ANO: 26 | Nº: 6590
16/07/2020 Luiz Coronel (Opinião)

Bagé, capital da minha infância

Existe uma cidade cujos pilares são erguidos por nossas lembranças. Ela está em nós, move-se pelos caminhos que percorremos, constituindo-se num patrimônio pessoal, intransferível, para cada um de seus habitantes.
Pintamos suas paredes com as cores de nossa fantasia, sentamos à sombra de todas as ausências.
A memória caminha por suas avenidas. Pessoas, momentos, fatos, são placas, são setas que balizam nossos caminhos.
Lá estamos nós, na primeira página, hóspedes na Casa Paroquial, tendo por anfitrião o Monsenhor Costábile Hipólito.
A mãe e seis filhos banham-se nos raios de sol que atravessam uma basculante. O pai, Janguinho, afogara-se num copo, aos trinte e quatro anos.
Breve, a diáspora. Os tios assumem a ninhada. E nós, os irmãos, embora dispersos, por abençoado ditame do sangue que corre nas veias, permaneceremos unidos nos dias de chuva e nos dias de sol também.
Tenho pouco mais do que três anos. Sou levado à Rua Felix da Cunha 76, hoje Getúlio Vargas. Tio Djalma me recebe.
-E se Seu Getúlio disser que "pronti e pronti e probti," que terei que ir embora? O Tio protetor alisa minha cabeça e responde : - Agora és o gurizinho da casa! Saí correndo por quartos e corredores, movido pelo mais puro contentamento. Ganhara um lugar no mundo.
"A criança é o pai do homem." Maria Amélia, irmã mais velha, leva-me pela mão ao Colégio das Freiras. Numa encenação escolar, Mariazinha é raptada por ciganos. Levanto-me na plateia é brado padecente e assombrado: -Soltem a minha irmã! A arte e vida já se fundiam como uma só e inseparável realidade.
E a minha casa. Os mendigos tomando café com leite com pão e mortadela. O Tio os chamava pelo nome e sobrenome. E as velhinhas da Vila Vicentina, acolhidas com brados de alegria, como se fossem envelhecidos querubins
E existia a casa dos padrinhos, Maximiano e Diva, onde fui sempre algo muito próximo a um filho adotivo.
Alegria maior não existia do que voar pelos ares na torre da Igreja Auxiliadora, elevado pelas cordas que me elevavam no oscilar e tanger dos sinos.
E como eu invejava os pagens, com seus penachos, fofos culotes, veludos, numa hierarquia de cores, do carmim ao branco, passando pelas tonalidades do azul, amarelo e o suntuoso branco.
As famílias ricas os vestiam. A mim restava rotineira indumentária de coroinha, jogando incenso no oscilar do turíbulo, que balançava qual o pêndulo de um relógio, dos antigos carrilhões.
Sonhava "namoriscar" um anjo de penas, embora apenas os anjos de papel crepom, em seu cortejo, me conferissem fugidias miradas.
Existia também a casa dos tios. Tio Peri, Tio Valdemar, e os numerosos primos, cujas vidas atento eu observava. Éramos habitantes de diverso planeta. A travessia, se não chegava a ser uma aventura, pelo menos rompia o pacato cotidiano.
A Praça Esporte era meu pátio, meu latifúndio. Esperava a abertura dos portões como quem aguarda-se sua vez no paraíso.
No Colégio dos Padres, o uniforme militar, a coluna como castigo, a caderneta. Por ter derrubado o tinteiro o Padre Conselheiro impôs a declamação do Poema " O livro e a América", de Castro Alves. Permeando o improvisado recital paro e pergunto : -Padre, o que é isso "Leoa a de ruiva coma?" Rir foi sempre a salvação ante culpas e padecimentos.
José Dias Martins, meu tio, pai de Vanda Mourão, alcança-me uma carteira de sócio no Clube Comercial. Foi minha "carta de alforria".
Rodopiar nos salões com as belas filhas da terra foi entrar em órbita no reino dos bem-havidos. Os grandes bailes de Exposição. Eu descobria "que o mundo é grande e pequeno," e que havia um lugar para mim.
Boto pé na estrada, curso a faculdade de direito.
E vieram os anos da inquietação política. Jovem, eu acreditava que o mundo teria rumos revolucionários. Discuto durante o almoço, naquele embate de ideias, que até hoje se arrastam qual lagartixas no teto. Abandono minha casa ao amanhecer, sem despedidas nem afagos.
Expulso da casa dos Estudantes, por subversivo, moro na Galeria do Rosário, 14º andar, num apartamento que bem lembrava uma cabine telefônica.
Batem à porta. Era ao Tio que vinha de Bagé, apenas me dizer que "as relações de afeto num família são fundamentalmente mais importantes do que nossas opções politicas.
E vi seu passo se afastando no corredor. Sentei na cama e chorei.
Mais tarde, caminho com o Tio - ao qual chamava de padrinho- pela Avenida Borges de Medeiros quando ele, generosamente, me diz :- Luizinho, desiste do teu plano de voltar para Bagé, tu vais ser um escritor, e Porto Alegre Já te acolhe.
A vida continuou com seu roteiro. Escrever livros, errar, acertar, e as décadas se soltam ao vento qual folhas outonais.
A casa de Presidente Vargas continuava a ser um núcleo disto que se chama família, com todas as despedidas que comporta, todos os sonhos que abriga.
Bagé me contempla com gratas distinções quando completo 80 anos. Caminho por suas ruas largas. Por trás de seus alaridos há o grande silencio dos que partiram para sempre. A morte não nos derrota, substitui, apenas.
Peço perdão por homenagear minha cidade com "recuerdos" tão pessoais. Seremos sempre a infância que um dia nos colocou ante o espelho do tempo. Um menino de olhos grandes sabe que a vida não tarda. À frente, um longo caminho, 'as costas, um Anjo da Guarda.
As cidades, sim, as cidades, depositarias fiéis de nossas vidas, guardiãs de nossa memória, manjedoura de nossa infância. Sempre direi : Bagé, é a capital da minha infância.

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