Cidade
Cerca de 4 mil pessoas participam da tradicional Procissão de Ogum em Bagé
Imagem , doada por fiéis foi assentada no Quebracho
por Jaqueline Muza
A fé, a cultura e a união marcaram mais uma edição da tradicional Procissão de Ogum em Bagé. Cerca de 4 mil pessoas participaram do evento promovido pela Associação Espiritualista de Umbanda de Bagé, que chegou à sua 20ª edição nesta quinta-feira, 23 de abril, consolidando-se como uma das maiores manifestações religiosas da região.
A programação teve início às 20h, com concentração na Praça da Catedral, e saída às 20h30. O cortejo seguiu o trajeto tradicional até a Praça de Desportos, reunindo fiéis, adeptos e simpatizantes de diferentes crenças. Após o encerramento da caminhada, a imagem de Ogum foi conduzida em carreata até a localidade do Quebracho, no município de Hulha Negra, onde ocorreu o assentamento em uma gruta especialmente preparada.
De acordo com o presidente da AEUB, Luiz Eduardo Franco Lemos, a expectativa inicial era de reunir entre 15 e 20 terreiros, mas o número superou as previsões, chegando a cerca de 25 casas religiosas confirmadas. “A gente se preparou muito, trabalhou com dedicação e união. A ideia é fazer uma procissão histórica, sempre buscando crescer e enaltecer cada vez mais Ogum, que é tão importante para todos nós”, destacou.
Lemos também ressaltou o caráter inclusivo da celebração, que reúne não apenas praticantes da Umbanda, mas também pessoas de outras religiões ou sem religião definida. “É um evento de fé, aberto a todos que acreditam e buscam proteção”, afirmou.
O espaço no Quebracho vem sendo estruturado para se tornar um santuário dedicado aos orixás. Atualmente, já conta com imagens de entidades como Oxalá, Oxóssi, Oxum, Iemanjá e Iansã, com a inclusão de Ogum nesta edição. A proposta da associação é ampliar o local, incluindo outros orixás, como Xangô, além de representações de pretos-velhos.
A preparação do espaço contou com apoio da Prefeitura de Hulha Negra, que colaborou na organização e infraestrutura para receber os devotos. No local, foi realizada uma sessão especial para o assentamento da imagem, doada por fiéis que preferiram não se identificar.
Responsável por conduzir a imagem durante a procissão, o vice-presidente da entidade, Murilo Lacerda, destacou a emoção de assumir a função pela primeira vez. “É uma grande responsabilidade e um momento muito especial. A imagem também pode ser levada às casas dos associados, fortalecendo ainda mais a devoção”, explicou.
Banho de proteção
Além da procissão, a programação contou com atividades espirituais e culturais ao longo do dia. Integrantes do Ilê Asé Omidewâ realizaram atendimentos na Praça Silveira Martins, com banhos de proteção, distribuição de fitas e espadas de São Jorge, símbolos ligados à proteção espiritual. A casa religiosa realiza o ritual desde 2023 e distribuiu cerca de 2 mil fitas de São jorge e bandeiras com as cores do orixá guerreiro.
A professora Elisabete Piccoli de Lucena (Ialorixá Bete Omidewá), praticante da religião desde o nascimento, veio de Porto Alegre para o evento. Ela salientou que a participação popular tem sido cada vez mais intensa, com milhares de pessoas buscando não apenas proteção espiritual, mas também acolhimento e esperança.. “Meu sonho é ver essa praça reunindo todas as formas de religiosidade, com respeito e união, mostrando que Ogum representa proteção para todos”, afirmou.
A Ialorixá salientou que o crescimento do evento demonstra a força da fé e da coletividade. Segundo ela, a participação popular tem sido cada vez mais intensa, com milhares de pessoas buscando não apenas proteção espiritual, mas também acolhimento e esperança. “Ogum é o orixá guerreiro, aquele que nos ensina a lutar diariamente pelos nossos objetivos. Ele representa força, coragem e abertura de caminhos. As pessoas vêm até nós em busca desse amparo, desse axé que fortalece para enfrentar os desafios da vida. Aqui, não importa religião ou origem, todos são acolhidos com respeito”, destacou.
Elisabete também chamou atenção para o caráter social da manifestação, que vai além do aspecto religioso. “Nós estamos aqui desde o início da tarde, recebendo as pessoas, oferecendo um banho de proteção, uma palavra de conforto, um gesto de carinho. Muitas chegam fragilizadas e saem renovadas. Esse é o verdadeiro sentido: levar esperança”, afirmou.
Outro ponto destacado por Bete é a importância de manter viva a tradição, sem deixar de dialogar com a modernidade. “A nossa cultura é ancestral, mas também precisa acompanhar o tempo. Ogum é ligado à tecnologia, ao avanço, e isso também faz parte da nossa caminhada. O importante é manter o respeito, a fé e a essência”, explicou.

