ANO: 26 | Nº: 6590

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
26/09/2020 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Carlos Kluwe, a majestade dos campos

Foto: Reprodução JM


Em breve completam-se 54 anos do falecimento de Carlos Antônio Kluwe que, segundo obra de Mário Nogueira Lopes foi "um dos mais cultos bajeenses de sua época, pois além de abalizado e humanitário médico, preocupou-se com os jovens sem recursos que não podiam frequentar as escolas particulares, sendo frutos de seus esforços dois importantes educandários em Bagé". Além de outras qualidades pessoais, que são muitas, rememoro uma face em que teve o médico humanitário: jogador de futebol.
Convivi com o Dr. Kluwe várias vezes quando passei a lecionar no Colégio Estadual, por ele criado, onde ia seguido, até para fiscalizar a eficiência dos jovens professores ou apenas andar pelo Palacete Osório. Lamentavelmente, ali, desconhecia sua atividade como atleta o que só vim a saber quando, conselheiro do S. C. Internacional, visitava o Museu do mesmo, onde ele tem lugar de destaque entre os grandes craques do colorado. Não há historiador daquela entidade que não refira a passagem dele em seu tempo ou deixe de relatar episódios memoráveis em que esteve presente na Chácara dos Eucaliptos. No livro que pretendo editar sobre os campeonatos estaduais do Guarany F.C. terá Kluwe um capítulo separado, embora sua presença no alvirrubro não tenha continuado por retornar ele à atividade médica, social e atenção com sua família nascente. Deixo de anotar neste texto a vida política, o exercício da prefeitura, o fiscal educacional ou o exator, que também o ornamentam, nem os momentos que passava no Clube Comercial, depois do almoço, quando com Zezo Antunes, Floriano Rosa, Ernesto de Bem, Juca Abero ou Daisy Carvalho disputava intensas partidas de xadrez, instantes que os assistentes acompanhavam com interesse pelas tiradas espirituosas e anedotas que se criaram em torno deste grupo. Primeiros estudos em São Sebastião, onde seu pai tinha um comercio. Fez os preparatórios em Porto Alegre na Escola do Prof. Inácio Montanha. Aprovado para o Curso de Medicina, onde se formou em março de 1915. Nesta época já jogava no Inter, onde conheceu dona Iracema, com quem casaria. As moças, na época, enchiam a plateia onde jogava o colorado, fundado em 1909. E Kluwe chamava a atenção: 1,90 de altura, atlético e elegante, tinha forte personalidade, chute forte de qualquer distância com ambos os pés. Centromédio, fazia golos. Dizem os cronistas que a sua garra e liderança deu um "estilo" ao Internacional, onde passou a atuar na segunda partida depois da criação da entidade. Sua primeira partida foi contra o Frisch Auf – time de descendentes alemães, tal como o Grêmio da época -, em 6 de novembro de 1910 (7x2). No campeonato de 1911, errou um pênalti na partida contra o Fussball. Em 1912 marcou um dos gols na goleada de 16x0 contra o Nacional. Comandou o Internacional em seu primeiro campeonato (1913) e também o bicampeonato de 1914, assinalando contra o Americano, na vitória por 15x2. Além de jogador, também exerceu a função de técnico, pois outrora o capitão do time era o escolhido. Seu prestígio era tanto que em 1915 seu apoio a Felipe Silla (depois goleiro do time) levou a oposição ao poder na direção do clube. No mesmo local, Palacete Rocco (depois uma famosa Confeitaria), mais tarde, Kluwe receberia uma medalha de ouro por sua formatura. Em 1916 veiu clinicar em Lavras do Sul. Em obra de Edilberto Teixeira se narra que ele, mais Ricardo "Bidu" Kluwe até cogitaram de estabelecer um time na cidade. Na volta