ANO: 26 | Nº: 6590

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
03/10/2020 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

A jornada de um herói

Há na literatura um princípio admitido pela maioria dos escritores: todas as histórias têm uma estrutura básica comum, tal como ocorre com as pessoas que, embora sejam desiguais, possuem uma mesma anatomia (um coração, dois pulmões, etc.).

A afirmação se deve aos estudos de Joseph Campbell publicada no livro “O herói de mil faces”, 1949, Campbell é conhecido pelos trabalhos sobre mitos, lendas e fábulas e que examinou tais eventos nos povos primitivos chegando aos roteiros de cinema. Também se orientou pelas teorias psicanalíticas de Jung a fim de entender como uma história se fixa na mente dos indivíduos. O primeiro fator comum é a existência de um “herói” que pode ser uma pessoa absolutamente normal, sem poderes especiais, mas também um animal ou alguma entidade fictícia. O segundo elemento é que o herói enfrenta uma situação incomum, fora de sua rotina. Depois disso, há o retorno do herói para a vida corriqueira, embora mudado por sua experiência. Campbell, além das três fases identifica as doze etapas que compõem o núcleo das histórias, ensinamento que é seguido hoje, por roteiristas de cinema e escritores nos projetos de suas narrativas.

Etapas: 1. Mundo comum. O herói é apresentado em sua rotina, fazendo as coisas que está habituado a fazer. 2. Chamado à aventura. A rotina do herói é interrompida por uma situação diferente, incomum, que exige sua intervenção, fugindo à rotina. 3. Recusa ao chamado. O herói tenta se eximir ou fugir ao chamado, pois lhe é mais conveniente deixar as coisas continuarem como estavam, pois, o simples transcurso do tempo tudo resolve. O autor do livro em projeto até cogita deixar o enredo como está, livre de problemas futuros. 4. Encontro com o mentor. O herói encontra alguém mais experiente que o aconselha, ou acontece um fato que contribui para ele superar seu medo ou receio. 5. Travessia do limiar.  Neste instante o herói é forçado, ou espontaneamente,  e decide sair da rotina e passa ingressar num mundo de situações especiais ou extraordinárias. 6. Testes, aliados e inimigos. Aqui o núcleo principal da história e nicho em que se desenrola a maior parte da narrativa. O herói enfrenta testes, consegue aliados e descobre que terá de enfrentar inimigos. 7. Aproximação do objetivo. O herói se aproxima do objetivo principal de sua jornada. O nível de tensão aumenta. Tudo se torna indefinido, incerto. 8. Provação suprema. Aqui acontece o clímax da crise. É o auge, instante em que o herói enfrenta seu maior desafio. Maior risco, maior emoção para o leitor. Há circunstâncias em que o herói se confronta com sua própria morte. 9. Conquista da recompensa. Com muito esforço pessoal o herói supera a crise, que finda. Ele conquistou seu prêmio, sua recompensa. 10. Caminho de volta. O herói começa o trajeto de volta para o mundo comum. A aventura teve fim e precisa retornar à sua rotina. Em geral, nas histórias essa é uma etapa curta, concisa. 11. Depuração.  Sucede que o herói pode ainda ter de enfrentar algum obstáculo ou situação secundária. Ele vai resolver algo que ficou em aberto, concluindo seu objetivo.  12. Retorno transformado. É o fim da jornada e da história. O herói volta ao seu ambiente rotineiro, retorna à vida comum, mas reconhece que ele já não é mais o mesmo. Está mudado pela experiência vivida.

A escritora Sônia Belloto exemplifica com a obra “Harry Potter e a pedra filosofal”, onde o herói é um menino. Mundo comum: ele mora na casa dos tios, é órfão, é maltratado pelos tios e um primo. Às vésperas de completar onze anos, sua rotina é quebrada com cartas misteriosas (chamado ao herói). O tio tenta impedir que as cartas cheguem ao garoto (recusa ao chamado). O menino está para desistir de recolher as cartas quando um homem vem visita-lo e indaga porque não respondeu às missivas e diz que ele um bruxo que necessita iniciar os estudos numa escola de bruxaria (encontro com o mentor). Apesar da oposição dos tios, o menino aceita e vai para a escola (travessia do limiar). No ambiente escolar ele aprende novas habilidades, faz amizades e descobre o inimigo que matou seus pais, almejando eliminá-lo também (testes, aliados, inimigos). Surgem situações que convergem a narrativa para o combate direto entre o herói e seu inimigo (aproximação do objetivo). Acontece o combate, o herói quase morre, mas se safa (provação suprema). O herói, que representa o bem vence o mal, o inimigo (conquista da recompensa). Termina o ano letivo na escola e o garoto retorna à casa dos tios (caminho de volta). O primo maldoso ainda tenta maltratar o herói, mas descobre ser impossível, pois ele, agora, sabe se defender (depuração). Em vista da experiência e renovado, o herói volta à rotina (retorno transformado).

Ao que consta a autora J.K. Rowling, de grande sucesso, admite ter seguido o mesmo esquema na continuação da história do bruxinho. Quem sabe lera Campbell.

Não é fácil contar histórias? Mãos à obra, pois.

Leitura. “Você já pensou em escrever um livro”, de Sônia Belloto.3e. Fábrica de Textos, São Paulo.     

 

 

 

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