ANO: 26 | Nº: 6590

Fernando Risch

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Escritor
06/06/2020 Fernando Risch (Opinião)

Facho

Eu já falei sobre isso, e não foi agora, há poucas semanas, foi em novembro passado. Eu fico quieto, na minha, mas eles me obrigam a voltar no assunto. O assunto é o velho italiano, é claro, citado na última semana por certos presidentes por aí. O velho italiano, que jaz eterno e impávido de cabeça pra baixo, eternizado em fotos felizes tiradas abaixo de uma ponte.

Pois o velho italiano, que certos presidentes por aí citaram orgulhosos, é o italiano aquele, aquele, com nome de duque ou algo assim, da boina preta, do coturno lustroso, das amantes infinitas, da careca plena e do amor vivo pela violência dos feixes, ou fasces, ou fachos, ou fascistas. Este era o velho italiano, que disse aquela frase sobre viver um dia de leão ou cem anos de cordeiro, ou algo deste tipo, frase a qual certos presidentes compartilharam recentemente.

Falando nisso, há uma imensa gama de coincidências. Beber leite é apenas beber leite, se você estiver apenas bebendo leite. Beber leite com terceiras intenções, inspiradas na Alt Right americana, dos supremacistas brancos neonazistas, faz com que o ato de beber leite perca suas propriedades inocentes de fornecedor de cálcio e o torna um mensageiro do neonazi.

Mas pulemos o leite e a frase do velho italiano. Pulemos também aquele vídeo daquele saudoso Secretário de Cultura plagiando Joseph Goebbels ao som de Wagner. Ah, Wagner, sempre ele, a assinatura do nazismo. Foram coincidências também. Não se apegue a detalhes soltos, caro leitor, não veja chifre em cabeça de cavalo, pêlo em ovo, essas coisas. Tudo é uma grande coincidência.

Tivemos também bandeiras neonazistas ucranianas em algumas manifestações em favor de certos presidentes, mas que, também, são coincidências, e que, segundo alguns, tem um resignificado ou coisa assim. Mais uma vez estamos vendo coisas onde não há nada. Ah, eu já ia me esquecendo, teve uma marcha organizada por uma mulher que tem uma cruz de ferro (aquela, dos nazistas) tatuada no peito, em que os participantes caminharam com tochas na mão. Eu sei o que você está pensando, parece muito a Ku Klux Klan, mas por acaso você viu alguém vestido de Zé Gotinha? Não. Então é apenas mais uma coincidência.

Eu já falei sobre tudo isso, o caro leitor assíduo dirá com razão, mas há de se repetir toda vez que se faz necessário e toda vez que um acúmulo de aparentes e inocentes ações com mensagens subliminares ou explícitas aparecem para evocar algo. Há quem não se importe e há quem se levante contra esse tipo de conduta, colocando um belo selo antifacho à testa. Quem gostar, que pule de bungee jump com o velho italiano.

Se tudo isso foi proposital, apenas para provocar pessoas como eu a perder tempo escrevendo um texto, isso não importa. O que importa é que quem se associa ao nazismo e fascismo, nazista e fascista é. Ou melhor dizendo (e me repetindo), nas palavras de Leonel Brizola: "Se algo tem rabo de jacaré, couro de jacaré, boca de jacaré, pé de jacaré, olho de jacaré, corpo de jacaré e cabeça de jacaré, como é que não é jacaré?".

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