ANO: 26 | Nº: 6555

Sidimar Rostan

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Editor de política e comentarista da coluna Fogo Cruzado. Jornalista, é especialista em Comunicação e Política e subeditor geral do Jornal Minuano.
16/07/2020 Bagé: 209 anos

Pandemia do coronavírus cria novo contexto de interação em Bagé

Foto: Tiago Rolim de Moura

Prefeitura realizou diferentes ações de desinfecção de áreas públicas
Prefeitura realizou diferentes ações de desinfecção de áreas públicas

por Sidimar Rostan

Embora não tenha qualquer relação com a Pedra da Lua, guardada entre os bajeenses, pela Fundação Attila Taborda (FAT/Urcamp), desde a década de 1970, ou com uma cientificamente improvável radiação provocada pelo eclipse total do Sol, que colocou a cidade no mapa internacional da Astronomia, em novembro de 1966, o fluxo de agentes do governo, hermeticamente acondicionados em roupas de visual futurista, pode muito bem ser associada a uma realidade distópica. Os trajes de aparência plástica, típica de um produto do século 21, integram a rotina de combate ao novo coronavírus (Covid-19), em um contexto de pandemia que mexeu com o calendário de celebração da Semana de Bagé, quase que exclusivamente desenvolvido através de atividades acessíveis apenas pelas plataformas digitais.
O maior município da Campanha gaúcha completa 209 anos colecionando decretos editados com normas para conter a disseminação do vírus. Bagé iniciou a batalha com o primeiro registro da doença, em março, proibindo a circulação de veículos de transporte coletivo interestadual, a realização de eventos, cursos presenciais, missas e cultos religiosos. Os voos regulares, ligando a cidade à capital, retomados em setembro do ano passado, também foram suspensos. A Prefeitura chegou a determinar, inicialmente, a proibição de atividades e serviços privados. Apenas farmácias, clínicas, restaurantes, funerárias, agropecuárias, supermercados, agências bancárias, postos de combustíveis e fornecedores de gás puderam abrir as portas. E ninguém escapou à nova etiqueta de higiene.
A secretária municipal de Saúde e Atenção à Pessoa com Deficiência, Deise Quadros, explica que os macacões para perigo biológico, utilizados pelos agentes da Vigilância Sanitária, em operações de fiscalização pela cidade, onde observam o cumprimento das regras de distanciamento social impostas pelo governo, exige uma higienização específica. “É feita com água e sabão. Pode ser feita com álcool 70%. Também orientamos deixar de molho em um balde, com água sanitária, de preferência”, detalha ao salientar que mais de mil unidades foram adquiridas pelo município.


Tradições interrompidas
O hábito de perambular em carros de latarias reluzentes, pela avenida Sete de Setembro, contornando postes em uma espécie de viagem interminável pelo centro da cidade, perdeu o sentido de ritual noturno em nome do combate à pandemia. O cerco às aglomerações, fontes de disseminação do coronavírus, interrompeu a tradição do mate na praça e dos barulhentos encontros nas pistas dos postos de combustíveis. E para quem não entendeu que a vista do Pampa ao pôr do sol no Centro Histórico da Vila de Santa Thereza também pode esperar, restou o rigor da fiscalização.
Estabelecida inicialmente em março, a regra de recolhimento domiciliar obrigatório, no intervalo compreendido entre 22h e 6h, foi flexibilizada pelo menos duas vezes. Em julho, entretanto, após a confirmação de 11 novos casos de Covid-19 em apenas um final de semana, a cidade ultrapassou a marca de 150 registros da doença, e o toque de recolher foi reforçado. O prefeito Divaldo Lara, do PTB, chegou a anunciar que festas e aglomerações passariam a ser punidas com prisão. O uso de praças, proibido desde abril, ganhou reforço em julho, com interdições integrais.
De olho nos sintomas do vírus (febre, tosse, dificuldade para respirar, produção de escarro, congestão nasal, dificuldade para deglutir, dor de garganta ou coriza), registrado, pela primeira vez, em dezembro de 2019, em Wuhan, na China, a Prefeitura de Bagé iniciou a estratégia de enfrentamento, organizando, com o apoio do Exército, estruturas de triagem na Unidade de Pronto Atendimento (UPA 24h) e no Pronto Atendimento da Santa Casa de Caridade de Bagé. Um hospital de campanha foi montado no complexo esportivo da Urcamp (Ginásio Corujão), áreas públicas passaram por desinfecção e barreiras sanitárias se integraram às paisagens de todos os acessos à cidade.
O decreto que estabeleceu regras de distanciamento específicas para pessoas com mais de 60 anos, alcançando 20.451 bajeenses, de acordo com projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foi editado no final de março, permitindo os deslocamentos para atendimento médico ou para aquisição de alimentos. Associada à condição de enfraquecimento do sistema imunológico, a preocupação com os idosos, que representam 17% da população de Bagé, também levou o município a suspender a gratuidade no sistema de transporte coletivo. Apesar do caráter exclusivo, atribuído à medida, é correto afirmar que ninguém foi poupado das limitações.


