Editorial
O compromisso que vai além de 21 dias
por Melissa Louçan
Março costuma marcar o calendário com uma data dedicada a reconhecer a importância das mulheres. Trinta e sete semanas depois, outro período ganha destaque para lembrar que essa mesma parcela da população ainda enfrenta uma realidade de violência, muitas vezes longe dos registros oficiais. Entre uma data e outra, há um cotidiano que, para muitas mulheres, segue marcado por agressões, ameaças e silêncios.
Num cenário em que a violência doméstica permanece escondida dentro de tantos lares, Bagé mostra que romper esse ciclo exige mais do que campanhas pontuais. É preciso presença institucional contínua. A notícia de que o município não registra feminicídios há mais de um ano oferece algum alívio, mas não deve enganar. A violência segue presente, em diferentes formas. Por isso, a rede de proteção precisa ser valorizada e fortalecida.
A campanha dos 21 Dias de Ativismo lembra um ponto simples, mas essencial: proteger mulheres não pode ser tarefa limitada a um período específico. É compromisso permanente, sustentado por políticas públicas eficazes, equipes capacitadas e articulação entre instituições. Medidas protetivas cumprem papel importante, mas não resolvem sozinhas. Exigem acompanhamento, monitoramento e uma rede ativa. O número de 169 mulheres com medidas em vigor no município revela duas coisas: a demanda crescente e que vidas dependem de seu funcionamento.
Bagé conta hoje com uma rede de proteção que envolve Brigada Militar, Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher e Secretaria da Mulher. São estruturas que só produzem resultado quando dialogam, trocam informações e acompanham os casos de forma contínua.Políticas públicas só se tornam efetivas quando conectam serviços, profissionais e decisões.
Mais do que datas no calendário, o que importa são políticas capazes de garantir segurança e autonomia. É criar condições para que mulheres em situação de risco possam reconstruir suas vidas, alcançar independência financeira e seguir adiante sem carregar o peso da violência.
A denúncia continua sendo um passo fundamental, mas só funciona quando acolhida por uma rede preparada, e quando a comunidade também assume sua parte, recusando a omissão e rompendo o silêncio. Só um enfrentamento contínuo e firme é capaz de mudar essa realidade.
É nesse ponto que se insere a capa desta edição do Jornal Minuano. O jornal busca, rotineiramente, manter isonomia em sua cobertura. Mas há temas que exigem posicionamento claro. Chamar atenção para a violência contra a mulher não é tomar partido: é assumir responsabilidade social. É reconhecer que a ausência de feminicídios registrados não significa ausência de violência.

