ANO: 26 | Nº: 6590

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
18/07/2020 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Bagé raiz (parte 4)

Ainda Aparício.
Antes registrou-se a presença de Aparício Saravia em Bagé. E ali se disse que as formas de comunicação existente eram o telegrama e o chasque, também conhecido como "próprio". Inclusive eram dirigidos até ao presidente Batle, do Uruguai, via esta cidade. Nepomuceno Saravia, na obra que escreve sobre o pai, anota que "os telegramas eram passados pela telefonista Julieta Pintos, de Aceguá", que depois casaria com seu irmão Exaltación. O casal teve dois filhos, Timoteo e Lila.
Guarany, bicampeão em 1938.
Em dezembro de 1938 o Guarany partia rumo a Porto Alegre, no "trem da carreira", aonde enfrentaria o Riograndense, de Santa Maria, na primeira partida semifinal do campeonato estadual. Esse certame era disputado entre os campeões zonais e o alvirrubro fora o campeão da Zona Sul, e ganhara a disputa citadina e o regional. Grande acontecimento fora a contratação de Salvador Rubilar ao Penharol, atleta que seria fundamental daí em diante para a trajetória do Guarany.
O Correio do Sul apontava os integrantes da delegação: chefe, Octávio Assumpção, presidente; Lauro Lima, representando a ABD; secretário, Dino Dini; tesoureiro Walter Médici; técnico Manoel Fernandez, o "Camiseiro"; auxiliar José Callejas; massagista Luiz Biscardi. E os jogadores: Alfredo Jorge, Eugênio Machado, Jorge Pinheiro Borges, Paulo Dini Duarte, Walter Franci, Fidelsino Rodrigues, Nelson Valente, Ataliba Ávila Rosa, Carmelo Medina, Salvador Rubilar, Daniel Gatto, Luiz Vieira, Almerindo Gatto, João Bento da Cruz, Evaristo Severo, Félix Torres e Ney Bina. Por informações chegadas também noticiava a possibilidade de a partida ser transmitida pela Rádio Farroupilha.
O Guarany vence por 3 a 2, gols de Balão, Quesada e Picão e vai para as finais em "melhor de três" contra o Rio-Grandense, de Rio Grande.
A primeira partida é em Bagé, no campo do Ferroviário (no "21"). Empate em 1a1, gol de Rubilar. Grande preocupação da torcida, ante o resultado surpreendente.
A segunda partida, em Rio Grande, tem a delegação chefiada por José Maria Duarte, José Collares e Vicente Gallo Sobrinho; secretário Dino Dini e Walter Franci, tesoureiro. É convidado especial o professor Frederico Petrucci, presidente da liga bajeense. O jogo é no campo das Oliveiras, e tem pior resultado: 2 a 0 para os riograndinos.
Pelo critério adotado, há uma terceira partida, desta vez em Pelotas, na Boca do Lobo e o Guarany vence por 3x1, gols de Picão (2) e Quesada.
É necessária uma quarta partida, designada pela Federação para o mesmo local. Durante o tempo normal empate em 1ª 1, gol de Medina.
É necessária a prorrogação. Aos três minutos Rubilar marca. A torcida invade o campo. Confusão. O árbitro Alfredo Caleiro encerra a partida. O Rio-Grandense recorre, inclusive contra a inclusão de Rubilar, que não estaria bem escrito. Ledo engano, o craque uruguaio jogava há tempos. Guarany é bicampeão estadual, com a seguinte equipe: Jorge, Geny e Gancho (João da Cruz); Paulo Dini, Balão e Dico (ou Fidelsino); Libinho, Medina, Quesada (ou Carioca), Rubilar e Picão.

