ANO: 26 | Nº: 6590

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
10/10/2020 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

O Doutor Waldir

Esse trágico período afeta algo caro na essência humana. Castrou-se o sentido de solidariedade, impedindo atos que permitam demonstrar o préstimo, apoio, a condolência pelo desaparecimento de parente ou amigo. Mesmo que a morte não provenha da incidência viral há protocolos que buscam evitar aglomerações inibindo adeuses. Limitam-se os contingentes. Fracionam-se horas de abraço. Economizam-se lágrimas. Desconheço, pelo veto sanitário e como anacoreta compulsório, como se dão as cerimônias de despedida. Antes a eclipse na vida dos íntimos era esporádica. Sazonal. Agora os episódios acontecem impetuosos, torrenciais. Avassalam. Derrubam em golpes contundentes.
Nestes dez últimos dias contabilizo três amigos queridos, Zukauskas, Waldir, Zé Américo, e já sobressaltam temores de outros em respiradouros ou sob cuidados médicos.
Waldir Ramos.
A imprensa, com mais propriedade salientou a personalidade cidadã e comunitária deste companheiro a quem a cidade tributou e releva a obra ímpar e presença em grandes momentos de sua história.
Conheci Waldir em vista de sua amizade com meu irmão e minha mãe que lhe tinha especial apreço. Conta George, revirando sua excepcional memória, que o engenheiro chegara a Bagé numa viagem de jeep com sua família e pertences. Waldir vinha recomendado para o arquiteto francês Dr. Bruno que o apresentou ao seu advogado em busca da primeira casa e aluguel. Entre os dois forjou-se inflexível estima, Waldir se estabeleceu com alguns filhos ainda pequenos. Iria desempenhar as funções de engenheiro do então Departamento Nacional de Obras de Saneamento, situado nas proximidades da Escola Silveira Martins. Foram parceiros de Rotary. Não foi necessário muito tempo para que Waldir superasse seu noviciado e acabasse a integrar-se no seio da comunidade. Representante de importante empresa de engenharia de Porto Alegre, contribuiu para o embelezamento da cidade. Muitos prédios, e dos mais significativos, tiveram sua chancela, prestígio profissional acrescido, anos depois, quando criou a "Teorema", sólida firma cujo nome emplaca edifícios, obras públicas e outras iniciativas imobiliárias. Durante uma fase Waldir também se dedicou ao magistério, haja vista a pletora de manifestações de ex-alunos em redes sociais lamentando seu óbito. Inclusive, junto com o odontólogo José Avancini, organizamos, com território no Colégio Estadual, aquele que seria o primeiro curso pré-vestibular na cidade. Todavia, talvez pela vizinhança com seu local de trabalho, uma das atividades a que Waldir se dedicou foi a Escolinha de Artes do Colégio Silveira Martins, não apenas se acomodando na construção do novo local, mas também ativamente atuando em angariar recursos e promoções, juntamente com Leda Freire, transformando o núcleo em destaque estadual e orgulho citadino. Somem-se, ainda, o labor junto à Prefeitura Municipal, o serviço prestado como rotariano. E, especialmente, a liderança empresarial na ACIBA, com ideias vanguardeiras e também a rotina da instituição na estrutura de palestras e campanhas, a biblioteca, a representação social, entidade de que muito se envaidecia e a quem que não deixava de referir em suas conversas pelo apreço que lhe destinava. Estava, outrossim, também incorporado na turma dominical do mate junto a estátua do Dr. Pena, compromisso a que não faltava até ultimamente em suas visitas. Narro um evento de que fui testemunha durante o governo Médici, autoridade com quem teve também contatos, nas missões com Domingos Nocchi e outros dirigentes.
Em 1969 era presidente da Câmara Municipal, sendo prefeito o saudoso Coronel Bandeira, e como não raro, "convidado" junto com os líderes de bancada ao gabinete do operoso general Pellegrini, que se mostrava agastado com a dificuldade que seus comandados tinham em obter locações aqui pelo elevado custo da moradia. E que estudava até deslocar dois regimentos para Rosário do Sul onde existia uma Vila Militar. Como é natural, ficamos assustados em vista da apreciável quota que o orçamento castrense representava para a economia de Bagé, coisa de muitos milhões. Depois de diálogos e sugestões o general admitiu a possibilidade de construir um edifício, desde que o município oferecesse um terreno para tal. Imediatamente a ideia foi aceita, o coronel Bandeira também aquiesceu, indicando-se ali Waldir Alves Ramos e o coronel Murilo Budó para pesquisar e decidir sobre o imóvel, o que foi feito com brevidade. Na ausência eventual do coronel Bandeira, tocou-me, como substituto, desapropriar o imóvel, onde hoje se situa o majestoso Edifício dos Militares (lei n. 1.80/69), mantendo-se aqui, então, parte da guarnição.
Logo que vim para Porto Alegre fui acolhido em alegre turma que se reunia nos sábados na Galeria Chaves, para o cafezinho. Tão agradável era que um pequeno grupo passou a saborear também o produto no Mcdonalds nos domingos de manhã. Nesta facção se aliou Waldir Ramos, quando se transferiu também para a capital. Éramos talvez uns seis ou sete. Ficamos em cinco, quando o ambiente mudou o horário de abertura, desinteressante para os objetivos da turma. Octávio Germano, então, descobriu uma padaria no início da Rua da Praia, perto dos quartéis. Inesperadamente, Octávio é hospitalizado, não volta mais. Ficam quatro, o industrialista Hélio Arenhardt, o jornalista Joseph Zukauskas, Waldir e eu. Cada domingo, seguia-se a liturgia. Hélio me buscava onde moro, depois íamos até o edifício do Waldir, já avisado; nova parada para que subisse Zukauskas e daí até a padaria. Na volta o desembarque contrário, Zuka, Juca, Waldir e Hélio. Isso durante seis ou sete anos. Waldir e Zukauskas se encontravam também seguido no centro, almoçavam juntos. Em muitas sextas encontrava ambos na reunião tradicional no escritório do Dr. Eduardo Müller. Zukauskas adoece, e viúvo, para melhores cuidados habita um lar de repouso. Não o vi mais, o celular mudo. Encontrei Waldir aí em Bagé, nas férias. Retornei às vésperas do decreto de isolamento social, telefones ainda sem resposta.
No curso de sete dias, é incrível, falecem Zukauskas e Waldir, em hospitais aqui perto, sem que o soubesse! Ontem, Zé Américo, mais um de nosso grupo da Casa Civil (Monmany, Mathias, Habiaga). O abraço sentido aos familiares de todos.
Como dizia Mário Quintana, nesta etapa os caminhos, que deviam "ir", cada vez mais "vem...".

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