ANO: 26 | Nº: 6590

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
12/09/2020 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Fernando em Pessoa

                                     

Quando vou a Lisboa não deixo de praticar veneração a Fernando Pessoa, seja a tradicional fotografia no Café A Brasileira; ou nos Jerônimos; a casa na Rua Coelho da Rocha 16, 1º andar, no Campo de Ourique, onde passou os últimos quinze anos de sua vida, e que estava em obras. Desta vez descobri num sebo obra sua de teatro e contos. E na agradável LX Factory, antes fábrica abandonada, hoje centro de compras muito simpático, um livro de pensamentos e reflexões do genial lusitano. Ali, uma autobiografia, que reproduzo, adotando a grafia original.

Nome completo: Fernando António Nogueira Pessoa. Idade e naturalidade: Nasceu em Lisboa, freguesia dos Mártires, no prédio nº 4 do Largo São Carlos (hoje Directório), em 13 de junho de 1888. Filiação Filho legítimo de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira. Neto paterno do general Joaquim António de Araújo Pessoa, combatente das campanhas liberais, e D. Dionísia Seabra; neto materno do conselheiro Luiz António Nogueira, jurisconsulto e que foi director-geral do Ministério do Reino, e de D. Madalena Xavier Pinheiro. Ascendência geral: misto de fidalgos e judeus. Estado: solteiro. Profissão: A designação mais própria será “tradutor”, a mais exacta a de “correspondente estrangeiro em casas comerciais”. O ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação. Morada: Rua Coelho da Rocha, 16, 1º, Dtº., Lisboa (Endereço postal- Caixa Postal 147, Lisboa). Funções sociais que tem desempenhado: Se por isso se entende cargos públicos, ou funções de destaque, nenhumas. Obras que tem publicado A obra está essencialmente dispersa, por enquanto, por várias revistas e publicações ocasionais. O que, de livros ou folhetos, considera como válido, é o seguinte: “35 Sonnets” (em inglês), 1918; “English Poems” I-II” e “ “English Poems III” (em inglês também), 1922; e o livro “Mensagem”, 1934, premiado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, na categoria “Poema”. O folheto “O Interregno”, publicado em 1928, e constituído por uma defesa da Ditadura Militar em Portugal deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isso e talvez que repudiar mais. Educação: Em virtude de, falecido seu pai em 1893, sua mãe ter casado, em 1893, em segundas núpcias, com o Comandante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban, Natal, foi ali educado. Ganhou o prémio Rainha Vitória de estilo inglês da Universidade do Cabo da Boa Esperança em 1903, no exame de admissão aos 15 anos. Ideologia Política: Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre os regimes, votaria, embora com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberdade dentro do conservantismo, e absolutamente anti-reaccionario. Posição religiosa Cristão agnóstico e portanto inteiramente oposto a todas igrejas organizadas, e sobretudo à Igreja de Roma. Fiel, por motivos que mais adiante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da Maçonaria. Posição iniciática: Partidário de um nacionalismo místico, de onde seja abolida toda a infiltração católico-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo, que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo português houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: “Tudo pela Humanidade; nada contra a nação”. Posição social: Anticomunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai dito acima. Resumo de estas últimas considerações: Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários, se combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos- a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania. (Segue a assinatura Fernando Pessoa). O extraordinário poeta, junto com seus heterônimos, faleceu em 30 de novembro de 1935, possivelmente de cirrose hepática, no Hospital São Luis dos Franceses. Sua última frase foi escrita em inglês e dizia: “Eu não sei o que o amanhã trará”. O escritor italiano Antônio Tabucchi publicou um pequeno livro sobre os três últimos dias do poeta.

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