Foro de Bagé, em 1935.
Na histórica revista "Phoenix", editada por Túlio Lopes, consta foto da posse do Dr. Raul de Freitas Boccanera, como juiz da comarca. E nela estão advogados e serventuários da época: Armando A. Camargo, Dr. Fernando Borba, Dr. João Pereira Sampaio, Dr. Paulo Thompson Flores, Virgilino Antonio Flores, Leôncio Vasconcellos, Sylvio Pelico da Luz, Gabriel S. Pitrez, Walmore Not, Tito L. Luz; Eurico Nunes Pires, Ernesto Gonçalves; João C. Goulart, Hilário Sousa, Arthur Pimentel Magalhães e João Lopes de Azevedo.
Phoenix.
A revista foi criada em reunião que teve lugar na Typographia Phenix, onde se decidiu imprimir dita publicação na Funerária Lopes & Filho por um "pugilo de malandros e ao sabor da tertúlia". Eram tais os "boêmios literatos de aldeia": Arnaldo Faria, "capitalista disputado e após deputado, um dos melhores e mais hábeis causídicos da comarca"; Arthur Damé, que tinha medo de que "os camions burgueses o viessem machucar"; Francisco Portela, "belo talento incompreendido, misógino, misantropo"; Fernando Borba, de quem nada se podia dizer "nem pró nem contra", porque o redator não mantinha relações com ele (mostrava-se fotografia de Fernando Borba servindo na guarnição de Cachoeira); Alexandre Costa, "o longilíneo genro do Bonifácio, capaz de absorver tudo que os outros dizem"; Galba de Paiva, ao qual a revista deve as melhores páginas: Lourival Viña, "a quem propositadamente não o intitulo doutor, para não o magoar"; Henrique Tobal, "arquiteto, desenhista, um dos mais fortes esteios da revista"; e Túlio Lopes, "o luso brasileiro que tanto tem auxiliado o esforço dos nossos conterrâneos".
Balduíno e a forca.
A criminalidade era grande nas capitanias hereditárias e, para enfrenta-la em 1816 Dom João VI criou a Junta Criminal, competente para ditar decisões irrecorríveis nas infrações penais, salvo as de lesa-majestade ou quando os acusados fossem eclesiásticos ou militares, beneficiados com o foro privilegiado. No Brasil se aplicavam as Ordenações Filipinas e depois o Código Criminal de 1830 com um Tribunal do Júri, em 1832, onde se previa a pena de morte, condenação a mais frequente, que desapareceria somente em 1890, já na República. E que se concretizava através do enforcamento, forma odiosa com função simbólica e espetaculosa. O cadafalso estava montado na vila de Porto Alegre no "Largo da Forca", hoje Praça Brigadeiro Sampaio, no centro da capital. Conta-se que um dos condenados, ao subir ao patíbulo, praguejara que a Igreja das Dores, próxima, jamais seria terminada; e como se sabe passaram mais de cem anos, até que as torres fossem edificadas.
A quinta execução deu-se em 4 de maio de 1822 e teve como réu o liberto Balduíno, um "pardo forro", não escravo, que em dezembro de 1820 no distrito de São Sebastião, termo de Rio Pardo - "hoje Bagé" como narra Sérgio da Costa Franco-, assassinara José Cordeiro, seu patrão, por ordem de Brígida Joaquina Lopes, mulher do mesmo, e outros cúmplices, Selestrino e Justiniano. Brígida, a mandante do homicídio, foi condenada a dez anos de degredo, pena a ser cumprida em Angola, mas como mulher, a teve comutada para Fortaleza. Os cúmplices receberam sanções menores. Depois do enforcamento, Balduíno teve a cabeça decepada e exposta à execração pública. Antes do ato, como hábito, o acusado mereceu um sermão de padre italiano, fato raro porque a maioria dos sacerdotes se negava a prestar piedade aos sentenciados; era costume apenas rezar, ministrar sacramentos e até permitir assistência à missa antes do suplício.
Conservo uma cópia do processo, que presumo publicar algum dia, onde uma das testemunhas, Dionísio Antônio José Homem, morador em São Sebastião, e capataz da vítima, que na linguagem colonial disse que " desconfiando dos cabras amarrou logo Justiniano e logo foi ao Posto, e prendeu o mulato forro, e foi com eles numa canhada onde estava o corpo de seu amo e o achou nu com sete facadas, e a roupa logo acima, e o cabra Justiniano logo lhe confessou a morte com seu irmão Selestrino, e um mulato forro Balduíno por mandado de sua senhora moça mulher de seu patrão por nome Brígida, e na ocasião que prenderam o mulato forro este quis negar ter feito a morte, mas instado ele testemunha com ele dizendo-lhe que o cabra havia contado , e que ele tinha uma facada nas costas ele então convencido não pode negar e logo confessou que tinha feito a morte por mandado de Brígida, e depois disso passou a pegar no corpo e enterrá-lo no cemitério do falecido Boleno, e logo passou a recomendar o outro cabra o qual foi preso na Fazenda das Palmas de Severino Teixeira Brasil." No curso do depoimento o capaz confirma que o casal não vivia bem, não sabendo a causa, "mas que ouvira dizer que era por causa de um mulato que tinha sido capataz, chamado João Mendes e que não sabe se este concorreu para semelhante morte".
João Boleno.
Os leitores devem recordar de textos aqui publicados, onde meu amigo o Dr. Pureza de Carvalho, hoje em Portugal, investigava a origem do nome "Bolena", designação da simpática elevação das Palmas, até com diversas hipóteses para denominação, sabendo-se hoje que deriva, segundo a primorosa obra de Cândido Pires de Oliveira, de uma corruptela do nome do sesmeiro João Manuel Boleno, capitão das milícias de Dom Diogo de Souza, comandante do distrito de São Sebastião e bisavô de Hermes da Fonseca, presidente do Brasil (1910-1914).
A Bolena é a coxilha que fica nas cabeceiras do arroio Candiota e Cerro do Baú, onde foi sepultado o capitão João Boleno, após "já paupérrimo, velho e decrépito", viver "numa casa de pedras junto às ruínas da igreja", conforme Pires de Oliveira.
Agora, além da existência de uma capela em ruínas, fica comprovado que no local também havia um cemitério, cabendo aos pesquisadores argutos localizar esses ambientes históricos.
Pyrilampo da Semana.
Era o nome de uma "folha da mocidade, crítico, noticioso, humorístico e histórico", de forma diminuta e quatro páginas, que circulou aqui em 1940. Tenho um exemplar de abril daquele ano. Devia ser muito apreciada –ou odiada – pelas "fofocas" que divulga.
Como devo preservar os nomes de pessoas ali apontadas, talvez avôs e avós (quem sabe bisas) de que lê essa achega, limito-me à seguinte: " Que o S.D. é visto todos os dias passeando com a professora L.N. Certamente a L.B.S é só do carnaval...". "Que o Juca, aguarda a melhora do câmbio para contratar com a E.P. Já, seu Juca".
Aviso que alcunhado não é o signatário, por óbvio. Embora reze, todos dias, para que o câmbio melhore.

 

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