e dos silêncios, a poesia de Gabriela Silva nos envolve em toda sua força e seus inúmeros ressignificados. Um bom exemplo, é a força do poema Autopsia, como vemos: Abri meu corpo/para procurar/o que me incomodava /com a ponta da navalha/fiz um corte no peito/separei as costelas/tateando o escuro/espaço interno de mim mesma/encontrei algo/meu coração não pulsa/troveja/senti ao tentar tocá-lo.
Sobre sua poesia, a autora falou ao site "Como escrevo": "Minhas ideias poéticas vêm das coisas que não posso dizer, tanto boas como más. Quando o nó tranca a minha garganta e a ideia fica permanentemente na minha mente, sei que preciso escrever, transformar aquele incômodo em poesia. É como se sufocasse até conseguir dizer. E as palavras me chamam a atenção, tenho um campo semântico que é peculiar na minha escrita poética, essas palavras me provocam, me fazem querer tê-las nos meus poemas. Isso me dá uma imensa vontade de escrever. E outra, dou ritmo aos meus poemas, enquanto ando, eles tem exatamente o ritmo do meu caminhar, pois eu gosto de pensar que eles tem algo de batimento cardíaco e devem estar associados à sístole e diástole. E gosto de um verso que me cause a epifania, um movimento em que eu mesma me emociono com o poema, dai eu penso: pronto, é isto, é esse o poema que vai ser escrito. Eu observo o mundo e a mim mesma, o ritmo do mundo sempre me deixou em estado de encantamento: andar, respirar, o movimento das cidades, da natureza, o pulsar de tudo em tudo". Gabi: Bagé te espera assim que a pandemia passar.

 

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