ANO: 26 | Nº: 6588

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
04/07/2020 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

O negro no futebol (parte 2)

Em 1923-24 aparece a Associação Metropolitana de Esportes Atléticos e para nela ingressar o clube tinha que possuir estádio próprio e comprovar que seus atletas não eram das classes inferiores, como a de operários. O Vasco tinha um campo provisório e contava com tantos negros e operários que a novel entidade exige que elimine 12 atletas, a que a diretoria vascaína repele de modo veemente, através de longo expediente, desistindo de fazer parte da Associação. Com isso o time da Colina ganha seu maior título: campeão na luta contra o preconceito, lembrando a abolição acontecera menos de 40 anos antes. Mas as vitórias que conquista em campo e a construção de seu estádio em São Cristóvão na antiga "Chacrinha da Marquesa", que no século XIX pertencera a Domitilia de Canto e Melo, a Marquesa de Santos, favorita de Pedro I. O Vasco ganha o campeonato de 1929.
Aldir Blanc e José Reinaldo Marques registram que o Vasco foi o primeiro clube do Rio a ver seu nome vinculado a vitórias no campo social e importantes episódios culturais e políticos, como acontece durante o Estado Novo do Presidente Getúlio Vargas, pois na década de 20 bate de frente contra o preconceito e o racismo manifestado nos ambientes dos grandes clubes cariocas, comandados pela elite.
O Vasco não se intimida, mantendo as portas abertas para todas as classes sociais, quando o futebol só podia ser praticado pelos meninos ricos e filhos da classe média, e até pagou, por isso, um alto preço. A posição histórica do Vasco seria ratificada quando elege um presidente negro, Cândido José de Araújo (1904-05).
Outros times depois possuíam jogadores negros em seu plantel, como Fluminense, Botafogo, América e Bangu. No Fluminense o mulato Carlos Alberto, usava um talco para esconder sua mulatice, daí a torcida haver criado o mito do pó de arroz. Quando Carlos Alberto não jogava, a torcida adversária cantava igual o pó de arroz, que virou apelido do tricolor das Laranjeiras.
O avante paulista Tatu, campeão sul-americano em 1922, tinha cabelo grosso e pele bem escura. O grande Arthur Friedenreich, cujo futebol cronistas comparavam a Pelé, era mulato, não gostava de se assumir negro, e não foi convocado pela Confederação Brasileira de Desportes em vista da recomendação do Presidente Epitácio Pessoa para que não fossem selecionados negros e mulatos. Domingos da Guia se queixava não gostar de jogar no estádio do Bangu, pois lá vira jogador negro apanhar pelo cometimento de alguma falta.
Essa presença de negros e mestiços entre os jogadores de futebol, assim como a dos pobres, ou mesmo de uma incipiente classe média, incomodava a elite branca. Em dezembro de 1917 era editada a Lei do Amadorismo que prescrevia: "Não poderão ser registrados como atletas os que tirem os meios de subsistência de profissão braçal, aqueles de profissão humilhante (que lhes permitam recebimento de gorjetas), os analfabetos e os que, mesmo que não se enquadrem nas condições citadas, estejam abaixo do nível moral exigido pelo Conselho Superior. Ou seja, estavam excluídos os pretos e pobres . Não se admira, pois, a determinação de Epitácio Pessoa à CBD, em 1921, para que a seleção brasileira fosse integrada apenas de jogadores com a pele mais clara e cabelos lisos, o que afetou a convocação de Friedenreich.
Friedenreich, assinala Mário Filho, era filho de alemão, de barbicha rala, que não perdia partida do filho e se orgulhava de ser o pai do pezinho de ouro, perna fina, coberta de meias de lã, calções até abaixo dos joelhos. O cabelo de Arthur era preto, espichado e brilhava ao sol, parecendo postiço, colado na cabeça com goma arábica. Nem um fio da cabaleteira caía, ou desmanchava. Fred era moreno, olhos verdes, cabelo farto, mas duro, rebelde. Levava até meia hora amansando o cabelo, untado de brilhantina. Com o pente puxava o cabelo para trás até que ficasse colado na cabeça, como uma carapuça. Os juízes se impacientavam com isso, Arthur custava a entrar em campo, ficava com uma toalha na cabeça como turbante, aguardava que o cabelo assentasse. Era o último a entrar em campo, mas quando aparecia a multidão aumentava as palmas, era o mais festejado.
Arthur Friedenreich (18.07.1892/ 06.09.1969), era paulista. Atua nos clubes Germânia (hoje Pinheiros), Mackenzie, Ypiranga e Paulistano, com quem excursiona à Europa (primeira viagem de time brasileiro ao exterior), aonde tem extraordinária participação, especialmente na goleada de 7x2 contra a França, aí apelidado de roi du foottball. Tal brilhantismo, e em outras partidas, determina que loja do Rio exponha nas vitrines chuteiras. Joga também pela seleção nacional no Sul-americano 1919, fazendo um dos gols da vitória sobre os uruguaios e tornando-se o goleador do certame. Pela proibição de Epitácio Pessoa vai à Copa do Mundo. Integra no São Paulo (1931) o vitorioso Esquadrão de Aço. Finda sua carreira no Flamengo (1935), onde esteve até os 43 anos, e por não aceitar o profissionalismo. Consta haver marcado 1.329 gols, superando Pelé. (Continua)

Leituras: "O negro no futebol brasileiro", de Mário Filho; "Vasco, a cruz do bacalhau", de Aldir Blanc e José Reinaldo Marques; Cláudio Nogueira, "O Time do meu coração. Clube de Regatas Vasco da Gama"; Márcio Trevisan, "História do Futebol para quem tem pressa". O texto é parte do livro quarentenal "Guarany FC. O único clube do interior bicampeão estadual", em elaboração.

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