ANO: 26 | Nº: 6590
01/10/2020 Cidade

Juremir Machado palestra sobre pontos contraditórios da Revolução Farroupilha

Foto: Divulgação

Machado:
Machado: "A questão era essa: saber o que aconteceu com os negros que lutaram ao lado dos farrapos? São questões interessantes a serem levantadas quando partimos do princípio que o lema da Revolução era liberdade, igualdade e humanidade"

No mês de maior atividade cultural na Rio Grande do Sul, debates e eventos voltados à temática da Revolução Farroupilha são constantes. Contudo, o que propôs o jornalista e historiador Juremir Machado, em videoconferência na noite da última segunda-feira, foi lançar luz sobre pontos nevrálgicos do episódio histórico.
Na atividade, promovida pelos cursos de graduação de História e Jornalismo da Urcamp, um dos temas destacados pelo jornalista diz respeito a um dos mais contraditórios momentos da Revolução: o massacre de Porongos, ocorrida nas proximidades de Pinheiro Machado, em que soldados negros das tropas farroupilhas foram chacinados por tropas imperiais. Em uma noite, cerca de 100 homens foram mortos e 120 feitos prisioneiros do espólio nacional.
O episódio levanta controvérsias até hoje devido à contrariedade do pensamento que culminou no massacre em oposição (a traição do general farroupilha, Davi Canabarro, ansioso por cessar a revolução e, ao mesmo tempo, livrar-se dos escravos e de uma possível rebelião) aos ideais pregados pela Revolução: liberdade, igualdade e humanidade.
Assim, Machado resolveu pesquisar mais a fundo alguns episódios da revolução, abafados em detrimento de uma narrativa heróica. Para isso, lançou mão de anos de pesquisa em diferentes partes do território nacional, desde o Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, até a Biblioteca Pública de Pelotas. "A questão era essa: saber o que aconteceu com os negros que lutaram ao lado dos farrapos? São questões interessantes a serem levantadas quando partimos do princípio que o lema da revolução era liberdade, igualdade e humanidade. Mas tinha liberdade para quem? A igualdade estava no horizonte?", explica Machado.
A partir destes questionamentos, a pesquisa fluiu com a análise de mais de 17 mil documentos, em um trabalho conjunto entre 12 pessoas, e o resultado do trabalho pôde ser conferido no livro "História regional da infâmia - o destino dos negros farrapos e outras iniquidades brasileiras", lançado em 2010.
Na obra, Juremir relata, também, episódios ocultados dos primórdios da Revolução, quando escravos foram vendidos no Uruguai para financiar os esforços de guerra dos proprietários gaúchos. Este episódio, inclusive, é confirmado por documentos oficiais, apresentados no livro. "A Revolução, no início, se financiou com a venda de negros ao Uruguai. Não pode ser igualitária uma Revolução que tem esse começo", destaca. .
Para o jornalista e historiador, a história da revolta dos gaúchos foi sendo recontada e ressignificada, até que "se construiu uma narrativa épica da Revolução Farroupilha que jogou para debaixo do tapete tudo aquilo que pudesse manchar essa narrativa. Nossa história tem essas coisas que não são bonitas ou abonadoras, são desagradáveis, mas que fazem parte da nossa história".
Além disso, o conferencista apontou a importância de manter a história, de fato, sob constante análise, tanto do ponto de vista do profissional de comunicação quanto do viés do historiador, a fim de não permitir deturpações ou a criação de narrativas paralelas, sobrepostas à realidade. "Podemos lembrar a Revolução e destacar alguns aspectos positivos, mas eu creio que a obrigação é contar tudo que se possa saber. Agora é tempo de render homenagens aos bravos negros que foram traídos, lutaram e morreram em Porongos", finalizou.
Coordenadora do curso de História, Clarisse Ismério destacou a possibilidade que o ensino remoto abriu de manter "os acadêmicos de ambos os cursos em contato com grandes autores", como Tau Golin, Antônio Hohfeldt, Alexandre Ayoub Stphanou, Tabajara Ruas e Ruben Oliven, já que as webconferências não têm limitações de distância ou de espaço.
Outro anfitrião da conferência, o professor Glauber Pereira, coordenador do curso de Jornalismo, destacou o espírito questionador, inerente tanto ao profissional da Comunicação quanto de História, ambos personificados em Machado, que "com pensamento crítico e figura catalisadora, traz uma visão aprofundada, que mostra que a cultura não pode encarar como algo dado".

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