ANO: 26 | Nº: 6588

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
11/07/2020 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Monólogos de mim comigo


Esse é tempo de recolhimento e introspecção. Exame de consciência, Pai-Nosso; reflexões filosóficas; lazer, convívio possível; seriados e filmes; releituras, pois há horas folgadas; mexer nos baús em busca dos escritos descuidados e cartas reprimidas. Encontro alguns exercícios literários, pedaços da vocação sufocada.
O eclipse, de Augusto Monterroso.
"Quando frei Bartolomeu Arrazola se sentiu perdido aceitou que nada pode salvá-lo. A selva asfixiante da Guatemala o aprisionara, implacável e definitiva. Ante sua ignorância topográfica senta-se com tranquilidade a esperar a morte. Queria morrer ali, sem nenhuma esperança, sozinho, com o pensamento na Espanha distante, particularmente no Convento d' Os Abrolhos, onde Carlos V concedera baixar de sua eminência para dizer que confiava no céu religioso dele e seu trabalho redentor.
Ao despertar estava rodeado por um grupo de índios de rosto impassível dispostos a sacrificá-lo num altar que, a Bartolomeu, pareceu um catre em que descansaria, no fim, dos temores do destino e de si mesmo.
Os três anos no país tinham lhe conferido razoável domínio das línguas nativas. Arriscou algo. Disse algumas palavras que pareceram entendidas.
Então floresce nele uma ideia que teve como digna de seu talento, de sua cultura universal e de seu esforçado conhecimento de Aristóteles.
Lembrou que para esse dia se aguardava um eclipse total do sol. E acha, em seu íntimo, valer-se do fato para enganar os opressores e salvar a vida. - Se me matais, disse, o sol apagará nas alturas.
Os índios o miraram fixamente e Bartolomeu surpreende incredulidade nos olhos deles. Notou que se reuniram em conselho. Espera confiante, até com algum desdém.
Duas horas depois o coração de frei Bartolomeu Arrazola verte sangue na pedra dos sacrifícios, brilhando sob a luz opaca de um sol escondido, enquanto os índios recitavam sem inflexão de voz, ou pressa, uma por uma, as infinitas datas em que ocorreriam os eclipses solares e lunares que os astrônomos maias haviam previsto e escrito nos códigos sem a valiosa ajuda de Aristóteles. "
Eu: admiro o talento dos tradutores, como Bill Guedes, Chico Botelho. Fiz essa tentativa. Monterroso é guatemalteco. Escreve relatos, ensaios e fábulas. Com fino humor. É autor do mais famoso miniconto do mundo: " O dinossauro. Quando despertou, o dinossauro ainda estava ali. "
O berro do boi.
"O ônibus atravessa a ponte, o grupo chega com preocupação e dúvida, não sabe se a notícia se espalhou, a turma da cidade larga mais cedo, talvez a rádio tivesse comunicado, há um programa nativista muito ouvido, a situação já é outra, tudo fechado, nada nas canchas, as máquinas silenciosas: mas não, quando abre a porta desce um, depois dois, dá até para contar, três, outro no fundo, quatro, restam poucos, parece que o movimento começa bem, os que moram nas casas do frigorífico nem mostram a cara, ficam por lá mesmo espiando pelas venezianas, tomam mate, as crianças folgam no colégio; uma mulher atravessa a rua com uma caixa de leite, lá vem outra com um pacote de pão, falam baixo como em velório, despedem-se; os passageiros do ônibus se juntam ao grupo, mas nem todos.
Vicente anda até o portão, é homem com ombros altos, os músculos apertam as mangas da camisa, dizem que foi domador, agora é chefe da desossa, protegido dos donos, nos fins de semana pesca com eles, na verdade serve de motorista e cozinheiro, mas se dá muito respeito por isso.