Reflexos na economia
Com restrições ao comércio, adotadas para conter a disseminação do vírus, Bagé retomou atividades de forma gradual, a partir de abril, permitindo às empresas, inicialmente, a venda on-line. Obras de pequeno porte foram autorizadas no primeiro dia do mês. Às vésperas da Páscoa, restaurantes, lancherias e lojas de venda de doces foram autorizadas a abrir as portas, observando rigorosas regras de higiene impostas pela prefeitura. Escolas, clubes, academias, cinema, bares e cursos presenciais, por outro lado, tiveram atividades suspensas no dia 15.
O funcionamento do comércio varejista foi autorizado, inicialmente, em apenas um turno (das 13h às 18h30), com sistemas de escalas e home office para funcionários em grupo de risco, avançando, posteriormente, para a atuação em dois turnos. Encarada como alternativa para evitar o colapso da economia, a reabertura não garantiu a manutenção de todos os empregos. De acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), o mês de abril de 2020 foi o pior dos últimos 10 anos, contabilizando o fechamento de 228 postos formais de trabalho.
As marcas, no cenário econômico, são evidentes. Ao longo de dois meses, cerca de 28 mil bajeenses receberam o auxílio instituído pelo governo federal para socorrer trabalhadores informais, autônomos, desempregados, beneficiários do Bolsa Família e pessoas de baixa renda, em parcelas de R$ 600 e de R$ 1,2 mil (destinadas para mulheres chefes de família). Nesse período, as transferências para a cidade totalizaram R$ 20.555.400,00, conforme informações da Controladoria-Geral da União (CGU). O sinal de que a reação pode ser lenta, mas já começou, é apontado pelo número de novos microempreendedores individuais (MEIs), formalizados entre abril e junho, em um total de 335 registros.


Nova indumentária
Placas com alertas sobre a importância de lavar as mãos foram integradas às decorações das lojas, que passaram a disponibilizar álcool em gel e a observar normas sobre lotação, com base nas capacidades estipuladas pelos Planos de Prevenção e Proteção de Combate a Incêndio (PPCIs). Os comerciantes foram proibidos de realizar promoções que podem gerar aglomerações. Um decreto também vedou a utilização de provadores em lojas de confecções, sob pena de cassação de alvará. Em meio às mudanças, um novo acessório tornou os semblantes mais sérios, encobrindo os sorrisos.
Até o final de abril, a estratégia de combate ao coronavírus recomendava, aos bajeenses, evitar o contato social, vedando a circulação de pessoas que retornavam de viagem, por exemplo, pelo período de 14 dias. O uso de máscaras, como equipamentos de proteção individual, foi declarado obrigatório ao final do mês, adiantando uma medida que só seria adotada, e de forma parcial, em âmbito nacional, por meio de lei, apenas em julho. Descartáveis ou confeccionados em pano, as máscaras só ainda não alcançaram o patamar de identidade ostentado pelos lenços, em revoluções do passado.


Precedente histórico
Em um esforço para conter o avanço da doença, a Prefeitura desinfectou as malas dos correios e os prédios de todas as escolas. Bailes e apresentações artísticas foram proibidas, na tentativa de evitar aglomerações, e um hospital de campanha foi montado no Collegio Elementar (localizado na avenida Sete de Setembro, na esquina com a Marechal Deodoro). Foi assim que Bagé encarou a Gripe Espanhola, no segundo semestre de 1918. Todas as ações foram coordenadas pela Prefeitura, com o apoio de clubes e instituições, abrindo, à época, um precedente histórico para a organização de serviços públicos de saúde, a exemplo do que ocorre em 2020.
A doença chegou ao Brasil através dos portos, com os primeiros casos registrados, no Rio Grande do Sul, em outubro. Em Bagé, que tinha pouco mais de 43 mil habitantes, de acordo com o Diretor do Arquivo Público Municipal, Cláudio de Leão Lemieszek, que publicou um artigo sobre os reflexos do vírus, no Jornal Minuano, em 2018, mais de cinco mil pessoas foram infectadas. Em um trimestre, 184 mortes foram contabilizadas na cidade. Ninguém, no mundo, estava imune à Gripe Espanhola. Nem Rodrigues Alves, que só precisava ser votado para alcançar a Presidência da República, já que disputava o pleito com a única candidatura oficialmente registrada. O ex-presidente (que havia governado o país entre 1902 e 1906) contabilizou 2.240 votos, em Bagé, no pleito de março, mas não chegou a assumir o cargo. Eleito presidente, para novo mandato, morreu em janeiro de 1919, vítima da doença.


