ANO: 24 | Nº: 6014
16/07/2018 Cidade

Como o Daeb avalia suspender o racionamento

Foto: Antônio Rocha

Silveira deve reavaliar continuidade do racionamento quando barragem do Piraí atingir nível máximo
Silveira deve reavaliar continuidade do racionamento quando barragem do Piraí atingir nível máximo

Há cerca de 180 dias, os bajeenses tiveram sua rotina doméstica alterada. Dividindo o tempo entre economizar água e juntar o suficiente para garantir as 12 horas sem abastecimento, a população da Rainha da Fronteira foi se adaptando a um novo racionamento.
Após seis meses, o Departamento de Água, Arroios e Esgoto de Bagé (Daeb) sinalizou a possibilidade do fim do esquema de racionamento, caso a previsão de constantes precipitações se confirme, nas próximas semanas. De qualquer forma, o diretor da autarquia, Volmir Silveira, explica que a suspensão busca facilitar o dia a dia de quem não conta com reservatório próprio em casa, o que não descarta a importância da continuidade do uso racional da água.
Entretanto, essa suspensão só será confirmada caso a barragem do Piraí atinja o volume máximo, já que no momento está 1,35 metro abaixo do volume normal. Silveira aponta que a barragem do Piraí, mesmo com capacidade de estocagem menor que a da Sanga Rasa, tem sido a principal fonte de abastecimento da cidade. Isto porque, de acordo com ele, a captação do Piraí é mais eficiente, o que permite uma recuperação mais rápida do que foi consumido. "No momento em que o Piraí estiver cheio, significa que Sanga Rasa estará em torno de 3 metros abaixo do nível, que já é o suficiente para retornar com segurança o abastecimento normal da cidade por mais alguns meses. Mas vamos seguir dependendo da chuva".
Atualmente, as três barragens do município, contando com a Emergencial, garantem a chegada de 320 litros/segundo na Estação de Tratamento de Água (ETA). Deste total, 130 litros/segundo saem do Piraí, 120 litros/segundo são retirados da barragem Emergencial e 80 litros/segundo são provenientes da Sanga Rasa.
Com a suspensão do racionamento, a vazão de água liberada pela ETA para o abastecimento fica entre 420 litros/segundo e 440 litros/segundo. Desta forma, a Sanga Rasa retomaria o papel central do abastecimento da cidade. "A economia gerada com o racionamento é de cerca de 25%. Com o fim do esquema, vamos ter que aumentar a disponibilidade de água nessa mesma medida, mas não podemos retirar mais da Emergencial e Piraí, que já estão fornecendo o seu máximo. Então, o jeito é retirar da Sanga Rasa, que passaria a fornecer 150 litros/segundo mais que os outros dois reservatórios", explica.
Silveira ressalta, ainda, que a suspensão do racionamento não deve ser seguida por uso desenfreado da água, já que a cidade ainda depende de fatores naturais, como a intensidade das precipitações, para garantir a manutenção dos níveis das barragens. "Apelo para que todos consumam água conscientemente, para que utilizem nossos recursos de forma adequada. O retorno ao abastecimento normal é um momento positivo, mas deve ser feito com cautela", destaca.
Além de solicitar o auxílio da população, o Daeb também busca qualificar o atendimento, dimensionando e solucionando as perdas de água na rede, desde que ela sai da ETA até chegar às casas dos bajeenses. "Hoje temos quase 95% de hidrometria na cidade, que nos permite fazer a micromedição do que chega nas casas. E o cálculo de perdas ultrapassa 50%, com ligações irregulares e vazamentos, e é isso que estamos procurando combater", explica.
Sobre a avaliação dos primeiros seis meses de racionamento, o diretor da autarquia afirma: "As pessoas aceitam com naturalidade essa restrição de água, até porque não foi a primeira vez. Mas o problema maior são as famílias de baixa renda, que não têm caixa d'água. O racionamento dificulta o dia a dia deles. Por isso estamos preocupados em retornar o abastecimento normal, para atender justamente esses casos, porque quem tem caixa d'água não sente tanto", finaliza. 


Floresta, seis meses depois
Logo que o racionamento foi implantado, o Jornal MINUANO publicou uma série de reportagens sobre a situação dos moradores do bairro Floresta. As torneiras das residências da parte mais alta secaram totalmente e as casas ficaram sem abastecimento por mais de três dias.
À época, a reportagem visitou duas famílias que estavam sem água e dependiam da solidariedade de amigos e familiares que contavam com abastecimento e com o caminhão-pipa do Daeb. No sábado pela manhã, a reportagem voltou a essas casas para ver como está, atualmente, a situação dos moradores do bairro. E encontrou um cenário que pouco difere dos dias de alta temperatura e escassez de fevereiro.
No início do ano, o comerciante Márcio Adriano Varella Amaral chegou a ficar quatro dias sem água, contando apenas com as bombonas que garantiu na casa do pai para as atividades essenciais do dia a dia. No sábado, a reportagem chegou justamente em um momento em que a água já havia sumido dos canos. 
"Depois daqueles dias em que ficamos sem água, no início do ano, a situação até normalizou e voltamos a ter água normalmente. Mas já têm umas duas semanas que a água acaba no início da manhã e só volta a partir das 3h da madrugada. Passamos o dia com a água que a caixa reserva", relata o morador, que conta com um reservatório de 500 litros e um tonel de 200 litros para atender a família de três pessoas e seu comércio.
Além disso, Amaral afirma que a água que chega até as torneiras das famílias do bairro Floresta é imprópria para uso. "Vem cheia de terra. Instalei uma caixa de descarga nova para meu vizinho e no mesmo dia ela entupiu de tanta terra que veio na água. Meu pai não conseguiu comer uma refeição que ele fez com água da torneira esses dias. Foi tudo fora", conta.
Para ele, o encerramento do racionamento pouco alteraria na rotina diária, já que a falta de água, conforme explica, não é uma questão pontual. "Moro aqui há mais de 28 anos e sempre foi assim, sempre tivemos problema de falta d'água, não sei por que. Isso que moro bem perto do reservatório do bairro", comenta.
Na casa vizinha, onde Rosa Maria Gonçalves Gularte vive com dois filhos e um neto, a situação é a mesma. O barulho da água chegando acorda a moradora, de 54 anos, que levanta durante a madrugada para lavar roupas e encher baldes, potes e vasilhas, que serão utilizados no decorrer do dia. "É o horário que tenho para colocar a máquina a funcionar. Se não lavo as roupas de madrugada, não consigo fazer isso de dia e ficamos sem roupa limpa", diz.
A família conta com uma caixa d'água de 500 litros que atende apenas o banheiro, para banhos e descargas. "Deixamos essa água reservada só para esses fins, porque ninguém merece um banheiro sem água. Mas agora, por exemplo, já não temos mais água em casa. E aí, como fazemos?", questiona.

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