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Doação de leite humano auxilia bebês prematuros e acolhe mães
No Dia Mundial e Nacional da Doação de Leite Humano, relatos de mães mostram como o Banco de Leite da Santa Casa se tornou rede de apoio para famílias da região
por Melissa Louçan
A dor era intensa. Febre, mama inflamada, excesso de leite e a sensação de que não conseguiria continuar amamentando. Depois do nascimento da filha, a mãe Letícia Dias enfrentou dificuldades que transformaram os primeiros dias da maternidade em um processo físico e emocionalmente exaustivo. “Eu queria desistir”, relembra.
O que ela ainda não imaginava naquele momento é que, além de encontrar apoio para continuar amamentando, o leite excedente que causava dor acabaria ajudando outros bebês internados na UTI Neonatal da Santa Casa de Bagé.
No dia 19 de maio é celebrado o Dia Mundial e Nacional da Doação de Leite Humano, data que busca conscientizar sobre a importância do aleitamento materno e da doação de leite para recém-nascidos prematuros e de baixo peso. No Rio Grande do Sul existem 11 bancos de leite e o Banco de Leite da Santa Casa de Caridade é um deles, sendo o único da região da campanha. Mais do que coletar e distribuir leite, o serviço também atua no acolhimento e orientação às mães que enfrentam dificuldades na amamentação.
A médica pediatra e responsável técnica pelo Banco de Leite Humano da Santa Casa, Dra. Denise Isabel Zandona, explica que o leite humano continua sendo o alimento mais completo e seguro para os bebês, especialmente os prematuros. “O leite humano é o melhor substrato, é a melhor forma de nutrir as crianças”, afirma.
Segundo ela, além de nutrientes essenciais, o leite materno possui imunoglobulinas, células de defesa que ajudam a proteger os bebês contra infecções e doenças ao longo da vida. “Existe uma imunoglobulina, chamada imunoglobulina A secretora, que só é produzida no leite materno. Quando o bebê não recebe esse leite, ele acaba ficando mais suscetível a infecções”, explica.
Muito além da doação
A atuação do banco de leite vai além da coleta do alimento destinado aos bebês internados. O espaço também funciona como suporte especializado para mães que enfrentam dores, inseguranças ou dificuldades durante a amamentação.
Segundo Denise, problemas como mastite, fissuras, excesso de leite, baixa produção e dificuldades na pega do bebê são algumas das situações mais comuns acompanhadas pela equipe. “A mãe não precisa estar internada ou com o bebê internado para procurar ajuda. O banco de leite é um serviço gratuito que auxilia as mães em todas as dificuldades relacionadas à amamentação”, destaca.
A médica explica ainda que a amamentação depende de diferentes fatores físicos, emocionais e sociais. “A hidratação influencia, o emocional influencia, mas também existe o contexto social. O apoio da família, do companheiro e da rede de apoio faz muita diferença”, afirma.
Muitas vezes, segundo ela, a mãe acredita que está produzindo pouco leite sem que isso realmente esteja acontecendo. “A mãe não enxerga quanto leite sai. Então existem formas de avaliar se o bebê está sendo bem alimentado e orientar essa família e aqui no Banco de Leite nós damos este suporte”, completa. “Elas não me deixaram desistir”
Foi justamente esse acolhimento que fez diferença para Letícia Dias. Após enfrentar mastite e precisar passar por uma cirurgia para retirada de pus, ela seguiu frequentando o Banco de Leite diariamente. “Eu seguia vindo com dor, mas elas me ajudaram muito. Me deram apoio, força e carinho”, conta.
Com o passar do tempo, ela descobriu que o excesso de leite que precisava retirar poderia ajudar outros bebês. “Eu não sabia que ia para essas crianças. Quando me falaram, eu fiquei realizada”, relata.
Hoje, ela faz questão de incentivar outras mães a procurarem ajuda especializada antes de desistirem da amamentação. “É muito difícil, mas não desistam. Procurem ajuda, porque dá certo”.
Solidariedade que chega à UTI Neonatal
A mãe Alini Noble conhece a rotina do Banco de Leite há anos. Ela já havia sido doadora no nascimento do primeiro filho e agora, com a segunda filha, voltou a contribuir. Mesmo após retornar ao trabalho, segue retirando leite diariamente. “Uma parte eu deixo para minha filha e o restante eu trago para os bebês da UTI Neo”, explica.
Para ela, conviver com mães que acompanham filhos internados torna a doação ainda mais significativa. “A gente vê o que as mães passam diariamente e o quanto faz diferença na recuperação desses bebês”, relata.
Na outra ponta está a mãe Luana Dutra, que vive a experiência de receber o leite doado enquanto tenta estimular a própria produção. A filha, prematura, está internada há 15 dias na UTI Neonatal da Santa Casa. “Eu ainda não tenho leite suficiente para ela, então sou muito grata às mães que doam”, afirma.
Segundo Luana, saber que a filha pode receber leite humano durante a internação traz segurança e esperança. “Esse é o único alimento necessário e que ela precisa muito.”
Cada gota faz diferença
De acordo com o Banco de Leite da Santa Casa, cerca de 60 litros de leite são arrecadados mensalmente. Todo o material passa por coleta, armazenamento, pasteurização e rigorosos processos de controle de qualidade antes de ser distribuído aos bebês. Até maio deste ano, mais de 200 litros de leite humano já haviam sido destinados às crianças atendidas pelo serviço.
A médica reforça que qualquer quantidade doada já pode ajudar.“Os prematuros recebem quantidades muito pequenas por alimentação. Às vezes, cem ml podem representar muitos dias de alimentação para um bebê.”
As mães interessadas em doar podem procurar diretamente o Banco de Leite da Santa Casa de Bagé, onde recebem orientações sobre coleta, armazenamento e doação domiciliar.

