ANO: 23 | Nº: 5813

Fernando Risch

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Escritor
21/04/2017 Fernando Risch (Opinião)

Sou um idoso pós-moderno

Acho que estou ficando velho. Eu sou ranzinza por natureza, é bem verdade. Também irritadiço. Na verdade, tudo me irrita. Tudo me incomoda. Tenho 27 anos e muitos cabelos brancos. Sei que quem convive diariamente comigo sofre. Sei também que quem convive comigo entende minha incurável deficiência e acaba gostando (ou tolerando) de conviver comigo.

 

Não sei de onde tiraram que ser ranzinza é coisa de velho. Ou ter sono é coisa de velho. Nunca vi um idoso bocejar. E todos que conheci, nenhum deles se irritava com a brincadeira facebookiana de “9 verdades e 1 mentira”, logo se perguntando se aquelas pessoas não tinham vergonha. Bem, se elas não têm vergonha agora, terão no futuro, pensei eu. Daqui um ano ou dois, quando o Facebook retomar a brincadeira nas lembranças diárias, todo mundo se espantará com um sonoro “Como que eu tive coragem de escrever isso?”. É, eu sei. Eu sou chato. Talvez eu esteja inaugurando uma nova modalidade de idosos. Não que idosos sejam chatos. Mas eu sou um idoso pós-moderno.

 

Com reforma da Previdência ou não, estou longe de me aposentar – e nem quero. Pretendo envelhecer fazendo tudo o que eu faço, só que dormindo mais. Biologicamente sou jovem. Eu deveria estar ansioso para festejar, afinal, você bem sabe, hoje é feriado. Mas só penso na minha cama. E caso eu vá encontrar com uns amigos, quero ficar sentado, tomando cerveja, sem ser incomodado. Eu até tolero o DVD da Maiara & Maraísa ou Simone & Simaria ou Siranda & Sinamomo, não sei, que meu amigo Rodrigo tanto gosta de ouvir. Não sou tão chato assim.

 

Que amigo horrível eu devo ser. Que pessoa horrível eu devo ser. Mas é a verdade, não tenho mais idade para essas coisas que os jovens fazem. Esses jovens de 30, 40, 50, 60 anos. Todos animados, voláteis, saudáveis e energizados. Como essa gente consegue? Como conseguem se entreter tão fácil e ter tanta energia sem dormir? Presumo que não durmam, não sei. Porque eu não durmo; um idoso resmungão de 27, que não consegue ir a um lugar muito barulhento, porque não tem paciência pra ficar gritando com a pessoa ao lado. Só de pensar já cansa. Imagine você, saindo de casa e indo... dançar. Não tenho mais idade. Não sou um robô.

 

Jovens, divirtam-se. Eu vou ficar aqui, em pé na minha sacada, olhando vocês, com seus sorrisos abertos, entrarem em uma das diversas boates que circundam minha casa, enquanto fecho o cenho, invejando-os. Se precisarem de mim, estarei dormindo, pois é feriado e eu sou um idoso pós-moderno.

 

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