Opinião
Réquiem para uma flor
por José Carlos Teixeira Giorgis
por Redação JM
Praça da Matriz, domingo de carnaval.
O silêncio boceja de cansaço. Apenas o sorvo do mate interrompe a paz da manhã, as vozes do grupo contam fatos mudos. Alguém se ergue e examina a estátua, parece que o doutor Penna respira.
Um vento transita para o sul e com suavidade limpa sepulcros distantes. Muito ao longe, muito mesmo, os casais repousam da festa que não houve; copos e pratos aguardam o baile de ruídos; o vinho chora abandono; a menina sonha; a cidade dorme.
De repente.
O carro estaciona, a moça desce. Os tronos e as dominações de guarda olham o relógio taciturno; o querubim mantém vistas nas pernas e jeito; os serafins somam pecados veniais. O céu anota.
Imponente, ela caminha para o canteiro central.
Tudo imóvel. Os planetas suspendem giro e atendam para a majestade da mulher que baila passos. A cuia esfria genuflexa à altivez que se move. Os murmúrios engasgam ante a pompa que se aproxima.
Com arrogância ela abaixa; e modera os gestos, como carícia.
Mas, oh, seus dedos aprofundam na terra fofa. E como tesouras afiadas mergulham nas pregas do solo, procuram (acham), movem-se como tentáculos, os sumos grudam pedúnculos, namoram, beijam. Arrancam.
A jovem levanta o tufo de flores amarelas, que sangram. Triunfante.
Ao redor plantas choram o abate. Os ipês cessam a queda do fulvo pó que molha a rua, os bustos ausentes retém o protesto. Os postigos emudecem. Alguém balbucia um “não faça isso”. As câmeras municipais fizeram feriado. A (semi) praça desfalece.
Para que servirá o buquê pálido: um presente à mãe? Ou o aniversário da criança? Quem sabe para agradar o amor? O vaso frágil? Para enfeitar a morte?
Com a mesma desfaçatez, mas ainda magnânima, ela retorna ao carro. Engrena, vai.
Ninguém adivinha a sorte das flores amarelas naquela manhã humilhada.
Praça da Matriz, domingo de carnaval.

