Estado
O legado histórico do primeiro governador negro do Rio Grande do Sul
Velório ocorre no Palácio Piratini das 9h às 16h desta terça-feira, com abertura ao público a partir das 11h. O sepultamento será no Cemitério Jardim da Paz.
por Melissa Louçan
Mais do que um político, Alceu de Deus Collares foi um símbolo de luta e resistência. O primeiro governador negro eleito do Rio Grande do Sul construiu uma trajetória marcada pela superação das adversidades e pela defesa das causas populares. Natural de Bagé, Collares faleceu na madrugada desta terça-feira, 24 de dezembro, aos 97 anos, deixando um legado que atravessa gerações.
Filho de uma família pobre, Collares nasceu em 12 de setembro de 1927, no bairro Povo Novo, em Bagé. Desde cedo, precisou enfrentar a dura realidade de um Brasil ainda mais desigual. Trabalhou como vendedor de laranjas, quitandeiro e, mais tarde, como telegrafista concursado, profissão que lhe permitiu sonhar com novos horizontes.
Determinada a mudar sua realidade, a jovem promessa da política voltou a estudar e, em 1956, ingressou no curso de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Foi na faculdade que teve o primeiro contato com o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e com figuras como Leonel Brizola, que inspiraram sua militância política.
Collares construiu sua trajetória política em tempos difíceis. Em 1964, foi eleito vereador de Porto Alegre pelo PTB, mas viu sua sigla ser extinta após o golpe militar. Filiado ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB), partido de oposição ao regime, destacou-se como deputado federal, cargo que ocupou por três mandatos consecutivos a partir de 1970.
Com a redemocratização, foi um dos fundadores do Partido Democrático Trabalhista (PDT), legenda pela qual foi eleito prefeito de Porto Alegre, em 1986. O feito também foi histórico: ele tornou-se o primeiro prefeito negro da capital gaúcha.
Em 1991, escreveu mais um capítulo inédito ao assumir o governo do Rio Grande do Sul. Durante seu mandato, priorizou investimentos na educação, recuperando escolas estaduais, e desenvolveu políticas voltadas para a população mais vulnerável.
Collares não se limitava à política institucional. Sua história é um exemplo de superação do racismo estrutural em uma época em que as barreiras eram ainda mais evidentes. Ele costumava afirmar que nunca deixaria de lutar pelo direito de todos, independentemente de sua origem ou condição social.
A trajetória de Collares foi eternizada no documentário O Voto e o Pão, que narra sua ascensão política e o impacto de sua atuação como uma liderança negra em um Estado majoritariamente branco e conservador.
Mesmo longe dos cargos públicos nos últimos anos, Alceu Collares manteve sua relevância. Era admirado por sua coragem em defender aquilo em que acreditava, mesmo que isso significasse romper alianças políticas, como em 2010, quando apoiou a candidatura de Tarso Genro ao governo estadual em desacordo com a direção do PDT.
Collares deixa a esposa, Neuza Canabarro, dois filhos e uma enteada. O velório ocorre no Palácio Piratini das 9h às 16h desta terça, com abertura ao público a partir das 11h. O sepultamento será no Cemitério Jardim da Paz.

