MENU

Identifique-se!

Se já é assinante informe seus dados de acesso abaixo para usufruir de seu plano de assinatura. Utilize o link "Lembrar Senha" caso tenha esquecido sua senha de acesso. Lembrar sua senha
Área do Assinante | Jornal Minuano | O jornal que Bagé gosta de ler

Ainda não assina o
Minuano On-line?

Diversos planos que se encaixam nas suas necessidades e possibilidades.
Clique abaixo, conheça nossos planos e aproveite as vantagens de ler o Minuano em qualquer lugar que você esteja, na cidade, no campo, na praia ou no exterior.
CONHEÇA OS PLANOS

Opinião

Casa Lopes, o lar da Condessa de Águeda: uma família portuguesa refugiada em Bagé

por Maria da Glória Lopes Kopp | Historiadora e Doutora em Ciências Sociais

Em 01/05/2025 às 13:11h

por Redação JM

Casa Lopes, o lar da Condessa de Águeda: uma família portuguesa refugiada em Bagé | Opinião | Jornal Minuano | O jornal que Bagé gosta de ler
Foto: ReproduçãoJM

Breves apontamentos sobre a história da família Lopes e da casa da Avenida General Osório, 732, a partir de conversas familiares, dos registros e apontamentos do falecido jornalista Mário Lopes¹, no contexto da região de Bagé, no final do século XIX, início do século XX. Finalizada a ‘Revolução Federalista’ (1893-1895)², popularmente conhecida como a ‘revolução da degola’, pela prática da eliminação dos inimigos políticos na faca do carrasco ³, a região de Bagé iniciou um processo de atração de imigrantes europeus de diferentes nacionalidades. Médicos, engenheiros, dentistas, arquitetos, advogados, artistas, profissionais de muitas especialidades criaram um núcleo urbano próspero, de arquitetura refinada. O príncipe Custódio, exilado político, após ser deposto pelos ingleses em Benin, na África, também aportou naquelas terras.(4) Lá, ele desenvolveu práticas da macumba e tradições religiosas africanas, se dedicando a criar cavalos.

No território povoado de indígenas derrotados e africanos capturados para o serviço colonial – nas charqueadas de exportação e nos serviços domésticos rurais e urbanos –, cresceu uma cidade fronteiriça plural, embora herdeira de violências estruturais. As fazendas de tradição militar luso-brasileira, arrancadas pelos exércitos portugueses e espanhóis dos guaranis missioneiros, das tribos minuano e guenoa e dos valentes guerreiros charruas, acumularam riqueza privada para os ‘donos’ dos latifúndios, com gado farto criado e adaptado nas Américas pelas populações tradicionais.

Pesquisas arqueológicas (5) datam a ocupação humana desta região em 12 mil anos. As terras antigas da metade sul do Rio Grande do Sul, até o Uruguai e a foz do rio da Prata,
incluindo as terras baixas do oeste no rio Ibicuí, tem ocupação humana milenar. Com a colonização guarani e, posteriormente, a conquista armada por tropas portuguesas e espanholas, as populações nativas foram eliminadas por guerras. Culturas que conheciam, há longa data, a agricultura, a confecção de objetos em pedra, cerâmica e
fibras vegetais, a caça e a domesticação dos animais, foram massacradas. Na sociedade colonial, restaram os guerreiros incorporados aos exércitos coloniais e as mulheres assimiladas pelo sequestro para o trabalho doméstico e matrimonial. 

Assim, paradoxalmente, nesse cenário histórico de disputa sangrenta pelas terras e suas riquezas, imigrantes europeus urbanos encontraram lugar em Bagé e na Fronteira Sul. O cotidiano da vida bageense, no início do século XX, pode ser apreciado na Revista Fênix (1921-1935), ricamente ilustrada. A publicação, dirigida por Túlio Lopes e Lourival Viña, está disponível no acervo do Museu Dom Diogo de Souza. Além de notícias de caráter social e cultural, a revista veiculava propaganda dos serviços disponíveis em Bagé e na região.
E como Túlio Lopes foi parar em Bagé com sua tipografia, loja de artigos religiosos e serviços funerários na Avenida General Osório?