Alma se adianta, toma a frente e pergunta se não sabe que resolveram parar, nada vai funcionar até que acertem os salários, é a forma de pressão, responde que sim, tinha ouvido, continua a caminhar, diz que vai trabalhar, o emprego é de confiança.
- Não, não vais não, diz Alma- os outros se chegando- a ordem é geral, a categoria decidiu. -Só recebo ordem do Dr. João.
- Esse só manda depois que pagar. Não, não obedece mulher, sua santa mãe está no céu, nem quis casar porque quem gosta de freio é cavalo, não é agora depois de velho que vai usar boçal.
- Bem se vê que sempre fostes do outro lado!
- É problema meu, não dou satisfação, diz Vicente irritado, principalmente porque os outros o seguram – ninguém se achegue que vai se dar mal, retruca-, a mão na cintura, procura algo.
Alma tenta o braço, recebe empurrão, repete que "ninguém vai furar", é jogada no chão, por favor, nada de violência, muitos cercam Vicente, mas é forte, tenta romper em direção ao abatedouro, é como se vê todo dia, o boi na mangueira, os amadrinhadores montados empurram com varas curtas, oigalê, – diz um- cuidado com as guampas, alguém enfrena o tobiano, "só se for de tua irmã", os rebenques estouram nos couros azedos, ar de peste e sal, ele vai tomando o rumo, passa pelo brete, mais uma estocada, entra na sala, a brancura entontece, reage, um olho triste mira o corredor de aventais, um brilho na mão, alguém enfia uma faca, a jugular esguicha, fica tonto, pensa no verde, - ah, o descanso embaixo da figueira -, o bicho sangra, berra, se atira na madeira, recua (outro pontaço, mais golpes) e aparece um sol contra os arames, o peito rebenta. Tudo se aquieta. "
Eu: conto da oficina de Luiz Antonio Assis Brasil. Os alunos tinham que escolher uma personagem de sexo diverso do escritor. Elegi "Alma", líder da greve numa charqueada. Vicente, o chefe da desossa.
Ensaios de minicontos.
"Almoço. Agora sobra: perambular neste solaço. A separação, trágica: filhos distantes, sem cama ou renda. A conta, raquítica. Hoje só o consolo da companhia. Mas a sinto indecisa. Como neste meio-dia. Quando avanço, ela tropeça; se paro, recua. E, no soslaio, desapareceu. "
"Escombro. A casa de minha madrinha. Na parede um gobelim. É um tecido da Casa Gobelin, Paris, século dezoito. No desenho o caçador alveja dois cervos. Então olhava absorto, hipnotizado. Retorno para conferir o espolio. Na parede ainda o gobelim, empoeirado. Chego perto. E surpreendo o caçador me apontando a espingarda."
Microcontos (imitando Monterroso).
"Pompas. Meio-dia. Enxuga a lágrima, fecha o esquife e vai ao banco".
" Alegria. Ela sorriu quando tirei a faca".
"Ocorrência. Entre o carro e o hospital não dei conta dele".
"Afeto. Quando virei ela empunhava a arma. "
Paradoxo de Tchecov.
"Réquiem. Ela desce do carro. Vai ao canteiro. Destroça o jasmim, e parte. Não pensava que terminasse assim. "
"Versículo. Só o horizonte largo quando chega. Sóis e luas quarentenam a voz muda. Um dia, na rua, sente a mão que toca a barra de seu andrajo. "
Eu explicando: contam que, quando acham Tchecov morto, em seu bolso, amarfanhado, estava um papel (outros dizem que estava escrito num caderno), dizendo: " Um homem, em Monte Carlo, vai ao cassino, ganha um milhão, volta para casa e se suicida". Hoje é o roteiro de um conto clássico: uma história no primeiro plano; o relato do suicídio; a surpresa ou "estranhamento", ou subtexto. Segundo Ricardo Piglia, um dos maiores escritores argentinos, " uma história visível esconde uma história secreta, usando um modo elíptico e fragmentário". Isso aprendi na oficina virtual da escritora Cíntia Moscovih. Mãos à obra, pois, futuros contistas bajeenses.

 

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