ANO: 23 | Nº: 5764

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
19/04/2017 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

O veado enrustido

Vias de extinção, disse o Dr. Pureza de Carvalho em tom solene enquanto osculava a xícara de café; e por obra exclusiva dos homens, concluiu. Lembrei o episódio encanecido quando retornava para Bagé no crepúsculo de outono; sol e chuva se beliscavam nas esquinas da Coxilha das Flores. Há pouco atravessara o Camaquã, o aceno de casa, e mirava, longe, os eucaliptos sedentos que extorquiam as corcovas das traíras. Antes, vez e outra, as encostas surpreendiam o viajante com o olhar fugidio de um habitante obstinado. Era o veado campeiro, que tímido e arisco, logo empolgava patas na maratona dos esconderijos. Mas, cadê o veado que estava aqui? Oh, Senhor dos Oceanos e das Pradarias, onde se enrustiu o veado branco?

Recorro ao dicionário: o veado campeiro ou branco, na taxonomia conhecido como Ozotoceros bezoarticus, também tem apelidos tupis como "Suaçutinga ou Suasuapara", ou seja, é coisa nossa, apesar de seus galhos; animal ágil pula sem reduzir a velocidade e os saltos cruzam riachos; também nadam. Os fazendeiros, crentes de que causam a aftosa, descontam neles a injustiça, mas a espécie está ainda afetada pela caça, queimadas, ocupação desenfreada dos campos; gostam das gramíneas e se alimentam do alecrim, do assa-peixe e do barbatimão que os outros animais não apreciam. Aparecem ainda na Argentina, Uruguai, Brasil Central, Pantanal e Amazônia.

Cuidado com os chifres: podem matar.

Pois agora o veado ganhou dignidade literária. A personagem do último e cultuado romance de Daniel Galera, que é uma bióloga, conta que sonhava em encontrar o "veado branco dos pampas", tendo verbete de enciclopédia descrito dois avistamentos, um em 1940, outro em 1946, de um veado campeiro de pelagem totalmente branca, sendo uma das testemunhas oculares um fazendeiro da região de Camaquã que descrevera o animal como "um veado pampiano graúdo e branco como uma nuvem, salpicado de marrom no dorso e na cabeça, com a galhada preta como carvão e que tentou abatê-lo com um tiro de espingarda, mas errou. O outro veado branco tinha visto na fronteira uruguaia pela equipe de um sanatório chamado Três Acácias". Podia ser apenas uma mutação do veado campeiro, talvez uma espécie austral, que ocorria nos pampas argentinos e estava praticamente extinta, os testemunhos podiam ser falsos, e alguns veados campeiros eram mais branquinhos mesmo, mas podia ser também uma espécie rara, pouco vista e jamais capturada. "Era nisso que eu acreditava aos onze anos, e uma vida dedicada a confirmar a existência do veado branco do pampa parecia uma boa vida pela frente". A imagem do  passa a ser simbólica no romance.

E na página final do livro, quando ela é acometida de escopos negativos, e quando busca abrir os sentidos para uma clareira, com o cheiro rochoso da brisa suave, sente que "um vulto esbranquiçado" roça seu campo de visão. E com o coração acelerado, ao inspecionar a vegetação, vê o animal. "Entre as árvores, um veado branco pisava cauteloso, me espiando de lado. A mata não se agitava nem produzia ruído algum enquanto ele passava. Ele não parou, mas passou devagar o bastante para que eu o observasse. Tinha os olhos avermelhados. O corpo era salpicado de marrom claro e as galhadas eram curtas e negras, recobertas de uma penugem cinza. O veado se afastou de mim sem nenhuma pressa. O branco foi se apagando no breu da mata nativa até sumir. Segui na direção que ele havia percorrido, tentando refazer seus passos, mas não voltei a avistá-lo. Ele tinha descido para o fundo do vale, lá onde a mata se adensava ainda mais."

Assim, não perca a esperança. Ao viajar pelas Palmas pode achar seu veado branco.

Será a garantia de vida feliz.

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