Em 1896, João Lopes da Silva, sua esposa Emília Mello Lopes da Silva e o pequeno filho Sérvio Túlio, com um ano de idade, desembarcaram no porto do Rio de Janeiro,procedentes de Portugal. Após rápida estada na então capital da República, a família instalou-se em Bagé, em 1897. O casal veio para o Brasil, depois de residir em diversas localidades, fugitivos da perseguição imposta pelos familiares de Emília. De origem nobre, com título de condessa e propriedades na província de Águeda, distrito português de Aveiro, Emília apaixonou-se por um plebeu, 14 anos mais jovem do que ela. O tio, bispo da Igreja Católica, que era seu tutor, não aceitou o casamento e baleou a sobrinha enquanto ela fugia com seu pequeno bebê. Uma trouxa com joias de família, suas propriedades e o título de nobreza ficaram para trás. Como herança ela teve apenas as marcas dos tiros disparados contra ela, que deixaram chumbo alojado no seu corpo.(6)

Desta forma, na nascente cidade de Bagé, a família fugitiva instalou Casa Armadora e Casa Funerária oferecendo produção e decoração de eventos, como casamentos, aniversários e atos fúnebres, realizados em igrejas e residências. Essas atividades já eram desenvolvidas por João Lopes em Portugal. Com a estabilidade econômica familiar, proporcionada pelas atividades comerciais, as irmãs de João Lopes, Maria Rosa e Anunciação, também migraram para lá se estabelecerem. Seus filhos, Robério e Lauro, trabalharam no ramo funerário, de marcenaria e tipografia. Emília criou também a filha de João, Anunciação, com os requintes da cultura europeia. A irmã mais nova de Túlio transformou sua sofisticação em ofício, destacando-se na costura de moda feminina. Anunciação casou-se com o espanhol José Maria Castro, com quem teve três filhas. 

João Lopes da Silva integrou-se à comunidade bageense fazendo parte da Sociedade Portuguesa de Beneficência, Loja Maçônica Amizade, Clube Caixeiral, entre outras organizações. A família possuía também uma chácara, a Alta Vila, na Arvorezinha. Na quinta, que tinha o mesmo nome da propriedade perdida em Portugal, cultivavam espécies frutíferas, verduras e legumes, com destaque para os parreirais, com os quais fabricavam vinho caseiro. Túlio Lopes, seguiu o exemplo do pai na promoção de sociabilidades, continuou a fazer parte da Sociedade Portuguesa, participando da criação do Clube Recreativo Rio Branco e do Museu Dom Diogo de Souza.

Túlio Lopes, como ficou conhecido, embora tivesse nome de imperador romano: Sérvio Túlio Lopes da Silva, nascido em Águeda, em 1894, viveu em Bagé por toda sua vida. Ele teve formação de tipógrafo e, aos 16 anos, foi editor do jornal Fom Fom (1910), onde já desenvolvia crítica literária e humorística. Comerciante como o pai, iniciou a vida adulta com um pequeno armazém de secos e molhados, O Amigo do Povo, na antiga rua Três de Fevereiro. Em 1914, Túlio casou-se com Maria da Glória de Azevedo Nogueira7 (1895-1983), bageense nascida nos Olhos d’Água, de família de origem portuguesa, descendente de militar, instalado na Colônia de Sacramento, no século XVIII. Com as bodas, foi criada a firma Lopes & Filho, com filial em Dom Pedrito, contando com a Casa Armadora, a funerária e marmoraria Nossa Senhora de Fátima e a tipografia Fênix.

Em 1922, com a finalização da casa na Avenida General Osório, 732, os negócios familiares ganharam sede própria: uma Casa de Artigos Religiosos e oficinas de marcenaria e impressão tipográfica. Um prédio com estrutura residencial e comercial para abrigar os diversos empreendimentos e a família que crescia. Aos 66 anos, 26 anos após chegar ao Brasil, finalmente a condessa de Águeda se estabeleceu em casa própria. Ao lado das atividades profissionais, Túlio desenvolveu intensa ação comunitária, figurando entre os Cem Nomes do Século XX em Bagé, em placa de bronze fixada na praça Carlos Telles. Fotógrafo amador, ele montou um atelier, fazendo registros do cotidiano da cidade. Túlio foi editor da Revista Fênix, que divulgava a efervescência cultural de Bagé no início do século XX. Na casa da Osório eram apresentadas peças literárias no Teatro em Família. Nos Carnavais, entre 1910 e 1920, ele organizou blocos como as Obeliscóidinhas, juntando a vizinhança: casais, jovens e crianças para a celebração da cultura e do lazer sofisticado pelas artes. Nos anos 1950, ele apoiou a criação da Orquestra Filarmônica de Bagé.

