ANO: 26 | Nº: 6589

Fernando Risch

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Escritor
05/09/2020 Fernando Risch (Opinião)

Revolta da Vacina


Tenho memória vívida do dia em que estudamos a Revolta da Vacina na escola. Consigo ver o sol da manhã entrando pela janela ogival da sala de aula. Ouvíamos o professor em um raro momento de atenção. Aquilo era interessante demais para que qualquer atividade não-escolar movida por caos e hormônios pudesse nos distrair.

O professor se calou. A sala soltou a respiração. No limiar da incredulidade, nos entreolhamos, ainda em silêncio. Até que alguém resolveu mover a língua por impulso e agredir a paz oriunda do horror com suas cordas vocais: "Como esse povo era burro!".

De semana em semana, eu me pergunto como chegamos a este ponto. Neil Howe e William Strauss, dois não-acadêmicos, teorizam ideias que embutem ciclos na sociedade através das gerações. Após um certo número de gerações, um paeríodo de grande individualismo se instaura, precedido de uma grande crise. Em 1992, eles previram uma crise para 2020. Isso não explica bem o que estamos vivendo, mas a ideia de repetir o passado oxigena nossa inteligência.

Sobre inteligência, por exemplo, caso pensemos que seja impossível repetir uma estupidez, já que somos uma sociedade moderna e avançada, o antropólogo Everaldo Rocha - já este, muito acadêmico – afirma que nós, sociedade ocidental escolarizada, não somos mais inteligentes que um aborígene australiano, por exemplo. Ou melhor, o aborígene australiano não é inferior intelectualmente que um ocidental escolarizado. A única coisa que nos difere é tecnologia, e nada mais. Então pensar que uma pessoa de 1904 é menos inteligente que uma de 2020 não é uma afirmação correta. Ambas podem ser muito estúpidas.

Estamos vivendo a pior crise sanitária dos últimos 100 anos. O Brasil está galopando, galgo de sede, ao número de 200 mil mortes pela Covid-19, e neste desespero por uma normalidade, toda pessoa sã reza, clama e se escabela para que uma vacina, seja americana, chinesa, cubana ou brasileira, surja para libertar-nos de nossas próprias casas sem preocupações.

Assim é o ideal de pensamento. Mas pensamento positivo só nos livra de radicais livres, não afeta a realidade. Sabe-se muito bem que o movimento anti-vacina existe há algum tempo. Pessoas que não se vacinam e não vacinam seus filhos, que vai de uma ordinária tríplice viral, com alegações simples, como de se gripar após a vacinação, mesmo o virus da vacina estando inativo, até mesmo com teorias conspiratórias mais esdrúxulas, como a de que a vacina causa autismo. A era da ultrainformação e da mentira causa esse tipo de coisa, e até se entende.

Nesta semana, a Secretaria de Comunicação do Governo publicou nas redes sociais uma peça que afirma: "Ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina". Na esteira, o vice-presidente Hamilton Mourão, emendou: "Acho que você pode encontrar gente que não quer tomar a vacina. É o que eu te digo: você vai agarrar à força?". Completando, Jair Bolsonaro, o presidente que está há meses tentando enfiar goela abaixo a cloroquina, um medicamento cientificamente ineficaz contra a Covid-19, em uma live, afirmou: "Não podemos ser irresponsáveis de injetar uma vacina que não tem comprovação científica". Cabe dizer que um decreto do próprio Jair Bolsonaro permite a vacinação compulsória. A impressão é que o Governo Federal não gostaria que o Brasil voltasse à sua normalidade através do único meio eficaz para tal: a vacina.

O que fica claro mesmo é que a revolta contra a vacinação em 1904 pode parecer algo estúpido, vinda do povo, mas o mundo é cíclico e tecnologia não é sinônimo de inteligência, e sempre alguém poderá repetir o passado, desta vez em um papel inverso, de cima pra baixo, com doses ainda mais cavalares de burrice e maldade.

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