Cidade
SAIS alerta para o crescimento contínuo de ISTs em Bagé
por Érica Alvarenga
Embora o período pós-carnaval seja frequentemente associado ao aumento de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), em Bagé ainda é cedo para estabelecer qualquer relação direta entre a festividade e novos diagnósticos. Segundo a coordenadora do Serviço de Atenção Integral à Saúde (SAIS), Vera Rosane Marques González, os casos crescem de forma contínua ao longo do ano, com destaque para sífilis, HIV e hepatite C.
Rosane destaca que o aumento dos casos está ligado, principalmente, à ampliação da testagem e ao diagnóstico tardio, especialmente entre idosos que nunca haviam realizado exames específicos ao longo da vida. De acordo com a coordenadora, muitos casos são descobertos apenas em consultas de rotina ou quando o paciente já apresenta sintomas mais graves. “Idosos com sífilis e hepatite C, por exemplo, convivem com isso a vida inteira sem saber”, explica.
O diagnóstico tardio também pode levar a complicações mais sérias, como doenças oportunistas associadas ao HIV. “Há pacientes que vão a óbito porque não aderem ao tratamento, embora ele esteja disponível”, ressalta.
Testagem rápida e tratamento
A coordenadora afirma que a principal estratégia de enfrentamento das ISTs é ampliar ainda mais a testagem. No SAIS, os testes rápidos são realizados por demanda espontânea, sem necessidade de agendamento. Além do serviço, os exames também estão disponíveis nas unidades básicas de saúde do município. “Nossa meta é testar cada vez mais. Só assim é possível diagnosticar e iniciar o tratamento”, destaca.
O tratamento das infecções é ofertado gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). No caso do HIV, a medicação é iniciada logo após a confirmação do diagnóstico, e o paciente passa a ser monitorado periodicamente. “Hoje são apenas dois comprimidos por dia. Antes era um coquetel, bem mais complicado. Realizando o tratamento corretamente, a pessoa vive bem, como quem toma remédio para pressão”, explica.
Tabu e prevenção
Apesar da oferta de testes e preservativos, o estigma ainda é um dos principais desafios no combate às ISTs. Rosane relata que muitas pessoas evitam campanhas públicas por vergonha. “As pessoas fogem. Quando precisam pegar preservativo, chegam por trás, não querem se expor. Ainda existe tabu, como se relação sexual fosse pecado”, comenta.
Segundo a coordenadora, a falta de uso de preservativos segue sendo uma das principais causas de infecção. “A maioria das pessoas que vêm até aqui e testam positivo, não usaram preservativo. Não falta preservativo, mas as pessoas não usam”, afirma.
O SAIS também oferece a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), destinada a pessoas com maior risco de exposição ao HIV, como aquelas com múltiplos parceiros ou profissionais do sexo. Além disso, a Profilaxia Pós-Exposição (PEP) é indicada após relações sexuais desprotegidas ou acidentes com material biológico, devendo ser iniciada o mais rápido possível.
O serviço atende pacientes de Bagé e de outros municípios da região da 7ª Coordenadoria Regional de Saúde, além de pessoas de outras cidades e até do Uruguai, de acordo com a coordenadora. Atualmente, cerca de 500 pacientes fazem acompanhamento e utilizam medicação no SAIS.
A coordenadora destaca ainda que o sigilo e o acolhimento são prioridades no atendimento. “O mais difícil é a pessoa admitir que tem uma IST e se expor, mas aqui prezamos muito pela privacidade”, afirma.
Capacitações e campanhas
{AD-READ-3}Além de ações pontuais em eventos e datas específicas, o SAIS investe na capacitação de profissionais de saúde para ampliar a testagem e o tratamento na rede básica. “Realizamos diversas capacitações no ano passado, nos postos de saúde da cidade e em outros municípios da região”, explica.
Para a coordenação do SAIS, o enfrentamento das ISTs vai além da oferta de exames e medicamentos, passa, sobretudo, pela informação e pela quebra de preconceitos ainda enraizados na sociedade. Ampliar o acesso à testagem, garantir sigilo e acolhimento, além de levar orientação às comunidades, são estratégias fundamentais para que mais pessoas procurem o serviço sem medo ou vergonha. Afinal, o diagnóstico precoce continua sendo a principal ferramenta para reduzir complicações e interromper a cadeia de transmissão.

