ANO: 26 | Nº: 6588

Dilce Helena Alves Aguzzi

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Psicóloga
18/08/2020 Dilce Helena Alves Aguzzi (Opinião)

Precisamos nos arrepender, sempre

Tenho admiração por pessoas que não se importam em ser um tanto quanto incoerentes em benefício de certa dose de autenticidade, são o que são e não escondem ou camuflam, mesmo que isso não as torne tão legais, joviais ou cult a vista dos outros. Admiro tanto isso que chego a me irritar com modinhas politicamente corretas que acabam por soar vazias. Irrito-me com os modismos levados a exagero. Repentinamente ninguém tem medo de nada; tem, sim, receio (talvez soe mais suave); outros se dizem perfeccionistas (provavelmente por desconhecer o termo, acreditando que signifique aquele que não erra); outros tantos nunca tiveram preconceitos (o que é muito diferente de cultivar a exclusão), é como se as vivências, lembranças pessoais e percepções passassem por um processo de pasteurização sobrando apenas aquelas partes que não seriam banidas das redes sociais, o resultado é chato, burocrático, enjoado, falso.
Noto que há algum tempo as pessoas vem demonstrando que não podem sentir arrependimento. Em muitos discursos em diferentes situações e faixas etárias dizem: "Não me arrependo de nada!" Como se fosse algo errado, indigno ou menos inteligente, como se dizer isso trouxesse garantia de alguma coisa. Modinha, falsidade, mentira, não por mal, mas mentira! Sem arrependimento não há crescimento, sem lamentar ter feito o que fizemos, sem pensar com pesar porque fiz assim ou assado, não terei abertas as portas da reflexão e, em consequência dessa reflexão, uma ação futura diferente. Será que fazem isso por medo do julgamento? Ou será por interpretar mal a afirmação de que o arrependimento não muda o passado? A mudança é ato contínuo ao arrependimento, pois sem ele continuaríamos fazendo tudo igual, sem crescimento e sem aceitação de nossas incoerências que nos fazem tão humanos.
A metanoia, crise pessoal que antecede e é condição essencial ao crescimento humano, não é possível sem o arrependimento. O lamento por si só pode até ser inútil e doloroso, pois sozinho não transforma nossa biografia. Entretanto, desde bem pequeninos, após um erro, ou escolha que resultou em dor, desgaste ou sofrimento, surge um instante de aprendizagem que proporciona escolhas mais adequadas e sábias no futuro, exatamente para que o resultado seja outro e melhor. Logo, arrepender-se é muito importante somente para aqueles que desejam evoluir e se aperfeiçoar.


"De repente, parece que ninguém tem medo de nada."

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