ANO: 26 | Nº: 6587

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
25/07/2020 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

O peixinho afogado

Quintana.
Às vezes tenho vontade de descobrir qual livro é o mais antigo em minha biblioteca. Lamento terem sido desbaratados exemplares de coleção que assinava dos salesianos em tempos de ginásio. É certo ainda que perdi muitas obras por emprestar sem registro. Doei ainda para colégios. E para amigos. Sábados era sagrado, aqui ou aí. Na Livraria Predileta ou Livraria do Advogado: saía com um ou dois volumes. Hoje me queixo da falta de espaço. Deixarei um codicilo legando para instituições a que pertenço ou para escolas/cadeias. No caminho colegas serão beneficiados. Os que sobejarem darão incômodos passageiros aos meus familiares. No meu asilo de livros os prediletos mando restaurar. A capa nova até exala um cheiro de passado. É o que sabem: guarda-se porque cada lembra episódio; aroma; presente da pessoa amada; conteúdo de situação vivida. Não descarto livro com autógrafo ou de presente, considero indelicadeza. Nem os herdados.
Esse começo nostálgico tem uma razão. O livro do Mário Quintana, quando ainda não era tão famoso. E de 1948, o "Sapato Florido", Editora Globo. A Marilu Teixeira também possui um, já o recitava antes de todos. O meu é de outubro de 1953, estava findando o científico no Colégio Rosário. Onde havia um centro cultural que os internos frequentavam, mais para fugir da sala de estudos fiscalizada por marista severo. E passei a gostar mais de poesia. Fernando Pessoa, Vinicius, Bandeira, Drummond. No lugar resplandecia o extraordinário Antônio Abujamra, mestre de interpretação, que os vociferava como ninguém. "Oh, macio Tejo ancestral e mudo, pequena verdade onde o céu se reflete". "Vem por aqui, dizem-me alguns com os olhos doces". "Filhos, melhor não tê-los. Mas se não os temos, como sabe-lo? "; "Era uma vez um homem que estava pescando, Maria. Até que apanhou um peixinho. " Agora deu no meu assunto de hoje. (Notaram a estratégia que adoto nos últimos textos? Divido em períodos, para não os cansar com artigo longo).
Centro Histórico. Festival.
Pois assisti o Abujamra declamar a "Velha História" e a decorei. Quando volto para lecionar no irrequieto Colégio Estadual, um grupo de professores cria o Clube Histórico e Literário, que, depois, nos levaria a processos e prisões, me entendem? Era uma sala, ao lado da biblioteca, entrada do palacete pela frente, pátio à direita, pequeno corredor. Palestras com Ernesto Wayne, Fernando Abbot, o escriba que vos fala (sobre Pedro Wayne), Élida Costa, Teresinha Severo e os maravilhosos estudantes da época, Davizinho, Hamilton Braga, Antônio Luís, Marlene Pacheco, Mirna Paiva, Luísa Gonçalves e mais, e mais, que acabaram construindo no salão do colégio (onde as gurias faziam ginástica e alguns iam espiar) um palco onde se realiza o 1º Festival de Poesia Moderna, com declamações e jograis. Um sucesso.
Junto com estes e Maria Amélia Coronel, sob o modelo aprendido no Rosário, atrevi-me a dizer Vinícius, José Régio, Pessoa e Mário Quintana, estreando numa área onde brilhava a professora Beatriz Camargo e Marilu, sua brilhante discípula. E adivinhem? Não vale, vocês já sabiam que era a estória do peixinho! Pois foi. Daí em diante, fazendo-me (sempre) encabulado, a repetia em aniversários de família, coquetéis, reunião dos formandos onde era (óbvio) paraninfo, e, sim: em bares quando muito solicitado, sóbrio, ante de bebericar um campari com soda.
A vida do peixinho penso que conhecem. O homem pesca o animalzinho, pequeno e inocente, com um "azulado indescritível nas escamas. O homem se apieda. Tira o anzol e o trata com iodo. E passeiam juntos. No café o homem lê o jornal, fuma, saboreia o café, e acaricia o peixinho que toma laranjada por um canudinho especial, muito na dele. Um dia, passando pelo rio onde o peixinho fora pescado, o homem enche os olhos de lágrimas, recrimina-se por afastá-lo da tia solteira e dos parentes e o joga de volta n'água. Que faz um redemoinho. E o peixinho morre afogado. Gostaram? Comovente, não? Mas, e daí?
Monteiro e a traíra guaxa.