No mesmo terreno da Avenida General Osório, ao longo dos anos 1960, foi construído o Jardim de Infância Menino Jesus pela professora Marianinha Lopes. Uma escola de vanguarda, com inspiração montessoriana e piagetiana, fundada em maio de 1955. Foi o primeiro estabelecimento de ensino pré-escolar particular de Bagé. A nova escola, inaugurada em 1968, deu continuidade ao projeto da professora Marianinha em instalações modernas e espaçosas. Muitas gerações de crianças bageenses desfrutaram das mais apuradas metodologias e didáticas experimentadas em várias partes do mundo. 

A dedicada professora viajou para vários continentes para conhecer experiências inovadoras de educação infantil. Atualmente, Bagé conta com a instituição pública, Escola Municipal de Educação Infantil Marianinha Lopes, em homenagem à destacada professora. O casal Túlio e Maria da Glória teve nove filhos. Dois faleceram na primeira infância.
Três de suas filhas casaram-se, tendo 15 filhos e filhas. As outras três filhas solteiras foram professoras: Marianinha, professora estadual, diretora e fundadora do Jardim de Infância Menino Jesus, Marília, alfabetizadora, também professora estadual, formou-se em Ciências Sociais, trabalhando por longo tempo no Orfanato Bidart, Mariza foi sócia de Marianinha no jardim de infância e proprietária da loja de brinquedos O Carrocel, em sociedade com o cunhado Horácio Mello e a sua irmã mais velha Zélia. Mário Lopes, casado com Gecy  Fernandes, foi jornalista e diretor do Correio do Sul,depois de aposentado, dedicou-se a estudos e publicações historiográficas. A pianista Marina casou-se com o uruguaio Guilherme Nogueira e tiveram cinco filhas e dois 5 filhos, indo morar em Porto Alegre. Zaira, hoje centenária, casou-se com João Carlos de Godoy Kopp, filho de João Hugo Kopp, jornalista, político e juiz que foi preso por Getúlio Vargas, durante o Estado Novo (1937-1945). O casal teve três filhas e dois filhos, moraram em Pelotas e Porto Alegre. João Carlos foi jornalista,  trabalhou na VARIG e atuou como agente de turismo local e internacional. Meu pai e minha mãe. E eu sou a décima quinta neta de Túlio Lopes e Maria da Glória Nogueira Lopes. Herdei o nome da minha vó.

Referências:

¹ LOPES, Mário. Personalidades de um século em Bagé. Vol. II. Bagé: Da Maya Espaço Cultural, 2014; FAGUNDES, Elizabeth Macedo de. Inventário cultural de Bagé. 2ª ed. Porto Alegre: Praça da Matriz/Evangraf, 2012, pp. 432-5.

² PESAVENTO, Sandra. A Revolução Federalista. São Paulo: editora Brasiliense, 1983; REVERBEL, Carlos. Maragatos e pica-paus. Guerra Civil e degola no Rio Grande. Porto Alegre: L&PM editores, 1985.

³ Adão Latorre foi identificado como degolador em Bagé.

4 https://www.ufrgs.br/jornal/a-memoria-viva-de-custodio-principe-africano-que-viveu-em-porto-alegre/ 

5 KERN, Arno (Org). Arqueologia pré-histórica do Rio Grande do Sul. 2ª ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1997.

6 Emília faleceu em Bagé, em 1934, aos 78 anos (1856-1934) e João Lopes da Silva, em 1936, aos 66 anos (1870-1936).

7 RHEINGANTZ, Carlos e FELIZARDO, Jorge. João Rodrigues da Silva e sua descendência. 1º vol. Rio de Janeiro: Gráfica Guarany, 1953.

Galeria de Imagens
PLANTÃO 24 HORAS

(53) 9167-1673

jornal@minuano.urcamp.edu.br
SETOR COMERCIAL

(53) 3242.7693

jornal@minuano.urcamp.edu.br
CENTRAL DO ASSINANTE

(53) 3241.6377

jornal@minuano.urcamp.edu.br