ANO: 26 | Nº: 6590

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
02/07/2020 João L. Roschildt (Opinião)

Coxilha

Para pais verdadeiramente comprometidos com seus filhos, o simbolismo do amor pode se apresentar a qualquer momento. Talvez pela falta de maturidade ou por não terem sentido a sensação de nostalgia, filhos têm mais dificuldade em ver alguma mágica metafórica. Muito provavelmente uma mudança de visões só acontecerá quando se tornarem pais.

Mas, para gerações inteiras que perderam a verdadeira noção do que é belo, qualquer comparação simbólica nas ações cotidianas, não faz sentido algum. Assim como suas vidas são desprovidas de significados profundos, tudo em seu entorno esmaece. Sem a exposição de uma fresta para a transcendência, nenhum ser humano perceberá o quão profundo podem ser os versos de “A espantosa realidade das coisas”, de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa: “Por vezes ouço passar o vento; E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido”. A maioria sequer sabe o que é o vento.

Há pouco tempo, eu e meu filho descemos de mãos dadas uma pequena coxilha, enquanto sua mãe, meu amor, descansava em uma bucólica casa de campo. As diversas plantas nativas que balançavam com o vento, prendiam a atenção de seus olhos e faziam com que ele apontasse incessantemente em suas direções. Era uma vasta extensão de novidades. Quase ao término do declive, meu filho aproveitou para ver algumas vacas e cavalos, animais que habitam seu imaginário de histórias infantis. Olhou para o céu, apontou para alguns pássaros. Aproveitou e acenou para a “dona Lua” que, mesmo sendo dia claro, já se mostrava. Provavelmente ela o tenha retribuído. Mas eu não consegui observar.

Paramos por um instante. Ouvimos o vento, literalmente. E ouvimos o silêncio. Parado, ele apontou para uma porteira como que pedindo para ir até lá. Expliquei que estava muito distante. Ele ouviu e repentinamente começou a subir sozinho a coxilha para retornar ao nosso ponto de partida. Como estava com minha câmera fotográfica e dada a inclinação, aproveitei para registrar esse momento de contraste com o campo e com o céu. Suas perninhas compridas, protegidas por botas, equilibravam seu corpo com certa dificuldade para se manter em pé. Algo normal para quem tem um ano e seis meses de idade.

No meio do trajeto, enquanto o fotografava, gritei: “Joaquim! Joaquim!”. Ele parou e virou o tronco em minha direção. Cansado demais para sorrir, preferiu me observar de forma séria. Estava longe, mas a lente me colocou em seus olhos. Havia carinho, cumplicidade e amor. Talvez ele tenha pensado: “Pai, estou bem, só estou subindo para ver a mãe”. E assim ele voltou a sua pequena “escalada”.

No topo da coxilha, quando o contraste com o céu se tornou mais proeminente e fiz meu último registro fotográfico, entendi como os filhos são do mundo. E que os pais não são os donos do mundo. Até o meu último suspiro, espero que a vida me possibilite ver os esforços e vitórias de meu filho. Pode ser que ele tenha me deixado na parte baixa da coxilha para mostrar isso e o quanto é autônomo. E o quanto consegue se equilibrar em terrenos irregulares. E o quanto está apto para vencer um obstáculo enorme para alguém tão pequeno. No dia em que partir, espero me recordar com felicidade de tudo isso.

Me ergui. Observei as fotos tiradas na tela da câmera. Escutei o vento novamente. Vi que era hora de subir a coxilha.

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