ANO: 26 | Nº: 6542

Fernando Risch

fegrisch@gmail.com
Escritor
27/06/2020 Fernando Risch (Opinião)

Gilson, toque Ave Maria


Há um mês, eu lamentava neste espaço que o Brasil havia passado os 20 mil mortos pela Covid-19. Há menos de 15 dias, eu me lamuriava com as 40 mil vítimas.Enquanto estas linhas são escritas, somamos 55 mil desfalecidos por essa doença. O ritmo está acelerando cada vez mais, com mais de mil mortos todos os dias.

Não quero vir aqui de peito aberto para falar que tive razão, longe disso, não é para isso que este espaço serve. Mas em um, de certa forma longínquo, 20 de março, eu pedi para que nós, Brasil e brasileiros, pecássemos pelo excesso para que hoje não tivéssemos arrependimento pelas vidas perdidas. Não pecamos pelo excesso de cuidados, pecamos pelo excesso de absurdos. Não fossem os governadores e prefeitos, hoje, teríamos mais covas.

Mas não há o que se comemorar, porque novas covas virão. A descentralização de ações no combate à pandemia é caótica. Prefeitos brigando com governadores e governadores, com linhas individuais de combate a doença, sem nenhum amparo do Governo Federal, que por si só, na figura de Jair Bolsonaro, preferiu fazer troça ou proferir grosserias ao passo que os corpos iam se acumulando como estatística no país.

Semana que vem, não pretendo falar mais sobre isso, porque tornou-se óbvia a projeção da desgraça. O número escalará de forma geométrica e cada alma, por mais chato e mórbido que pareça falar sobre isso, terá sua história solapada como um número sem rosto.

Do mau gosto e desrespeito, nesta quinta-feira, parece que a grande ficha da realidade, vinda de alguns anos-luz do espaço, enterrou-se na cabeça do presidente da República. Pela primeira vez, desde a primeira vítima da Covid-19, no dia 16 de março, Bolsonaro se solidarizou pelos mortos.

Talvez seja a iminência da Justiça contra sua família, a prisão de Queiroz, o cerco contra Flávio, a ofensiva do STF contra a milícia digital de mentiras; talvez seja um espelhamento natural ao que faz os Estados Unidos, porque se Trump abandonou a cloroquina e prega o distanciamento social, com críticas ao Brasil, é um sinal que seja a hora de mudar a postura para reconquistar o affair; ou talvez Bolsonaro tenha se dado conta de que se ele não guinar a direção a outro caminho, em breve 2% ou 3% da população brasileira sucumbirá para a doença e não apenas ele será impedido do cargo, como julgado pela omissão - o que já poderia ocorrer.

A questão é que o tom abrandou, a tez esmaeceu e, querendo ou não, ouviu-se um movimento vindo do presidente em prol das vítimas. Como sempre, a crise não é só política, econômica e sanitária, é estética. Depois de Paulo Guedes prometer mundos e fundos na live presidencial, Gilson, o gaiteiro, após a ordem de Bolsonaro, tocou uma Ave Maria desafinada na sanfona. Vindo de quem falou "e daí?", "não sou coveiro" e "quer que eu faça o quê?", já é um começo. Tardio, mas um começo.

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