ANO: 26 | Nº: 6555

João L. Roschildt

joaoroschildt.jornalminuano@outlook.com
Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
30/07/2020 João L. Roschildt (Opinião)

Passeio noturno

Caminhar nas ruas do centro de uma cidade do interior do Rio Grande do Sul, como Bagé, que possui baixos índices de criminalidade, após às 22h e com a vigência de decretos que proíbem a circulação de pessoas a partir deste horário é uma experiência única. Sem máscara, respirando um ar limpo das impurezas de tecidos e com a típica petulância de um cidadão ilegal é algo que ativa a adrenalina. Com sentenças laxativas que soltaram indivíduos “em conflito com a lei”, para que cumpram suas medidas “socioeducativas” no conforto de suas residências e sem nenhum risco de contrair Covid-19, fiquei curioso em saber como a selva central de uma pequena cidade responderia a tais decisões políticas, jurídicas e altamente “científicas”.

Em um destes finais de noite, ao levar o lixo até o contêiner coletor que fica do outro lado da rua de meu lar, localizado em uma área central do município, avistei um pequeno roedor em uma calçada. Pensei em como ele se encontrava em situação irregular, pois não estava cumprindo nenhum “protocolo” do último decreto municipal. Acabei refletindo e vi que minha condição não se diferenciava daquele ratinho: encontrava-me afrontando a lei municipal com o adicional de que poderia receber uma multa e ser conduzido para uma Delegacia de Polícia.

Mas, invadido pela máxima progressista de que nossos atos são reflexos do tipo de sociedade que temos, após soltar o lixo, pensei: “Se fosse um rato poderia ver como está o centro de Bagé a esta hora da noite; caso fosse um morcego poderia sobrevoar sem a possibilidade de ser visto...”. Dominado pelo determinismo social, coloquei a máscara de homem-morcego e me desloquei para locais que costumam ter um maior fluxo de pessoas.

Já na primeira rua, ouvi gargalhadas estridentes e um grito de “vai!”. Imaginei que era algum agente da “lei” mandando a pessoa ir para casa. Sem comprovação de meu malicioso pensamento, passei por uns cinco carros que vendem lanches. Em dois deles as pessoas comentavam o que fariam para sobreviver caso não abrissem seus pequenos comércios. Respondi silenciosamente: “Seriam ratos!”. Seriam? Ou será que todos que estavam nas ruas naquele momento com o receio de uma punição já não se sentiam como estes roedores? Afinal, tanto ratos, como cidadãos que aceitam passivamente decretos oriundos de um populismo político-ideológico, só têm sua liberdade desde que se cuidem de possíveis predadores...

Seguindo, avistei dois homens sendo afrontados por um terceiro que aparentava estar bêbado. Outros, em um pequeno grupo, divergiam sobre algum “produto” adquirido. Em uma praça, quatro pessoas trocavam impropérios e empurrões. Ao cruzar uma calçada, um “cidadão” lançou um deboche para outro indivíduo: “O quê? Tá solto por causa do ‘coronga’? Ou não te aguentaram no presídio?”. Não sei se foi uma brincadeira ou uma tentativa de imposição moral na noite para evitar qualquer aproximação.

Confesso que tive vontade de conversar com todos para saber o que achavam da corrupção na política. Ou com algum ratinho ou morcego, afinal, estávamos todos em pé de igualdade. Nesse momento, acordei. Era um pesadelo. Meu filho e esposa dormiam. Tomei um banho de álcool em gel, coloquei minha máscara e fui até o pátio. Enquanto separava roupas para estendê-las no varal, um gato me observava.

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