Higiene como estratégia de combate
Trabalhadores rasgavam as ruas, avançando na obra do sistema de saneamento, quando o Hospital de Beneficência Portuguesa, instalado no prédio que hoje abriga o Museu Dom Diogo de Souza, mantido pela Fat/Urcamp, passou a atender os primeiros pacientes. Não haviam Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), estruturas reforçadas, em 2020, para o enfrentamento do coronavírus. A higiene representava parte importante na estratégia de contenção da Gripe Espanhola. A troca frequente de roupas de cama, a ventilação permanente e o asseio total de latrinas e banheiros estavam entre as recomendações das autoridades. “Banhos diários, a diminuição de exercícios e a total restrição de álcool” também eram recomendados, conforme detalha Lemieszek.
Sob a coordenação do prefeito Tupy Silveira e do diretor de Saúde, doutor Monteiro Alves, o município de Bagé, que abrangia os territórios de Aceguá, Candiota e Hulha Negra, foi dividido em 18 zonas, cada uma a cargo de um médico. O sistema organizado pelo município mantinha um plantonista na Prefeitura. Lemieszek destaca que o consumo moderado de carne e dieta à base de leite, caldo e água filtrada estavam entre as múltiplas e divergentes indicações para tratar a doença. Também era recomendado o gargarejo com água oxigenada, o uso de mentol nas fossas nasais e algumas gotas de iodo.
Diferentes receitas ganharam espaço em todas as regiões do Brasil, criando novas demandas e até mesmo um ícone da cultura brasileira. Se, em Bagé, mesmo sem a comprovação de eficácia médica, o quinino (primeiro medicamento correntemente usado para tratar malária) chegou a atingir preços estratosféricos nas farmácias, motivando a importação do produto, a partir de Melo, no Uruguai, conforme relata o Diretor do Arquivo Público Municipal; no interior de São Paulo, um xarope caseiro, produzido com limão, alho, mel, e, em alguns casos, cachaça, pode ter dado início à história da caipirinha, em versão aceita pelo Instituto Brasileiro da Cachaça (IBRAC).


Registros auxiliavam no controle

Os boletins epidemiológicos, a exemplo dos informes divulgados por veículos de comunicação e mídias sociais, com atualizações sobre novos casos, a realização de testes rápidos e de exames laboratoriais para a detecção do coronavírus, também integravam a rotina dos bajeenses em 1918. Mas os balanços relacionados à Gripe Espanhola, divulgados pelos jornais, atualizavam dados sobre internações e óbitos. Os registros oficiais auxiliavam na avaliação das ações adotadas pelo poder público.
Nos primeiros dias de novembro, de acordo com Lemieszek, já havia mais de mil bajeenses infectados, e, em muitas residências, todos os moradores haviam contraído o vírus, “a ponto de algumas casas de comércio não poderem abrir as portas, porque proprietários e funcionários estavam doentes”.
O diretor do Arquivo Público observa que a doença só entrou em declínio na segunda metade de dezembro de 1918. O Comissariado de Alimentos, criado por meio de decreto do prefeito Tupy Silveira, para fiscalizar a tabela de preços dos gêneros de primeira necessidade, foi então desconstituído. A retomada econômica seria verificada no biênio seguinte.
Em 1920, dois anos após o início da crise de saúde pública, avançando no projeto de abastecimento de água, a cidade passaria a integrar a seleta lista dos 75 municípios brasileiros com o serviço de saneamento. Em novembro, o Guarany conquistaria o primeiro título do Campeonato Gaúcho de Futebol, na segunda edição do certame, inaugurando um novo ciclo cultural, com o nascimento de seu principal rival, o Grêmio Esportivo Bagé. 

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