Nas férias muito subi em direção à Santa Casa. E desci, procurando a loja para pescadores do Guilherme Monteiro. Mas como não dava para dirigir com calma, pois logo (um segundo) já come a buzina alheia, deixei para depois. Mas compro seu livro "A Fabulosa Estância São Lauro", onde com talento especial e estilo peculiar (é difícil contar piadas com brilho), o jovem escritor debulha um elenco de gostosas leituras e releituras do fabulário popular da pampa gaúcha, como ali diz um comentarista.
Tendo como fundo a estância do Coronel Laurindo Gonçalves, seguramente homenagem ao pai do autor Laurindo Monteiro com quem convivi nos tempos de Mec., desfilam as saborosas histórias, repito, bem narradas e com a devida pitada de humor, onde estão a caturrita, o papagaio, o petiço, as caçadas, o jundiá que mamava, e, com destaque, a "traíra guaxa". Um dia o Coronel vai no arroio, com taipa e umbu. Pesca uma trairinha. Viva, permanece assim até o dia seguinte, a peonada com espanto, pois a trairinha dormia no cocho em que as galinhas bebiam. Então o Coronel manda alimentá-la com uma mamadeira e leite. E assim vai. Ela vira amiga do gato encostada em quem passa a dormir. É a atração da fazenda. Mas Laurindo se penaliza e resolve devolvê-la ao arroio. Os empregados choram. A trairinha viaja num balde com água. E na beira do arroio, Laurindo exclama: "Vai com Deus minha filha, volta para tuas irmãs". Os olhos da traíra esbugalham e lentamente submerge. Bolhas n'água. Uma coisa branca flutua. "Era a barriga da danada, lamentavelmente ela não resistiu, morreu afogada, para a consternação geral", arremata Monteiro.
Oba, me caíram os butiás do bolso (aqui mantenho fleugma nativista): onde já ouvi esta toada? Nem preciso pensar muito: com o Mário Quintana. "Vou procurar o Monteiro", decidi. É o próximo episódio.
Monteiro e eu.
Minha primeira hipótese. O Quintana era alegretense, fronteiriço, sabia desta versão, apenas lhe deu a beleza poética (sim, há uma prosa poética, pois não). Como tinha de falar com o Guilherme Monteiro sobre assuntos "transatlânticos", inadiáveis, vida ou morte (assuntos do Guarany) aproveito o ensejo para referir a significativa semelhança entre as versões, e desdobramos hipóteses variadas pelo celular, aqui e lá, possível parentesco entre o peixinho e a traíra. Monteiro, diga-se, hoje com expertise em pescarias onde é autoridade nacional, conta que alguns dos fatos por ele descritos, como de consenso público, já tinham sido publicados por outros escritores, também pelo Barão de Bagé, através do Zé Brasil. E, por força de propriedades de sua família no Ponche Verde, fora criado ouvindo tais relatos, não só no âmbito nacional, mas ainda atravessando as linhas uruguaias e argentinas. Pesquisador atento, deu-me uma pista, o comediante platino Luis Landriscina. Não me sofri e fui ao doutor google. E lá, como dissera o Monteiro, achei o instigante conto que Landriscina repete, com agrado, em seus espetáculos: "El pescado de patio". Que passo a resumir.
Um gaúcho, entediado, vai pescar. Encontra uma boa sombra no rio. Depois de tempo fisga um peixinho, tão pequeno que se sente no dever de devolvê-lo à água. Mas o peixinho dá uma pirueta e salta no balde, olhando furioso para o pescador: - O que, cara, aguenta a mão. Me tirastes, agora me leva. ". Se ele não quer voltar para o rio, não vou decepcioná-lo, diz, e o leva, encabulado, para a casa, trocando de bacia, à medida que ele cresce. É criado com bolachas ("galletas"). E lhe coloca o nome de "Pancho". Quando toma mate, ele brinca com as alpargatas, é acariciado. E se chega em casa o cavalo se assusta com os festejos do peixinho. Depois começa o incômodo, o peixinho corre as galinhas, briga com o cachorro. Num dia de calor, o convido para ir ao rio refrescar-se. Aceita. Escolho o lado mais fundo. Dispo a roupa e o desafio para uma corrida: um, dois, três e largamos os dois juntos. "Vocês não vão acreditar: me afoguei".
Algo nos admira e encanta, os finais da história. Aqui a genialidade do desfecho, o clímax, para ser retórico. Landriscina é sempre vastamente aplaudido. Monteiro nos deixa sorridente, devido ao linguajar "pátrio". Quintana nos surpreende com o estranhamento. No fundo, de onde todos pinçaram a beleza?
É assim com o escritor. Difícil a originalidade. A lembrança inconsciente muitas vezes é a fonte da narrativa criativa. Essa é a graça da literatura.

 

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