ANO: 26 | Nº: 6542

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
27/06/2020 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

O negro no futebol (parte 1)

A assinatura da Lei Áurea em 13 de maio de 1888 coloca um fim na escravidão, mas não chega perto de terminar com os preconceitos social e racial, exara Márcio Trevisan: é que desde o século 14 o mundo acreditava na supremacia ariana sobre todos os que dela não fizessem parte, tanto que intelectuais brasileiros, já no século 20 classificavam a miscigenação, aqui constante, como uma deterioração da raça humana, afirmação do zoólogo Agassi quando esteve aqui em 1865. Daí, quando o esporte começou a ser implementado no Brasil, o futebol veta, velada ou até explicitamente, a participação de pobres e negros em suas equipes. Os clubes que não impediam o ingresso destas pessoas de cor, cobravam valores tão absurdos o que impedia a presença deles em seus quadros sociais, havendo quem não concordasse com essa proibição.
1. Os negros no futebol paulista e carioca.
A Ponte Preta, segundo clube mais antigo do país, foi o primeiro a ter negros e pobres em seu elenco, e isso desde que monta seu primeiro time, em 11.08.1900.
No Rio de Janeiro, o pioneirismo coube ao Bangu que, formado em sua imensa maioria por trabalhadores das fábricas do bairro, quase todos mulatos, escala Francisco Carregal, em 1905 e quebra a nefasta regra. Cabe, neste instante, como obrigatório, dar a palavra a Mário Filho, irmão de Nelson Rodrigues e autor da mais singular obra brasileira sobre o tema de que se trata.
No início, todos os jogadores eram claros, bem brancos, até louros, nos times pioneiros. Ingleses ou alemães, poucos eram os morenos, raros mulatos e pretos, tanto que nem chamavam atenção. Preto e branco não se confundiam. Existia uma fábrica no Rio, a Companhia Progresso Industrial do Brasil, fábrica de tecidos, brasileira, de capitais portugueses e que mandara buscar mestres na Inglaterra. Estes fundam o The Bangu Athletic Club, cujos iniciadores foram nove: sete ingleses, um italiano e um brasileiro, branco (João Ferrer). Ferrer era dirigente da fábrica, cujo nome, mais tarde, seria dado à rua onde se situava o aprazível fielf da Rua Ferrer. Ferrer ali estava para não deixar que o clube se transformasse em time só dos ingleses, mas fazer dele um clube de operários da fábrica. No Rio havia outro clube, o Paissandu Cricket Club, e, em Niterói o Cricket and Athletic Association, também de ingleses ou filhos deles.
No Paissandu consegue jogar um brasileiro, mas filho de ingleses, Sidney Pullen, que atua até pela seleção brasileira em Buenos Aires, sem chamar atenção, pois tinha nome e cara de inglês, e que mais tarde iria para a Inglaterra servir como soldado britânico. Nos campos se achava um bar onde os jogadores ingleses iam beber depois dos jogos, sob as vistas dos operários, brancos, mulatos e pretos. Quando a bola ia fora, alguns deles e crianças corriam atrás da pelota. O primeiro time do Bangu tinha a seguinte formação: cinco ingleses, três italianos, dois portugueses e, finalmente, um brasileiro, Francisco Carregal, brasileiro, com cinquenta por cento de sangue preto, por parte de mãe, casada com um português, branco. Era o único brasileiro do time, caprichava na maneira de vestir, era o mais bem vestido atleta do Bangu, um verdadeiro dândi em campo. Na época, os jogadores tinham bigodões, menos Carregal e dois ingleses, sem sinal de buço, pele lisa e macia. Carregal, que aparece segurando a bola, na primeira fotografia do Bangu, um simples tecelão, preocupado em não fazer feio, usava um conjunto inteiramente novo, diferenciando-se dos demais: botinas travadas, as meias de lã, calções; a caneleira era rara. Um dos ingleses, Procter, mais descuidado, recortara a calça branca para fazer o calção, uma meia comum segura por ligas pretas que feriam os olhos na perna branca do jogador.
Carregal era center-forward. Mais tarde o Bangu teria um goalkeeper negro, filho de preta com preto, Manuel Maia. Mesmo jogando ao lado dos mestres, os jogadores negros não subiam na organização funcional da fábrica, de que viviam, pois, o futebol apenas rendia famanada rendia, fora a fama.
O Vasco da Gama aparece em 1898, criado para o remo e integração entre lusitanos e brasileiros, mas não pretende ser um clube fechado de colônia, declara Cláudio Nogueira, que alude ao significado das cores preta e branca como uma abertura às pessoas de todas as raças e classes sociais, brasileiros, portugueses, pessoas de qualquer nacionalidade, credo ou origem. Depois que o futebol aparece no Rio de Janeiro, seduzidos pela vinda de um combinado de Lisboa jogou com o Botafogo (1913), os portugueses se animaram em fundar o Lusitânia. O Vasco busca a fusão, mas encontra obstáculos pois só aceitavam portugueses. E a Liga Metropolitana de Esportes não admite equipe sem brasileiros, o que ocasiona a união em 1915, e ingresso na Terceira Divisão. Em 1922, com sonho de chegar à série A o Vasco contrata o uruguaio Ramón Platero, ganha a série B e almeja melhor posição. Os demais times estranham que o Vasco tenha jogadores oriundos da Liga Suburbana, composta por negros, analfabetos, e vindos das classes populares, algo inimaginável nos grandes clubes, cujos atletas eram brancos, filhos de boas famílias da Zona Sul. Ademais o clube pagava gratificações aos atletas ("bicho") enquanto o futebol elitizado era amador. (Continua)

Leituras: "O negro no futebol brasileiro", de Mário Filho; "Vasco, a cruz do bacalhau", de Aldir Blanc e José Reinaldo Marques; Cláudio Nogueira, "O Time do meu coração. Clube de Regatas Vasco da Gama"; Márcio Trevisan, "História do Futebol para quem tem pressa". O texto é parte do livro quarentenal "Guarany FC. O único clube do interior bicampeão estadual", em elaboração.

 

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