Região
Novo proprietário abre as portas do Castelo de Pedras Altas para visitação especial
por Melissa Louçan
A memória e o legado de Assis Brasil foram abertos e apresentados ao público na tarde de terça-feira, dia 26. O grupo de representantes que participou do encontro do turismo regional, na fazenda Tarumã, acompanhou o novo proprietário, Luiz Carlos Segat, à uma visita guiada ao histórico Castelo de Pedras Altas.
A compra do imóvel de 110 anos, por parte da família Segat, foi efetivada em março deste ano. Além do castelo em estilo medieval, com 45 cômodos, a área conta com 300 hectares de campo, além de estruturas auxiliares, onde funcionaram o tambo da famosa Granja de Pedras Altas, estrebaria, o cottage (chalé pré-fabricado que abrigou a família durante a construção da estrutura principal), entre outros.
O imóvel foi construído pelo diplomata, político, escritor e produtor rural, Joaquim Francisco no início do século XX. Amigo de grandes personalidades, como Alberto Santos Dumont e Henry Ford - que o presenteou com um veículo Ford Modelo A - é considerado o pai do Direito Eleitoral. Foi o primeiro deputado estadual e o primeiro deputado federal do Rio Grande do Sul, foi um dos fundadores do Partido Libertador, foi Ministro da Agricultura entre 1930 e 1932, durante o governo de Getúlio Vargas. Além disso, foi um dos líderes dos maragatos na Revolução de 1923. Inclusive, o castelo sediou a assinatura do tratado que deu fim ao conflito.
E é justamente todo esse ambiente com imensurável valor histórico que Segat busca resguardar, assim como o fez sua antecessora na tarefa de guardião, Lydia Assis Brasil, neta do diplomata. Mas sem recursos e mão de obra adequada, a herdeira não conseguiu manter o imóvel em boas condições.
Para Segat, a situação deve ser menos complexa, sem as amarras de inventário entre herdeiros. Ele conta que o projeto de restauro do castelo foi praticamente aprovado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado - IPHAE. Com o projeto em mãos, poderá iniciar a captação de recursos para a obra através de editais e destinação de ICMS de empresas de capital privado. Para isso, inclusive, criou a Associação do Castelo de Pedras Altas, presidida por ele, com o objetivo de captar recursos e manter a prestação de contas de forma transparente e organizada.
A previsão é de que o custo do restauro da parte estrutural ultrapasse R$ 10 milhões, com previsão de dois anos para conclusão. A ideia, conforme explica, é iniciar a obra de cima para baixo, ou seja, resolvendo primeiros um dos problemas mais sérios da estrutura, que é a infiltração, troca de reboco, troca da parte elétrica e hidráulica, construção de dreno ao redor da estrutura (responsáveis pela infiltração no solo), além de instalações de dispositivos de acessibilidade, entre outros vários itens. “Vai dar bastante serviço”, adianta ele.
Já o acervo deve ser restaurado através de um convênio entre a associação e a Universidade Federal de Pelotas (UFPel), que compromete-se com o restauro das peças, sem custos, enquanto a Associação fica responsável pela compra do material necessário para o trabalho. A previsão é de terminar esta etapa em até cinco anos.
De família para família
Enquanto o castelo-residência foi utilizado como moradia por, ao menos, três gerações da família de Assis Brasil, com a compra, torna-se o reduto familiar dos Segat. O imóvel foi comprado por Luiz em nome dos três filhos, com a ideia de restaurar não somente a estrutura, mas também a atmosfera que o castelo já teve. Segat conta que a ideia é manter o andar principal e inferior abertos para visitação, enquanto os andares superiores serão dedicados à moradia da família. Natural de Santa Maria, onde ainda reside, ele conta que não sabe se irá mudar-se de forma permanente para o castelo após o restauro, mas pretende manter frequência nas estadias. “Queremos trazer vida ao castelo, e vida a gente traz com gente, com criança, com gritos, com alegria. Ele tem que voltar a ser o que ele era, ao menos o mais próximo possível”, apontou.
O proprietário conta que apesar da paixão adquirida recentemente, não conhecia o histórico do castelo até pouco tempo. O Castelo de Pedras Altas só surgiu para ele no ano passado, quando buscava áreas rurais para comprar. Interessou-se pelos 300 hectares da granja e pediu mais informações - só então soube do Castelo. Quando teve contato com o legado da estrutura e do homem que a projetou e habitou, passou a pesquisar e interessar-se cada vez mais pela história. Os estudos resultaram em interesse e admiração genuínos, que ficam nítidos durante os relatos feitos por ele durante o tour guiado ao imóvel. “Nossa família se apaixonou pela história, pelo legado deixado por Assis Brasil. A nossa visão é de que somos apenas os proprietários, mas o legado não nos pertence. Isso é do Estado, da União, pertence a todos os brasileiros. Seria egoísmo e falta de bom senso fechar e deixar isso só para nós, sem que a história seja contada”, relata ele, sobre a decisão de manter a estrutura acessível a visitantes.
Inclusive, um dos pontos de maior interesse aos visitantes - a Biblioteca de Assis Brasil - também deve ser disponibilizada para visitação após o restauro. Dentre os 15 mil volumes guardados na sala - onde os livros são a principal visão, do chão ao teto de pé direito alto - várias peças são itens raríssimos e valiosíssimos, como livros do acervo particular de Machado de Assis e coleção completa da primeira enciclopédia do mundo, escrita por Diderot e D’Alambert, de 1772, entre muitas outras primeiras edições de livros raros.
Inclusive, o proprietário fala que pretende trazer, também, vida aos campos da granja, que foram pujantes durante as primeiras décadas do século passado, resgatando preferências do próprio Assis Brasil, como as raças introduzidas por ele no país, Devon e Jersey. “Queremos trazer a nossa cabanha de cavalos crioulos para cá, temos a ideia de trazer ovelhas. Já compramos as primeiras matrizes de gado Devon, vamos trazer gado Jersey. Se um visitante quiser conhecer a lida no campo, mexer com gado e ovelha, também vamos disponibilizar isso”, conta.
Ano de celebração em 2023
A expectativa é de que, no próximo ano, o castelo já esteja em plena obra de restauro - o que deve dificultar as visitações no complexo. Entretanto, Segat adianta que irá abrir a estrutura, pelo menos, em duas ocasiões durante o ano: em cerimônia para relembrar a Revolução de 1923 - cujo destino foi decidido entre as paredes de pedra - e a celebração dos 110 anos de conclusão do castelo, em junho.

