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Opinião

Réquiem para uma flor

por José Carlos Teixeira Giorgis

Em 16/08/2025 às 07:00h

por Redação JM

Réquiem para uma flor | Opinião | Jornal Minuano | O jornal que Bagé gosta de ler
Foto: Tiago Rolim de Moura

Praça da Matriz, domingo de carnaval.

O silêncio boceja de cansaço. Apenas o sorvo do mate interrompe a paz da manhã, as vozes do grupo contam fatos mudos. Alguém se ergue e examina a estátua, parece que o doutor Penna respira.

Um vento transita para o sul e com suavidade limpa sepulcros distantes. Muito ao longe, muito mesmo, os casais repousam da festa que não houve; copos e pratos aguardam o baile de ruídos; o vinho chora abandono; a menina sonha; a cidade dorme.

De repente.

O carro estaciona, a moça desce. Os tronos e as dominações de guarda olham o relógio taciturno; o querubim mantém vistas nas pernas e jeito; os serafins somam pecados veniais. O céu anota.

Imponente, ela caminha para o canteiro central.

Tudo imóvel. Os planetas suspendem giro e atendam para a majestade da mulher que baila passos. A cuia esfria genuflexa à altivez que se move. Os murmúrios engasgam ante a pompa que se aproxima.

Com arrogância ela abaixa; e modera os gestos, como carícia.

Mas, oh, seus dedos aprofundam na terra fofa. E como tesouras afiadas mergulham nas pregas do solo, procuram (acham), movem-se como tentáculos, os sumos grudam pedúnculos, namoram, beijam. Arrancam.

A jovem levanta o tufo de flores amarelas, que sangram. Triunfante.

Ao redor plantas choram o abate. Os ipês cessam a queda do fulvo pó que molha a rua, os bustos ausentes retém o protesto. Os postigos emudecem. Alguém balbucia um “não faça isso”. As câmeras municipais fizeram feriado. A (semi) praça desfalece.

Para que servirá o buquê pálido: um presente à mãe? Ou o aniversário da criança? Quem sabe para agradar o amor? O vaso frágil? Para enfeitar a morte?

Com a mesma desfaçatez, mas ainda magnânima, ela retorna ao carro. Engrena, vai.

Ninguém adivinha a sorte das flores amarelas naquela manhã humilhada.

Praça da Matriz, domingo de carnaval.

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