ANO: 26 | Nº: 6590

Melissa Louçan

melissajornalminuano@gmail.com
Jornalista formada na Universidade da Região da Campanha (Urcamp) em 2009. Desde Setembro de 2011 faz parte da equipe de reportagem do Jornal MINUANO, na editoria Geral. Em Março de 2017 assumiu a editoria Empreendedor, em que traz para os leitores as últimas novidades do mundo dos negócios em Bagé.
16/07/2020 Bagé: 209 anos

Duzentos e nove anos de transformação: como a pandemia de covid-19 ditou novos rumos para o futuro

Foto: Tiago Rolim de Moura

Mais de duas décadas após a fundação, o comércio da cidade teve de se reinventar para resistir a uma epidemia de proporções globais
Mais de duas décadas após a fundação, o comércio da cidade teve de se reinventar para resistir a uma epidemia de proporções globais

por Melissa Louçan

Após 208 anos de um modelo de comércio e turismo consolidado, o ano em que a Rainha da Fronteira celebra 209 está sendo marcado por adaptações e mudanças constantes em todos os segmentos. Durante a pandemia de covid-19, cujas proporções e reflexos só são comparáveis à Gripe Espanhola, que dizimou parte da população no início do século XX, vários setores tiveram baixas e buscaram inovar para garantir a continuidade dos serviços, mas de forma totalmente diferente do que, até então, vinha sendo praticada.
Desde o primeiro comércio realizado por estas plagas, ainda no acampamento que deu origem à cidade, até locais dedicados ao consumo que marcaram o imaginário bajeense, sejam eles o Mercado Público, a Casa A Boneca, ou, até mesmo, aqueles que atravessaram gerações e ainda hoje se mantêm na ativa, como as lojas Salim Kalil, York e Casa do Cavalo Preto, um dos diferenciais sempre foi o atendimento. Eram nestes locais que os bajeenses se encontravam durante as compras, enquanto escolhiam os produtos desejados, entre papos e chimarrão. Mas de uma hora para outra, o cenário bucólico e amistoso foi varrido pela chegada do vírus.
Presidente da Associação Comercial e Industrial de Bagé (Aciba) durante a pandemia, Pedro Ernesto Capiotti Obino é uma das lideranças mais engajadas na retomada da economia da cidade. Também presidente de uma rede de uma das mais fortes redes de loja da cidade, o empresário sentiu os reflexos e as mudanças necessárias "na carne".
Obino avalia que a pandemia foi o estopim para aceleração de uma mudança no comportamento de consumo nos bajeenses, assim como no atendimento realizado pelas empresas, que tiveram de se adaptar ao novo momento. Após quase um mês de fechamento total do comércio, mantendo apenas os serviços essenciais, as empresas passaram a reabrir gradualmente. Para manter as operações neste período, deram início às vendas virtuais, com aprimoramento de sites e atendimento através de aplicativos de mensagens.
Mesmo após a reabertura em tempo integral do comércio, uma parcela dos consumidores seguiu realizando as negociações através da internet, seja através de aplicativos de mensagens, redes sociais ou sites. E essa é a principal transformação no setor que marca os 209 anos da cidade. "Acredito que parte dos consumidores vão adotar esse hábito de compra via rede social. Hoje é comum ver nas vitrines os contatos da loja, principalmente WhatsApp. Essa tecnologia tem padronizado e agilizado o atendimento e deixado menos burocrático o processo de compra. É um comportamento que deve manter adesão no futuro", destaca.
Pedro aponta que alguns setores devem conseguir aderir a estas mudanças com maior facilidade. Em outros, contudo, a mudança observável será mais lenta, como o setor de confecção e calçados, que deve manter, por mais tempo, o atendimento de forma presencial, já que mesmo após pesquisar produtos e valores através das redes, os clientes preferem a validação do que foi visto por foto, experimentando as peças. "Por questão de tempo, faz sentido ser aderido (a mudança). Economiza tempo e o consumidor vai mais focado. Por isso que ressaltamos aos empresários do setor o quão importante é saber se posicionar pelas mídias sociais. Tem tudo para ser uma vantagem competitiva dos nossos comércios", aponta.
Novos modelos de comércio na Rainha da Fronteira
Apesar de já atuar em um ambiente virtual mesmo antes da pandemia, foi a quarentena que possibilitou ao empresário Lucas Figueiredo, sócio dos aplicativos Delivery Much e Garupa, em Bagé, expandir os negócios.
Há pouco mais de uma semana, o aplicativo de entregas passou a fornecer, além de produtos do setor de alimentação, também compras em outras áreas do comércio. Agora, através da plataforma é possível solicitar troca de botijão de gás, compras de farmácia, entrega de água mineral, além de itens de supermercado.
Como muitas pessoas ainda mantêm o isolamento social, as compras através de aplicativos e serviços de mensagens passaram a ser muito mais solicitadas. Assim, Figueiredo viu um nicho de mercado a ser explorado, através de uma plataforma de que já dispunha. "Estamos indo por setores, pois é algo extremamente trabalhoso e difícil de coordenar", explica.
