ANO: 26 | Nº: 6590

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
06/06/2020 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Bagé e Aparício Saravia: a carta que não chegou (5)

1. Últimos momentos de Aparício segundo O Dever.
O Dever foi um órgão oficial ou oficioso do Partido Republicano Rio-Grandense fundado em 15 de novembro de 1901 nesta cidade. Era periódico defensor intransigente de Júlio de Castilhos, Borges de Medeiros e a Igreja Católica, o que declara em seu frontispício. Teve entre seus diretores Tomaz Salgado, Lindolfo Collor e depois Adolfo Luiz Dupont, jornalista bajeense, promotor público, deputado estadual pela Frente Única Rio-Grandense (1935) e depois pelo Partido Republicano Castilhista (1937) PRR e vice-presidente da Assembleia Legislativa.
Na edição de 20 de setembro de 1904, uma terça-feira, o jornal publica:
"O GENERAL APARÍCIO SARAIVA.
Devido à obsequiosidade de pessoa da família, que assistiu aos derradeiros momentos de seu ilustre chefe, podemos dar hoje aos nossos leitores informações minuciosas e obsequiosidade e fidedignas sobre a natureza do ferimento, morte e sepultamento do bravo general Aparício Saraiva, inditoso chefe da revolução nacionalista uruguaia.
Pensamos ser isto um furo de reportagem, pois até agora nada se sabia de certo sobre tão importante acontecimento, o que trazia ainda em dúvida sobre a sua veracidade o espírito de muitos cidadãos orientais e mesmo patrícios nossos, que acompanham de perto os sucessos trágicos de que é scenario o vasto território da república vizinha, há muito varrido pelos frequentes e funestos sopros revolucionários. ***
O combate continuava no dia 1º (deste mês), na Coxilha Negra, proximidades de Sant'Ana, e o entusiasmo no exército nacionalista atingira ao auge, quando reconheceu que o inimigo cedia terreno.
As divisões 33, 8 e 9 se haviam empenhado com excessivo ardor na tremenda luta, da qual dependia talvez a sorte da causa que defendiam.
Comandavam essas divisões os coronéis Marins, Pancho e Mariano Saraiva.
Aparício, que se achava à frente dessas forças, querendo dar ordem para que as divisões dos extremos da direita e esquerda fizessem alto e deixassem avançar o centro, atravessou a linha de batalha com tanta imprudência que, nessa ocasião, alvejado pelo inimigo, recebeu no ventre um ferimento de bala.
Eram 5h 40min da tarde.
Ainda assim caminhou duas quadras a cavalo, sendo logo amparado pelo coronel Abel Sierra, comandante de sua escolta, e pelo capitão Juan Ortiaga, seu ajudante de ordens, os quais perceberam que o chefe fôra ferido.
O general pediu-lhes que o baixassem, que sentia-se cansado, o que estes se apressaram de o fazer. Depois de apear-se, disse: "Pobre pátria! Não sinto por mim, mas pelos companheiros!"
Foram estas suas últimas palavras aos seus amigos.
Uma padiola foi improvisada com lanças e ponchos e nela conduzido a pé, pela divisão de Nepomuceno, até o parque, que se achava a meia légua de distância, onde chegou as 11 horas da noite.
Ali recebeu os primeiros curativos feitos pelos Drs. Martinez e Trota, que reconheceram ser grave o ferimento, situado no lado direito.
Pela madrugada foi levado para o território brasileiro e entregue aos cuidados de dedicados amigos, entre eles o Dr. Lussich, seu médico assistente.
Pouco depois, chegando à casa onde se achava alojado o general, o Dr. Arthur Berro, médico do exército, ferido no mesmo combate, foi cumprimentá-lo e receber suas ordens.
O Dr. Lussich aproveitou a oportunidade e fez com ele uma demorada conferência.
Foi reconhecido, com profundo pesar, ser um caso perdido.
Só tinham ingresso no quarto onde se achava, seus amigos Drs. Urtiaga e Lussich, comandante Abel Sierra, e seu porta-bandeira.
No dia 8, às 13h 30min, Aparício chamou para junto de seu leito seu filho Mauro (o mais moço, de 16 anos de idade), e depois de uma meia hora de palestra, deu-lhe um beijo, dizendo-lhe que talvez fosse o beijo eterno.
Daí por diante não proferiu mais palavras, vindo a exalar o último suspiro no dia 10, às 13h 30min, por entre o copioso pranto de seus leais amigos.
