ANO: 26 | Nº: 6590
17/04/2017 Cidade

Africanos apresentam projeto social em Bagé

Foto: Tiago Rolim de Moura

Siga e Fona Soque apresentaram trabalho desenvolvido por eles em Guiné-Bissau
Siga e Fona Soque apresentaram trabalho desenvolvido por eles em Guiné-Bissau

Enquanto milhares de bajeenses foram até o Centro de Eventos Batista, na noite de sexta-feira, para apreciar a apresentação da Orquestra Filarmônica Batista (Ofiba) e a encenação da morte e ressurreição, ao menos três pessoas desafiavam o frio dos pampas, acostumados com uma temperatura bem mais elevada. Direto de Guiné-Bissau, o pastor Nuele Fona Soque e Francisco Siga vieram até o Brasil apresentar os resultados do projeto social amparado pela Igreja Batista de Canguçu e também buscar novos parceiros para a iniciativa.

Enquanto Fona Soque fala e entende perfeitamente o português, Siga tem um pouco mais de dificuldade com o idioma, já que utiliza, em grande parte, a balanta para se comunicar. Mas isso não impediu que os dois apresentassem o trabalho desenvolvido em Guiné-Bissau, o Centro de Evangelismo e a Ação Social de Betel (CEASB), uma escola que atende 235 alunos de 1º ao 9º ano.   

O projeto tem amparo da Igreja Batista de Canguçu desde 2014. O pastor responsável pela igreja gaúcha, Joel Lopes, explica que a oportunidade de trabalhar em conjunto com os africanos aconteceu em 2013, após um missionário brasileiro ir até aquele país para realizar o trabalho de tradução do filme Jesus. Assim, conheceu o povo e a cultura local. De volta ao Brasil, ao relatar o que havia conhecido, o projeto do pastor africano recebeu suporte brasileiro. A igreja de Canguçu é responsável pelo pagamento dos professores que dão aula na instituição.

Fona Soque destaca que, mesmo em meio às dificuldades para manter a escola, o projeto é compensador, já que mais de 60% da população do país não têm acesso ao ensino. "Os alunos caminham distâncias enormes, muitos quilômetros, para ter aula. Ano passado, um aluno morreu após ser carregado pelas águas de um rio, que precisa atravessar para chegar até a escola", relata.

Como a ocorrência de escola é baixa no país, na instituição dirigida pelo pastor, pais e filhos são alfabetizados juntos, dividindo o espaço das salas de aula. Contudo, aos olhos dos brasileiros, as salas causam uma estranheza inicial. A construção do prédio é na base de bambus e não possui instalações elétricas. "Temos uma grande procura para escola noturna, para os adultos, mas não temos como garantir isso porque não temos luz", destaca.

Junto às aulas regulares, os estudantes recebem evangelização e desenvolvem trabalhos sociais em prol da escola. Um destes trabalhos é o recolhimento e limpeza de castanha de caju, que após a venda tem a renda revertida para a instituição, cuja estrutura já está ganhando novos contornos a partir de obras mantidas com esse valor. "O que recebemos é convertido em material e manutenção para a própria escola", explica.

Siga veio até o Brasil pela primeira vez para falar sobre a importância do projeto durante a Conferência Geral da Convenção Batista Conservadora (CBC), não só para ele como representante dos pais, mas também como aluno, já que divide espaço nas dependências da escola com os três filhos que também estudam lá. "Ainda faltam muitas coisas, como reboco, pavimentação, carteiras suficientes para todos os alunos, algumas portas e janelas, além da luz elétrica. Essa falta de estrutura limita o número de estudantes que a escola pode atender. Por isso viemos ao Brasil apresentar o trabalho desenvolvido lá e buscar apoiadores para melhorar a estrutura", comenta Fona Soque.

Choque cultural

Eunice Costa da Silva não percorreu tantos quilômetros quanto Fona Soque e Siga, mas o choque cultural que ela teve ao chegar em seu destino final pela primeira vez pode ter sido o mesmo dos dois africanos.

Ao chegar na primeira aldeia indígena em que trabalhou, no Pará, Eunice ficou chocada com os ritos fúnebres. "São muito diferentes dos nossos. Eles se batem, se machucam, enquanto relembram a pessoa que partiu. Foi a primeira vez que fui lá e me deparei com essa cena muito diferente. Fiquei com medo, mas foi só a primeira impressão", relembra.

Mas esta cena foi há 19 anos. De lá para cá, já morou em duas aldeias, onde desenvolve ações de evangelização, saúde e educação. Foi lá que criou as duas filhas, de três e um ano, e onde deve criar o próximo, que já está a caminho. Também aprendeu a língua caiapó, que ensina para os professores da única escola da aldeia. "Os professores tem dificuldades de ensinar os alunos porque eles só falam caiapó. Então estão aprendendo a língua deles para poder ensinar melhor", comenta.

Entre as dificuldades sentidas por ela e pela família, que formou junto ao marido, Paulo Rober, está a questão do difícil acesso, já que para chegar ao local, precisa viajar sete horas de barco mais uma viagem por estrada. Além disso, o local também não conta com esgotamento sanitário, que facilita a proliferação de doenças, e tem pouco acesso à estrutura de saúde, já que a aldeia possui apenas um posto com uma técnica em enfermagem, que realiza os atendimentos. Outra questão destacada por Eunice é o garimpo, que está contaminando a água do rio e a tornando imprópria para consumo.
Mesmo assim, ela segue na aldeia e conta que a recepção dos indígenas é muito boa, mesmo aqueles que não são adeptos do cristianismo. "Agora moro na aldeia Mãe Caracô, fui para lá por insistência dos próprios indígenas que se interessaram pelo trabalho que desenvolvemos, mas mesmo aqueles que não são cristãos, nos tratam muito bem, há muito respeito", salienta.

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