ANO: 26 | Nº: 6556

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
18/06/2020 João L. Roschildt (Opinião)

Tiranete de direita

Um dos vícios da ética progressista é a crença de que ostenta com exclusividade virtudes morais. Seus antagonistas, indignos desde o nascimento, são a representação do mal na Terra. O inferno sempre está do outro lado da rua, dizem os demônios. Como anjos caídos, os esquerdistas ainda seduzem os corações com narrativas fantasiosas e intoxicam as mentes com falsas promessas. O progressismo sempre se disfarça de anjo de luz para que possa convencer os indivíduos a realizar suas transgressões.

Em entrevista para o programa Roda Viva, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso, fez de sua participação um grande picadeiro para o ilusionismo. Abusando de uma retórica mansa, de um tom catedrático que busca convencer pela fascinação e de uma inebriante simpatia que faz com que quase todos caiam em tentação, Barroso não consegue livrar-se do mal. Esse eterno sonhador da esquerda, um progressista, um autodenominado iluminista que usa do STF para subverter a ordem jurídica e empurrar suas agendas ideológicas coletivistas, talvez tenha proferido uma das afirmações políticas mais emblemáticas dos últimos tempos.

É claro que existem verdadeiras “pérolas” ditas por diversas figuras públicas e que fariam os comediantes passarem vergonha. No entanto, quando isso provém de um sujeito que detém ares professorais, causa razoável frisson. Ele, que é constantemente elogiado por seus bajuladores ideológicos como um dos mais sábios ministros do STF e é sempre vendido como sensato e moderado, disse algo que pode abalar sua reputação “intelectual” (desconheço verdadeiros intelectuais que são favoráveis a legalização do aborto...). Sempre meticuloso no uso de termos e palavras vazias em seus discursos, que servem para encantar as serpentes, Barroso foi incisivo e não teve dúvidas ao comentar sobre esquerda, direita e populismo: “A minha visão do Chávez é um tiranete de direita. Sempre achei isso e continuo achando. Nunca consegui entender por que a esquerda brasileira se identificava com a Venezuela”. Apesar da piada pronta, ele não estava falando do protagonista de um famoso seriado televisivo, mas sim do líder máximo do país vizinho.

Operando na dinâmica simples de que todo poder autoritário provém do espectro oposto ao esquerdismo, de que nunca houve aplicação política prática do pensamento de Karl Marx (somente deturpações, o que preserva a utopia) e de que quando nada dá certo, a culpa é do outro, o ministro do STF, que se vangloria por declarar que não fala de política, faz política a todo instante. Aliás, será que praticou uma das maiores fake news ou será visto como uma mera opinião sobre a política em um Estado Democrático de Direito?

Bem, se Chávez, e por consequência Maduro, são de direita, a esquerda brasileira que apoiou explicitamente o socialismo do século XXI, é de direita? E Bolsonaro é de esquerda? Logo, o nazismo, imputado a Bolsonaro e seus apoiadores, é de esquerda, ok? Quais critérios definem esquerda e direita para Barroso? Os de sua preferência emocional e ideológica?

Essa estapafúrdia declaração do ministro, aliada a de que o ativismo judicial, aquela teoria em que juízes fazem leis de acordo com suas vontades, é uma lenda no Brasil, mostram o nível vergonhoso do STF. E mostram como anjos caídos não são crenças ou lendas: são reais.

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