Foi amortalhado com a bandeira uruguaia, tendo junto a si a heroica espada de tantas jornadas gloriosas, até o momento em que foi posto no luxuoso esquife ido da cidade de Sant'Anna.
Essa bandeira, que pertencia ao seu Estado Maior, foi retirada com a espada, após o sepultamento, que teve lugar ainda em nosso país.
No momento de baixar o corpo à sepultura, o que se deu no dia 11, o Dr. Urtiaga, em nome de seus amigos e do exército nacionalista, que representava, proferiu uma oração fúnebre, durante a qual deram-se cenas verdadeiramente comoventes e indescritíveis.
E assim finou-se o bravo gaúcho, digno de melhor sorte, e que, se cometeu erros, fê-lo inconscientemente, tudo sacrificando pela vitória da causa de seu partido, pelo qual morreu, como morrem os heróis, de espada em punho, gloriosamente. ***
O valente alazão em que montava Aparício no momento da refrega, um belíssimo puro-sangue, ferido por dois balaços, foi trazido com carinhoso afeto e entregue à Exma viúva D. Cândida Saraiva. "
As dificuldades de comunicação na época e um natural constrangimento impediram que a triste notícia logo chegasse. Um telegrama de 12 de setembro revela que nada se transmitira à família, tanto que uma visitante de Dona Cândida, que saia de sua casa em Bagé, informava que ali "acabava de chegar um emissário procedente do exército com a notícia de que o general estava melhorando".
Em 19 de setembro os seis irmãos estavam em Bagé para comunicar à mãe a morte de Aparício. Estavam desolados. E preocupados com o que poderia acontecer com a saúde dela. Ela estava na chácara. Foram recebidos por Emancipada e Amanda, pois Celina estava ajudando Cândida a vestir-se. – Que linda surpresa, meus seis filhos juntos depois de tanto tempo! Só falta Aparício para que toda a família se reúna como nos tempos de El Cordobés. Ficou agitada e caminhava de um lado para outro, até que Mauro a interrompeu e pediu que o escutasse, tomando-lhe as mãos. Cândida insiste para que as empregadas servissem o mate. Nepomuceno e Exaltación se aproximam. – Falem, o que tem para dizer-me? – Mãe, o general não virá, diz Nepomuceno. –Como não virá? – Mãe, o general morreu. Foi ferido em Masoller e não se recuperou, explica Ramón. –Não está certo, vocês estão confusos. – Mãe, escuta-nos, O General Aparício Saravia, nosso pai, morreu. – Não pode ser, exclamava Cândida. Espírito Santo porque me abandonastes? Cai em pranto sem fim. Os filhos a cercaram. As serviçais desandaram em lágrimas.
Em 15 de outubro se celebra a Paz de Aceguá. Em fins de outubro Cândida regressa a Melo. Quando Batlle foi reeleito, Cândida veio uma temporada para Bagé. Os filhos se preparavam para uma nova revolução e mais tarde levaram a mãe, temendo represálias. Ela se radica em Montevidéu em 1916 e não abandona os partidários de Aparício. Em 6 de janeiro de 1940 os filhos Mauro e Clemência a acham perturbada, variando e alegando que via uma pomba branca a esvoaçar. Sorri, deita na almofada. E não desperta mais.
A carta que escrevera na madrugada de 11 de setembro de 1904 não seria lida por Aparício que horas antes fora sepultado no cemitério da estância da família Pereira de Carvalho.
2. Um a pedido.
O jornal O Dever, mais tarde, publica em suas páginas a seguinte declaração, possivelmente pela divulgação de fato inverídico em Buenos Aires:
"A bem da verdade.
A Exma. Sra. D. Cândida Saraiva, respeitável viúva do malogrado general Aparício Saraiva, pede-nos para declarar que é inteiramente despido de verdade, absolutamente falso, o telegrama expedido da capital federal à "Opinião Pública", de Pelotas, em data de 16 e transcrito pelo "O Comércio" d'esta cidade. Acrescenta a Exma. Sra. que só tem para o diretório nacionalista, de Buenos Aires, votos de simpatia, reconhecimento e consideração.

Leitura: Diego Fischer. "Doña Cándida Saravia. El Remanso de Aparício". Montevidéu: Penguin Random House, 2018.

 

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