para Porto Alegre, em 1917, além de atleta foi eleito para o Conselho Fiscal do Internacional. Em 1918 o colorado perdia o campeonato para o Cruzeiro e a temporada de 1919 não começara bem, com derrotas. Aproximava-se o Gre-Nal, e o tricolor vinha acumulando vitórias sobre o colorado. O centroavante Bendionda estava contundido, o que era fator de preocupação. Então acontece um fato inusitado na história do Internacional. Cerca de 150 torcedores, a imensa maioria de mulheres, inclusive dona Iracema, subscreve um abaixo-assinado para que Kluwe volte a atuar. Em 20 de julho de 1919 ele volta a vestir a camiseta colorada. O Inter vence por 2x0. No dia seguinte, segundo o historiador Raul Pons, Kluwe e dona Iracema foram homenageados com um chá dançante. Ele conquista o título de 1920 e abandona o futebol. Em 1921 abre clínica em Caxias do Sul. Em 1923 definitivamente está definitivamente em Bagé. Pelo Inter disputou 61 partidas, marcou 20 gols e foi campeão em 1913, 1914, 1915 e 1920.
Em setembro de 1913 o Guarany faz sua primeira excursão para Porto Alegre joga com o Grêmio (0x1), e duas vezes contra o Inter (0x2; e 3x1). Kluwe é atleta e técnico do Inter na ocasião. Na vitória alvirrubra o gol solitário do Inter foi feito por Kluwe.
Em retribuição, o Internacional vem a Bagé em agosto de 1918 e ganha uma vez do Guarany, 2x1 e perde a outra por 3x2. Nestas partidas, no colorado, treinado por Kluwe Bidú Kluwe. Os dois parentes jogam também contra um Combinado Bajeense, na Estrela D'Alva. Vitório do Inter por 2x1.
Em 1921, havendo o Guarany conquistado seu primeiro título estadual (1920), Kluwe está provisoriamente em Bagé, e atua pelo alvirrubro nos primeiros Ba-Gua da história com a disputa da Taça "Antônio Magalhães e Filhos", em julho de 1921, troféu vencido pelo jalde-negro (2x2 e 1x2). Nestas partidas o time do Guarany era Balverdú; Avancini e Afonso; Souza Pinto, Kluwe e Maidana; Ratão, Ruival, Grecco, Omar e Candonga.
Mas em agosto e 1921 há outro Ba-Gua e o Guarany vence por 2x1, gols de Lagarto, escalando Balverdú; Avancini e Afonso; Kluwe, Seixas e Maidana; Ratão, Omar, Grecco, Lagarto e Candonga. Em outubro acontecem os Ba-Gua do primeiro campeonato vencido pelo alvirrubro (3x1; 0x0), desconhecendo-se Kluwe atuou, possivelmente não.
O último registro, em agosto de 1924, relata a goleada que o Guarany impôs ao E.C Bancários desta cidade (17x0!), jogando o alvirrubro com Octacílio; Costa I e Pinto. Kluwe I, Kluwe II e Costa II; Valter, Faraco, Omar, Suñe e Candonga. Foi árbitro Rafaelito Médici.
Desconhecem-se os goleadores. Possivelmente tenha sido a última partida de Carlos Kluwe como jogador de futebol, passando a dedicar-se à medicina, clinicando na Beneficência Portuguesa ao lado de outro ex-atleta colorado, Ernesto Médici Sobrinho.
A família Kluwe gostava de futebol: João, Lotário e Guilherme, parentes de Carlos fundaram em Porto Alegre o extinto Grêmio Foot-Ball 7 de Setembro; Ricardo, foi atleta, como visto.

Fontes: Dados existentes em texto de José Brasil Teixeira, seu vizinho, com base em informações do filho José Teixeira Kluwe. Lopes, Mário Nogueira, cit., pp. 43-46; ""Doutor Carlos Antônio Kluwe, patrono desta Escola Estadual de Segundo Grau", publicação da mesma, por ocasião da posse do professor Boaventura Mielle da Rosa, como diretor, em julho de 1979. O jornalista Sidimar Rostan, e o autor organizam projeto sobre o Dr. Carlos Antônio Kluwe; Pons, Raul. Jogadores do passado: Carlos Kluwe. Futebol & outras Histórias. Em 16.09.2010; Acervo Antônio Saavedra, Arquivo Municipal de Bagé.

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