ANO: 26 | Nº: 6588

Fernando Risch

fegrisch@gmail.com
Escritor
15/08/2020 Fernando Risch (Opinião)

Comédia


As coisas estão a escalar rápido. Num dia, toda honra e toda glória à sensatez, por um medo palpável do real. No outro, o trato desmiolado frente à sociedade, em um laissez faire freestyle, sabe-se lá por quais interesses, por quais pressões.

É engraçado como as coisas mudaram de março pra cá. Trocamos a preocupação com o desconhecido invisível, até então inofensivo às nossas paragens, por um quase que total descompromisso com a realidade que bate em nossa porta, numa situação completamente diferente.

Sabemos muito bem que as coisas não ocorrem de um dia para o outro. Para que algo se assimile, damos um passo a cada dia, e a cada metro caminhado, esquecemos o trajeto feito. Cada palmo conquistado torna-se a mais nova realidade, a única que sempre se teve.

Surpreendemo-nos pouco nos tempos atuais. Quando antigamente apenas nas esquetes de humor as ideias absurdas e exageradas eram usadas como entretenimento, agora houve a quebra da terceira parede e nos vemos interagindo com este teatro de mau gosto.

A piada do momento envolve crianças. Veja que engraçado. Vou narrar. No momento mais delicado da humanidade nos últimos cem anos, em que pessoas não devem interagir in loco com outras pessoas para evitar de se colocarem em risco de uma doença sem cura, pais esturricados mentalmente dos próprios filhos e escolas despreparadas pelo baque ocasionado com a falta de aulas forçam o Estado a engaiolar o nicho mais selvagem de seres humanos, cada um vindo de um canto, aceitando a margem de todo o risco possível de uma tragédia e, mais que isso, diminuindo tal risco. O Estado acha deveras interessante e propõe tal ideia à sociedade civil como algo trivial, nobre e correto.

A plateia chora de rir no teatro lotado de piada tão bem elaborada. Yevgeny Zamyatin, George Orwell, Aldous Huxley, Ray Bradbury e mais uma série de outras pessoas se reviram na cova. Margaret Atwood, bem viva, obrigada, prefere não comentar.

Nesta brincadeira de esquecer o chão que se pisou no dia de ontem, fica o questionamento, para o dia de amanhã, de qual será o próximo ato desta comédia.

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