Ainda dentro do segmento de aplicativos, Figueiredo apostou em uma frota especial para atender a demanda do momento, com isolamento do passageiro em um ambiente higienizado, além de fomentar as corridas através do aplicativo com um desconto durante a continuidade das complicações da pandemia.
A empresária Hilda Fagundes Rangel, do segmento de confecções, também apostou no momento de dificuldade para se destacar no mercado. Atuando no comércio há mais de duas décadas, já com clientela fiel e loja física consolidada, viu a procura pelos produtos cair drasticamente no início do isolamento social. "Senti muito, principalmente no primeiro mês. Depois eu fui me adequando, me habituando com todos com todos protocolos de segurança para seguir dando atendimento às minhas clientes. Mesmo assim, ainda não conseguimos retornar com o atendimento de uma pequena parte, que está em grupo de risco", explica.
Para manter as vendas em dia e, ainda assim, garantir segurança aos clientes, em ambiente sem aglomeração e com constante higienização, e sem a necessidade de sair de casa, a empresária investiu em uma ideia que tinha há anos: uma loja sobre rodas. Dentro de uma van, Hilda conseguiu montar um mostruário das peças disponíveis, possibilitando um atendimento móvel para quem prefere não se arriscar nas lojas. "Era uma ideia que já tinha sido pensada há tempos, mas essa situação da pandemia foi um impulso para colocar este sonho em prática. De tal forma, evito o deslocamento e garanto o atendimento exclusivo para os clientes. Dias melhores virão e estaremos preparados para o futuro", conta.
E a adaptação parece ter sido aceita com tamanha força que a empresária já pensa em abrir mão do espaço físico. "Para o futuro penso em continuar com o atendimento somente na loja móvel", adianta.
O futuro no turismo
Com 209 anos de história, trazendo no currículo diversos episódios que marcaram a história do Estado, com seu próprio quinhão de revoluções e cercos, além de ter sido berço de nascimento ou  local de descanso eterno de personagens de relevância histórica, como Silveira Martins, Visconde de Ribeiro Magalhães, Adão Latorre e Chico Diabo, não é de surpreender que Bagé tenha um rico cardápio de atrações turísticas para encher os olhos dos visitantes.
Há alguns anos que os gestores do turismo na cidade se uniram aos agentes públicos para tentar alavancar o turismo como uma nova matriz econômica, abrindo espaço não somente para aqueles que buscam conhecer a história do Rio Grande do Sul através do turismo como, também, o enoturismo, que vem se expandindo e tornando marcante a presença na região, e o turismo rural, que apresenta para os visitantes todas as singuralidades da vida no campo.
Contudo, esses potenciais não puderam ser aproveitados a pleno neste ano. Ao menos, não em atividades presenciais. Um dos segmentos mais atingidos durante a pandemia, os gestores de turismo aproveitaram o "ano sabático" para repensar, organizar e planejar novos rumos para o turismo regional.
Presidente da Associação Pampa Gaúcho de Turismo (Apatur), Clori Peruzzo relata que mesmo em um momento de dificuldades e perdas, como este, o setor pôde procurar algo positivo para evoluir. E justamente isto que foi feito. "Estamos nos estruturando, trabalhando para conhecer um pouco mais das nossas potencialidades e para preparar a nossa região para receber turistas. Daqui para frente a volta vai ser lenta, gradual. O turismo foi o setor mais prejudicado pela pandemia porque foi o primeiro que começou a perder e o último que vai parar de perder, até porque é considerado supérfluo nesse momento", comenta.
Entre as frentes de trabalho em que os gestores vêm atuando, além do planejamento de novas rotas, destacam-se alguns objetivos de conquista que devem incrementar os roteiros quando o turismo for retomado, de forma concreta e definitiva. Um destes é o selo Turismo Responsável, lançado pelo Ministério do Turismo, que estabelece boas práticas de higienização para cada segmento do setor. Em um momento de pandemia e pós-pandemia, servirá como um indicador de locais e serviços do segmento que cumpram protocolos específicos para a prevenção da Covid-19.
"Vamos aproveitar esse momento para estruturar o trabalho com o Cadastur e adotar esse selo. Por isso deixamos o convite para os entes públicos trabalharem em conjunto conosco para construção desse selo, o que tem que ser feito a curto prazo, pois vários municípios já o fizeram. Acredito que assim que tudo passar, a nossa região vai ter uma cara diferente, porque tem muita gente querendo vir para cá", aposta.

Mais imagens

Deixe seu comentário abaixo

Mais notícias do caderno

Carregando...