ANO: 26 | Nº: 6590

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
25/06/2020 João L. Roschildt (Opinião)

Anacrônico

Ontem vi uma cena de um passado distante. Sem surpresas. No mundo atual, em que tudo é absolutamente instantâneo quanto um imbecilizante vídeo de aplicativo, feito para instantâneas redes sociais, qualquer passado é longínquo. Inclusive o dia de ontem. Tão deslocada no tempo quanto ver um jogador de futebol com chuteira preta, a imagem da realidade que vi ontem teria o poder de provocar náuseas em “antifas” e revolucionários de “iPhone”. Da mesma forma que este curto texto, que na dinâmica das últimas gerações é classificado como “textão”, afinal, ultrapassa as três linhas limítrofes que seus cérebros permitem ler. Digo, ler, não interpretar ou extrair algum significado razoável. Mas isso não preocupa. Como é um “textão”, não o lerão.

Bem, mas o fato é que a visão de ontem era profundamente deslocada dos valores de nossa época. Agredia como um soco de Mike Tyson. Nada mais simbólico, visto que a mera menção a um pugilista midiático e que fez muito sucesso, já mostra o poder de destruição do fato: soa como algo do século passado. Curiosamente, as gerações atuais, instantâneas como um achocolatado em pó, não entendem a rapidez de um soco que as coloque em nocaute. Portanto, esse simbolismo só serve para leitores old school. E achocolatado em pó vira uma comparação old-fashioned.

Curioso com o que vi? Eu também. Mas se conto o que assisti, a curiosidade será saciada e imediatamente o texto perderá a graça. Se é que ele conseguiu manter alguma atenção frente aos estímulos que inundam a vida contemporânea, ainda posso esconder a informação por mais algumas linhas. Disputar espaço com alguma digital influencer que mostra tendências da moda com um sorriso tão fake quanto as promessas de um revolucionário é tarefa árdua. Imagine competir com a pornografia e fotos ou vídeos que mostram as conquistas sexuais masculinas em grupos “privados” e “secretos” de WhatsApp? Impossível.

Então, é um dever revelar este mistério que pode causar enjoos coletivos. Ontem eu vi uma família. Pai, mãe, filha e filho. E os quatro andavam de mãos dadas pelas ruas de Bagé. Ocuparam um espaço horizontal significativo em meu horizonte. Chamaram a minha atenção porque há muito tempo não via essa configuração de mãos dadas. A menina tinha em torno de 10 anos de idade, ao passo que o menino era um pouco mais novo. Por um bom tempo os acompanhei como um espião. Via felicidade no rosto dos quatro. Algo que só o amor familiar pode produzir. Em tempos de coronavírus, eram “ilegais” e “irresponsáveis”: estavam sem máscaras. Algo natural, pois a felicidade não cobra responsabilidades e o amor não obedece a leis. Mas por que tudo isso é tão anacrônico?

Primeiro porque não era falso. Todos transpareciam os sentimentos que abundavam em seus corações. Depois porque era belo. E nessa era de ridicularização da beleza, os quatro resgataram aquilo que transcende a mera experiência carnal de nossa existência. Por fim, porque era simples e único. Em seus atos não havia cerimonial. E seus sorrisos eram afagos para suas almas que necessitavam umas das outras.

Havia ali um senso de eternidade. Laços perenes que os ligariam para o resto de suas vidas. Ou até a fase adulta cortar brutalmente algum cordão umbilical e afastá-los. Não tenho ideia. Não faço previsões. Sou adaptável e vivo a instantaneidade.

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