ANO: 26 | Nº: 6590

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
15/08/2020 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

A carbonara e outras amenidades


1. A etiqueta.
Há um livro que guardo com desvelo embora já o tenha destinado. O autor é Marcelino de Carvalho, muito considerado em tempos de Jacinto de Tormes e Ibrahim Sued, por suas lições de boas maneiras, arte de beber ou comer. É um tipo de literatura que aprecio, assim como o vestir, culinária e comportamento, embora todos saibam que passo raspando no vestibular destes assuntos. Nem sirvo de paradigma embora admire as pessoas que, de berço ou por educação, observem as regras de convivência, hoje tão esquecidas como o ato de contrição. A etiqueta, palavra de origem francesa que antes significava uma forma cerimoniosa de tratamento entre particulares agora nada mais é que um rótulo que cola em produto comercial.
Pois dito escritor ensina que o aspecto físico abre as primeiras portas, mas as maneiras completam a obra, pois "um rapaz de sociedade deve ser bem-educado. Não essa educação corriqueira de não viver com o palito no canto da boca ou não bater camaradamente em barrigas enormes e idosas. Isso já está estandardizado. Mas ele deve saber quando e como beijar, ou não, a mão de uma senhora. Porque não se beijam as mãos de todas. São sutilezas. A oportunidade é a base da educação. Por exemplo, quando em um jantar a senhora X quer mostrar erudição sobre um assunto, é preciso discordar levemente para que ela possa refutar os argumentos contra e estender-se na matéria. Quando se quer matar um assunto, convém concordar sempre. Saber ouvir é tão importante, ou mais, do que saber falar. Lisonjeia a pessoa que expõe seu ponto de vista. Ser bem-educado é suportar de boa vontade as corvées sociais. "
Como verniz intelectual é bom num artigo, acrescento o que dizia Jean Jacques Rousseau: "Geralmente aqueles que sabem pouco falam muito e os que sabem muito falam pouco".
Outro conselho de Mestre Marcelino: nunca fale mal da vida alheia. Conte um "potin", que é uma maldade forrada de espírito. Se você tiver espírito. Quem conta um "potin", dá uma estocada. Quem fala mal dá uma cacetada. Derruba. E um "gentleman", joga florete, mas não leva um cacete na mão. A sociedade divide-se em duas grandes partes. Os que vivem e os que assistem maliciosamente a vida dos outros. Só os primeiros são interessantes. É preciso muito cuidado. Quem muito se debruça na janela pode cair um dia. E as noites são cheias de sereno, fazem mal à saúde". Tenho ou não um livro precioso, embora sejam regras de 1932?
2. Mia Couto e os avós.
O moçambicano Mia Couto, médico e biólogo, dedicado aos impactos ambientais, é um dos melhores escritores modernos e não apenas nos temas africanos que lhe renderam prêmios literários. O que ressalta em seus livros é o uso inteligente de neologismos que, conforme os críticos, já não constituem mera experimentação formalista, mas chaves fundamentais de interpretação de leitura. Um verdadeiro "gerundiamento" ou até "substantivação" deles é uma técnica que cativa e não cansa, tanto que ele diz, com modéstia, haver sofrido influência de Guimarães Rosa. Há um conto em que um idoso se nega a conhecer o neto recém-nascido. E que tem uma muda, com quem se comunica por bilhetes. E quando depois de várias demonstrações de indiferença o avô é cobrado, diz ele que quer gozar o merecido direito de ser velho, pois "a gente morre com tanta vida. – Você não entende mulher, mas os netos foram inventados para, mais uma vez, nos roubarem a regalia de sermos nós. Primeiro, não fomos nós porque éramos filhos; depois adiamos o ser porque fomos pais. Agora, querem-nos substituir pelo sermos avós". Até que ela cansa, vai à feira e escreve: "Meu Zedmundo: durma comprido. E trate desse menino, enquanto eu vou à cidade. Seja meu filho, Zedmundo, me deixe ser sua mãe. E vai ver que esse nosso neto nos vai fazer sermos nós, menos sós, mais avós". Quando o filho chega acha o pai e o "adiado neto" dormindo juntos. Descobre o bilhete deixado e o lê. E pensa logo contar a novidade para uma irmã. "Mas agora, pensa ele, lembro as palavras de meu pai sobre o aprender a calar. E decido que nunca, mas nunca, contarei isso a ninguém. Minha mãe, que é muda, que conte. "
3. José Obino, arquiteto.
