ANO: 23 | Nº: 5813

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
20/04/2017 João L. Roschildt (Opinião)

Diversxs e totalitári@s

Uma das marcas do ocidente é sua capacidade de aceitar autocríticas. A tolerância com o diferente, traço caro ao modelo liberal-conservador, permite que as mais ácidas e infundadas afirmações sejam proferidas sem que os indivíduos sofram penalizações por seus pensamentos. No limite, aceita-se o irracional com enorme passividade.

Em 03/04/2017, foi noticiado no The Independent que a Hull University está ameaçando reduzir as notas dos alunos que não usarem a neutralidade de gênero em seus trabalhos acadêmicos. Em situações nas quais tradicionalmente o pronome "ele" poderia designar alguém do sexo masculino, a determinação é que se use "ele ou ela" ou "s/he" (algo equivalente a "ele/a" em língua portuguesa). Outros exemplos podem ser vistos nas palavras "mankind" (humanidade) ou "forefathers" (antepassados). O problema? O uso de palavras que se utilizam de "man" (homem)e "father" (pai). A consequência? Diminuição nas notas das avaliações para aqueles que insistirem em utilizá-las. E as construções linguísticas existentes e suas regras? Ora, em nome da destruição do sistema por meio de um marxismo cultural... azar da língua!

E os exemplos tupiniquins? Já recebi e-mails de professores e de acadêmicos vinculados à UFPel e UFRGS no qual há o uso do "x" ou do "@" no lugar do artigo "a" ou "o". Normalmente o recado começa com "Car@ alun@,". Ironicamente, julgo que a arroba é muito próxima da letra "a". Então, deixo algumas sugestões: usem o "x", pois este é mais "neutro"; sigam a determinação de Hull e punam severamente aqueles que não utilizarem a novilíngua orwelliana estabelecida arbitrariamente pelos intelectuais da ideologia de gênero; e, por fim, ampliem o escopo da obra "1984" e tentem punir o pensamento. Eis uma boa cartilha revolucionária...

Em 2015, o Colégio Pedro II implementou uma dose homeopática desta agenda: um docente colocou o termo "alunx" em um cabeçalho de prova e um coordenador de disciplina fixou um aviso na parede com "Prezadoxs alunxs". Na época, o colégio e o MEC afirmaram que não há qualquer indicação, proibição ou determinação quanto a isso. O que talvez possa levar a conclusão de que seria possível escrever uma redação utilizando essa nova linguagem sem que fosse possível apontar que isso é um erro. Afinal, não é proibido. Para os cultores de tais atrocidades, o que é linguagem? O que é uma redação?

Ainda no The Independent, em 04/04/2017, foi relatado que o adolescente Ziad Ahmed, ao ter que escrever uma redação sobre o tema "o que importa para você, e por quê?" para ingressar na prestigiada Stanford University, escreveu (somente) cem vezes "#BlackLivesMatter" em referência ao famoso grupo político que supostamente defende o direito dos negros. Na carta de aceite (sim, ele foi aprovado!) do alunx, foi dito que "todos que receberam seu exame ficaram inspirados pela sua paixão, determinação, talentos e coração". Ainda afirmaram que o alunx trará algo de original e extraordinário a Stanford.

Hodiernamente, o conhecimento e a preservação da alta cultura, são questões "démodé". O que importa para os "intelectuais" é o ativismo politicamente correto. Bem, o título desta coluna já é adaptado à nova realidade para evitar perseguições. Afinal, estar de joelhos perante o totalitarismo da diversidade parece ser um caminho sem volta.

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