Cidade
Íria Morrudo celebra 105 anos de vida
por Melissa Louçan
Nascida no alvorecer do século XX, Íria Morrudo Castro, a Dona Santa, é testemunha de um dos séculos mais intensos da história. Em 16 de setembro de 1916, se tornou contemporânea do nascimento e derrocada de regimes políticos violentos, duas epidemias mortais em escala global, duas guerras mundiais e apogeu e queda de líderes. Mas no interior de Lavras do Sul, a trabalhadora rural pouco soube sobre o que se passava no grande mundo e sobreviveu a todos estes capítulos. Aos 105 anos, filha de uma família de 12 irmãos, não foi, exatamente, observadora destes momentos - mas coexistiu com todos eles.
De origem humilde, trabalhava no campo junto aos familiares para obter sustento. Não chegou a frequentar escola - mulheres pobres do interior não eram presença constante nos bancos escolares no início do século passado. Mas faz questão de ressaltar que o que sabe, aprendeu na vivência, inclusive a se divertir - toca violão desde jovem e, nas festas das vilas do interior de Lavras, levava alegria com música regionalista. “Eu sou de campanha, mas ensinei tudo pra elas”, diz a idosa centenária sobre as filhas. Inclusive, faz questão de repetir que a paixão por música foi repassada às herdeiras, Zulma e Maria Helena, que também sabem fazer a própria música, com gaita e pandeiro.
Aos 40 anos, mudou-se para Bagé, onde casou-se e voltou a morar no campo - desta vez, no interior de Dom Pedrito, onde o esposo atuava em uma propriedade rural. Ao voltar para a cidade, passou a morar na casa que ainda hoje ocupa, junto com uma das filhas.
Apesar da memória ser nublada com o peso dos anos, o corpo é forte e não denuncia o século que carrega. Zulma conta que apenas recentemente passou a ajudar a mãe no banho, com medo de quedas. As demais atividades, realiza de forma totalmente independente. E em apenas dois momentos teve alguma situação de saúde mais alarmante: duas isquemias, a primeira sofrida em 1985, e a segunda ainda neste ano - esta última deixou uma pequena sequela na fala.
A idosa não dispensa um bom churrasco com a família, sua comida preferida, herança, principalmente, de todos os anos vividos no campo. “Na campanha tem fartura, não é coisinha pouca”, brinca. Inclusive, comemorou os 105 anos em pequena celebração com a família, na última semana - a celebração mais intimista resguarda a idosa, já vacinada, do vírus covid-19, causador da segunda pandemia que ela presenciou - a primeira, de Gripe Espanhola, ocorreu de 1918 a 1920.
Questionada sobre o sentimento ao chegar onde poucas pessoas chegam, ela brinca: “Deus já pode me levar. Acho que ele me esqueceu aqui”.