Ao inventariar as artes plásticas no Rio Grande do Sul o escritor Athos Damasceno Ferreira desvela as obras do pintor Guilherme Litran, natural da Almeria, que se domiciliara em Pelotas em 1879, onde deixou numeroso quadros, alguns deles restaurados por Aldo Locatelli quando decorou a Catedral daquela cidade. Litran foi sogro de uma tia minha.
E no elenco de grandes artistas daquela época Damasceno Ferreira inclui José Obino, que além de talentoso arquiteto "viria mais tarde ligar-se ao ramo da marmoraria, conceituando-se solidamente e projetando no tempo a chancela artística, através de seus sucessores". Obino nasceu na Itália, em 1835, mas aos 26 anos chega à Província, encaminhando-se para Bagé. Projetou e construiu a então Igreja Matriz da cidade "empreitada que tomou a si, alguns meses após sua chegada ali, e na qual se houve exemplarmente, fazendo obra de envergadura, capaz de reputá-lo como de fato o reputou profissional de recursos variados e sólidos. Com efeito, a Igreja de São Sebastião, naquela cidade, é um templo imponente sobre todos os aspectos, podendo ser considerado o mais belo da Província na época. A alterosa matriz, cuja conclusão se verificaria em setembro de 1863, é construção de evidente saliência arquitetônica e dá ingresso a José Obino no reduzido número de autênticos profissionais do ramo com que contava então o Rio Grande do Sul. Concebida em linhas simples e harmoniosas, dotada de duas torres, a igreja tem estatura de uma verdadeira obra de arte. Em seu interior, amplo e severo, dispõe, além do altar-mor, de oito altares laterais e, a par de trabalhos de talha que enriquecem, conserva ainda a antiga e histórica imagem de seu padroeiro, trazida provavelmente de Portugal no princípio da centúria e transladada para o povoado recente em 1812", aduz o escritor.
José Obino mudou-se para Porto Alegre em 1867, ambiente mais favorável ao emprego de sua profissão e suas ambições artísticas, instalando-se na Rua Riachuelo, imediações do Teatro São Pedro. Segundo ainda Damasceno Ferreira, no Arquivo Histórico da Divisão de Cultura da Secretaria de Educação, conservam-se, entre outros projetos, plantas e esboços, o desenho da fachada da Igreja de São Sebastião e uma litografia reproduzindo o traçado de um teatro municipal para Porto Alegre. Obino faleceu aos 44 anos de idade, em 1879.
4. A carbonara do Vêneto.
Um contemporâneo universitário, Darcy Loss Luzzato, entre os numerosos livros que publicou em sua Editora Sagra, dedicou-se a divulgar o "talian", uma espécie de Vêneto Brasileiro, falado pelos "oriundi" em Porto Alegre. E conta que sua família, pelo menos uma vez por mês, saboreava um "taiadele a la carbonara", ou talharim a carbonara, óbvio.
Para ele o correto do prato é com "pancetta", em vêneto e talian, panseta, e na falta com bacon para "quebrar o galho", embora ambos feito com a carne da barriga do porco. A panceta tem espessura menor que o bacon, " o especialista corta uma manta retangular dessa carne, com a pele e uma camada de toucinho, tempera-a – e aí o segredo de cada um – e a enrola como se fosse um rocambole, com a côdea para fora e amarra-a como se fosse uma copa, um ossacol. Depois basta defumá-la e guardá-la num ambiente bem seco e fresco (in cantina) ou, como se faz hoje, no refrigerador".
Receita do Vêneto: 1 pacote de 500 g de "lasagnette" Barilla. Molho: 200 g de bacon; 1 fatia de 1,5 cm de um pacote de manteiga; 4 ovos; 2 dentes de alho; alguns galhinhos de salsa; 2 raminhos de tomilho; 1 colher de "aceto balsâmico"; 1 xícara de parmesão ralado na hora; sal e pimenta- do-reino moída na hora.
Não arrisco o preparo, pois o bom atleta se adapta em qualquer posição. O que difere é o vinho recomendado, o Merlot, do Vale dos Vinhedos; e a panela especial, com superfície interna antiaderente, munida de uma tampa furadinha, que funciona como um coador e cuja capacidade é de 8 litros. Ela escoa a massa sem precisar retirá-la da panela.
Como sou jejuno no tema, planejo fazer um curso, pois como diz Jacinto Benavente, Nobel 1927: pensar em fazer grandes coisas apenas é um grande pretexto para não fazer as pequenas. E já que falei em futebol, refira-se o grande Rubens Minelli: "não importa de onde o jogador parte, e sim aonde ele chega".
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