ANO: 26 | Nº: 6590

Luiz Fernando Mainardi

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Deputado Estadual
09/07/2020 Luiz Fernando Mainardi (Opinião)

E depois da pandemia?


A pandemia da Covid-19 tem sido um flagelo em todo o mundo. Aqui no Rio Grande do Sul ganhou uma dimensão grave tardiamente, considerando a realidade brasileira, e exige de todos um pouco mais de sacrifícios e paciência. Estaríamos em uma situação menos difícil se o governo federal tivesse cumprido com todas as suas obrigações em uma situação como essa, basicamente aquelas relacionadas com um suporte extra e especial para o sistema de saúde, uma estratégia clara e unificada de superação da crise e políticas públicas de apoio a cidadãos vulneráveis economicamente e ao pequeno e médio negócio. Infelizmente, a realidade é o inverso disso. Faz dois meses que estamos sem ministro da saúde e o ministro da economia foi claro ao dizer que a prioridade para o apoio governamental eram os grandes, não os pequenos nem os médios.

O resultado é que nem todo mundo consegue fazer a única coisa que efetivamente pode evitar mortes e todo o impacto que isso tem na economia e no espírito de uma sociedade: o distanciamento social. E não pode porque a nossa sociedade é estruturalmente injusta e desigual. Não é um problema de Bagé, especificamente, nem mesmo só do Rio Grande do Sul. É um problema do Brasil inteiro. Estamos situados entre os 10 países mais desiguais do mundo. Temos pessoas que acumularam riquezas inimagináveis e outras que sofrem misérias também desconhecidas em outras partes do planeta. Isso em um país que, como sabemos, possui imensas riquezas naturais, uma população economicamente ativa bastante significativa e uma capacidade empresarial também importante.

Com a pandemia, todas essas características de uma sociedade injusta e desigual se desnudam. Essas desigualdades ficam explícitas, por exemplo, no acesso aos bens da saúde, da mobilidade urbana, da infraestrutura nas cidades, do trabalho. A verdade inconveniente e incontornável de nossa realidade atual é que quanto mais dinheiro uma pessoa tem mais ela e sua família terão condições de passar por esta pandemia com segurança. Ao inverso disso, a pobreza, a falta de trabalho e acesso ao crédito, mais colocam em risco as pessoas, que precisam, como se diz, ganhar o dinheiro do dia a cada dia, que precisam usar o transporte público, que sofrem em filas para o acesso ao atendimento médico, que não têm suficientes garantias para obter a confiança das instituições de crédito.

Aos agentes públicos cabem, portanto, a enorme responsabilidade de auxiliar a todas as pessoas que precisam, principalmente aos que mais precisam, neste momento. É evidente que o governo federal, por sua condição de sujeito da economia nacional, tem maiores condições de praticar qualquer política pública para esse auxílio, mas estados e municípios não podem ficar passivos. Inclusive porque os outros problemas não desaparecem por causa da pandemia. Vejam, no início de abril apresentamos na Assembleia Legislativa uma ideia para que o governo estadual pagasse em dia os servidores e, ao mesmo tempo, tivesse recursos para dar suporte aos pequenos agricultores, que sofrem também com a seca no estado, além de ajudar os municípios na área da saúde e criar um programa de renda mínima complementar à ajuda do governo federal. A proposta era simples: lançar mão do modelo de empréstimos subsidiados no Banrisul, de forma que os servidores pudessem receber em dia e sem parcelamento (o que, obviamente, teria um impacto positivo sobre o pequeno negócio em todo o estado já que haveria mais dinheiro circulante) ao mesmo tempo em que o governo pudesse destinar o que seria gasto com a folha de pagamento para os programas citados acima. Até hoje, entretanto, a ideia está parada em algum escaninho do palácio Piratini, os agricultores continuam sem ajuda e proteção, os servidores continuam recebendo parceladamente e as pessoas em situação de pobreza só tem os R$ 600 da ajuda federal.

Mas se é necessário agir no presente é fundamental, também, que pensemos no futuro. Vamos superar esta crise sanitária, com mais ou menos dano, dependendo de nossas condutas como cidadãos e como governantes. Mas e depois? Queremos voltar ao normal da desigualdade, da falta de transparência nas ações do poder público, da corrupção, do pequeno nível de participação dos cidadãos nos negócios do Estado, da falta de emprego, renda, solidariedade? Ou sairemos dessa com a vontade de repensar a nossa sociedade, o nosso país, estado, cidade, bairro?

Não podemos mudar tudo, evidente. Mas podemos começar a mudar as coisas, dando início a um processo que poderá sim ganhar uma grande dimensão. E podemos começar tudo isso em nossa cidade. É aqui que moramos. É aqui que a nossa vida acontece, em todas as suas dimensões. Para fazer isso, para tornar a vida na cidade menos desigual, o fundamental é pensarmos que todos nós temos direito à cidade e aos seus bens. Isso quer dizer que o acesso aos serviços públicos deve ser realmente universalizado, mas também priorizado.

É a famosa "inversão de prioridades", que olha com uma maior atenção para as periferias, onde historicamente se concentram as áreas com menor infraestrutura; que olha com prioridade para a qualidade e regularidade do transporte público, por onde a maioria absoluta de nossos habitantes acessam os bens da cidade (apesar de parecer o contrário); que pensa em primeiro lugar em como atender as necessidades dos que mais precisam; que se preocupa em garantir ótima qualidade na educação pública e na saúde pública, principalmente aquela que está no bairro, perto das pessoas que não têm acesso aos planos de saúde. Mais do que isso, é o compromisso com uma administração pública em que o dinheiro público, que é de todos, seja tratado com zelo, que exista transparência e ética nessas relações.

Se conseguirmos iniciar esse processo em nossa cidade então saberemos que aprendemos como sociedade aos efeitos trágicos desta pandemia, quando ficou claro que ninguém está seguro quando a maioria das pessoas vive de forma insegura. Teremos aprendido que nosso destino, como seres sociais, é construir uma sociedade em que nos reconheçamos como iguais, em direitos e deveres. Nós podemos começar por nossa cidade.

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