ANO: 26 | Nº: 6573

Fernando Risch

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Escritor
25/07/2020 Fernando Risch (Opinião)

Significados

 

Em 2020, em meio a pandemia da Covid-19, vídeos de dançarinos ganeses carregando caixões nos ombros viralizaram pela internet. Em todos os vídeos, a música era sempre a mesma: "Astronomia", de Vicetone e Tony Igy. A batida eletrônica sem vocais, lançada em 2016, sem dúvidas teve outro propósito que não ser associada a funerais. Com a pandemia global, o hit tornou-se um espécie de hino mórbido de alerta sobre a consequência fatal da doença.

Ao passar a pandemia, quando a música tocar em qualquer balada pelo mundo, a associação à morte será instantânea, porque a música, que teve uma intenção ao ser composta, recebeu um ressignificado que transcende ela mesma e quem a compôs.

Assim é, também, só que numa escala infinitamente menor, o hit "Pumped Up Kicks", do Foster The People. A música é usada por incels (celibatários involuntários) em fóruns online para celebrar quando algum membro comete uma chacina em alguma escola americana. Para as pessoas que conhecem a música e sabem deste fato, a faixa ganha um ressignificado pesado.

O exemplo mais conhecido da história é da cruz suástica, um símbolo de mais de cinco mil anos, usado por diversas religiões, culturas e civilização do mundo, mas que por ter sido apropriada por Hitler na estética nazista, recebeu um novo significado que transcende sua própria matriz originária milenar. E a simples tentativa de voltar a suástica ao que era antes torna-se impossível, pois o ressignificado se tornou simbolicamente mais denso e marcante que o anterior. A suástica, infelizmente, é nazista, e assim permanecerá.

Os ressignificados transitam na cultura material e imaterial, em imagens e em linguagem, como termos em português, por exemplo, que mudaram ao longo do tempo. "Mulato" é um termo originariamente racista, derivado de mula, que ao longo do tempo foi ressignificado para uma pessoa mestiça entre negro africano e o branco europeu, sem a intenção racista. A questão ainda é muito discutida sobre a utilização do termo e há quem defenda que ele seja abolido, não sem razão.

Pensando neste assunto de significados e ressignificados, eu reflito sobre o futuro dos símbolos nacionais: da bandeira do Brasil, do Hino Nacional, do verde e amarelo. Eles sempre tiveram um significado, um significado tão importante de identidade e respeito que não constrangiam sequer um único cidadão brasileiro.

Mas como significados não bastam, porque se ressignifica qualquer coisa através da apropriação, assim como outrora outros líderes se apropriaram de outros símbolos, muito aquém de suas existências, para si e para sua agremiação, nossos símbolos, impávidos colossos, correm o risco de terem sua histórica tradução tornada a uma versão tupiniquim de infames europeus de outrora, com ares de loucura circense.

Ou nos apropriamos do que é devidamente nosso, nos agarramos à bandeira do Brasil, Pátria amada, salve, salve, ou perderemos nossos símbolos nacionais, propriedade de orgulho e igualdade de todos os brasileiros, pela eternidade no berço esplêndido.

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