ANO: 26 | Nº: 6572

Padre Jair da Silva

pejairs@yahoo.com.br
Pároco da Catedral
29/08/2020 Padre Jair da Silva (Opinião)

Que Ele cresça


João Batista ao se referir a Jesus Cristo, fala com tanta clareza e convicção: "É preciso que Ele cresça e eu diminua" (Jo 3,30). Esta é a nossa missão, apontar para Cristo, conduzir as pessoas para Ele. Cuidado! O centro não somos nós, não se trata de um auto anúncio.
Não esqueçamos que quando temos necessidade de aparecer, de brilhar mais que a estrela de Belém, é porque está na hora de recomeçar, tomando o caminho certo. Sempre é bom lembrar que por mais forte que pareça ser, quando se trata de projeto humano é sempre limitado e sujeito a cair. Quanto mais alto, maior o tombo, nos diz o velho ditado, portanto, se é preciso recomeçar, não deixemos para mais tarde.
O piloto alemão Vettel, ao conquistar o tetra campeonato mundial de fórmula 1 na Índia, disse: "Assim que cruzei a linha de chegada me deu um vazio". Estas palavras expressam uma grande verdade: eu posso ocupar os melhores ou mais altos postos, mas se eu não der um sentido para tudo a minha vida não passa de um vazio. A pessoa, por exemplo, que tem necessidade de aparecer, ocupar os primeiros lugares muitas vezes é para preencher o vazio existencial.
Olhando à nossa volta e observando as pessoas, nos deparamos cada vez mais com pessoas soberbas, arrogantes, cheias de si, pessoas que se julgam melhores do que as outras, pessoas que se julgam superiores. Mas, também olhemos para nós. Nos coloquemos diante de um espelho, de preferência, diante do espelho da nossa consciência, e procuremos reconhecer o quanto nós também já nos enchemos de soberba, de arrogância, o quanto às vezes nos julgamos melhores que os outros, superiores a eles.
"É preciso que Ele cresça e eu diminua", Esta é uma grande alerta para nós, porque pessoas soberbas e arrogantes, pessoas vivendo um vazio existencial, estão em todos os ambientes, inclusive dentro das igrejas. Não poucas pessoas fazem da sua vivência religiosa um motivo a mais para se sentirem superioras aos outros, não apenas se julgando boas, justas, cheias de méritos, mas também sentindo-se no direito de desprezar os outros.
O evangelista São Lucas nos diz que, vivendo no meio de pessoas arrogantes, que se julgavam melhores que as outras, inclusive espiritualmente, Jesus nos convida a cultivar a humildade como abertura para Deus, a fim de que possamos sair da oração transformados, lembrando que só podemos mudar se reconhecemos que a salvação vem de Deus, e não dos nossos próprios méritos (cf. Lc 18, 9-14).
Nos ensina Mahatma Ghandi, o profeta da não violência e da firmeza da verdade: "Devo reduzir-me a zero. Enquanto um homem não se considera espontaneamente o último, não há para ele salvação". E um dos nossos grandes santos, São Francisco de Sales assim nos ajuda: "Só se sobe quando se desce".
Talvez o que esteja nos faltando é mais oração, precisamos dobrar mais os joelhos. E que a nossa oração seja como deve realmente ser, momento de sermos lembrados que somos barro, e como barro, dependemos absolutamente de Deus para sermos alguma "coisa". Como barro, somos também "sujos", e somente a água da graça de Deus pode nos purificar. Somos barro nas mãos do oleiro, nos diz o profeta (cf. Jr 18,6). A oração deve ser o momento onde entramos barro e saímos vaso novo, onde entramos feridos e saímos curados, onde entramos pecadores e saímos perdoados.

Pe. Jair da Silva
pejairs@yahoo.com.br
(55) 997051832

 

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