Cidade
A luta silenciosa das mulheres que estão à frente da proteção animal em Bagé
Em uma causa marcada pelo cuidado e pela resistência, mulheres enfrentam sobrecarga, preconceito e até ameaças por lutar por aqueles que não podem se defender
por Érica Alvarenga
Em Bagé, a luta pela proteção animal tem rosto feminino. Nas ruas, nos resgates, nas denúncias e nas redes de apoio que precisam lidar com uma realidade marcada pelo abandono e pelos maus-tratos, são principalmente mulheres que assumem a linha de frente.
Seja no ativismo voluntário, na política ou dentro das instituições, elas carregam a responsabilidade de proteger animais que, na maioria das vezes, foram descartados pela sociedade. Mas essa luta vai além do cuidado com os animais, envolve enfrentar preconceitos, questionamentos e até ameaças por defender uma causa que por muitas pessoas, ainda é tratada como secundária.
Para muitas delas, o envolvimento começou de forma natural, movido pela empatia e pela impossibilidade de ignorar o sofrimento.
A protetora voluntária Anaí Pereira, de 46 anos, atua na causa desde 2015. Funcionária pública e atualmente no sétimo semestre de Medicina Veterinária, ela mantém uma rotina intensa de cuidados com animais resgatados. “Desde criança sempre resgatei animais de rua e trouxe para casa”, lembra.
“Minha rotina é voltada à casa de passagem e adoção. Faço pós-operatório de gatas de rua ou de pessoas idosas e cuido de alguns gatos doentes que também estão em situação de rua”, conta.
Uma realidade semelhante é vivida pela protetora Lígia Soares, de 47 anos, que afirma dedicar todo o seu tempo à causa animal. “Desde sempre tive uma conexão muito forte e especial com os animais”, relata. Segundo ela, o envolvimento começou após presenciar um caso de maus-tratos que a marcou profundamente.
“Minha rotina como protetora é muito sobrecarregada. Não tem dia ou hora, estou sempre disposta a ajudar”, afirma. Assim como outras voluntárias, ela também enfrenta dificuldades financeiras para manter os resgates. “Muitas vezes tiro do meu próprio bolso para custear as despesas. A maior dificuldade é financeira.”
A luta que recai sobre mulheres
Embora a proteção animal mobilize pessoas de diferentes perfis, quem está diariamente envolvido nos resgates e cuidados são, majoritariamente mulheres. A comissária da Polícia Civil, Patrícia Coradini, que é protetora há cerca de 20 anos e atua no Cartório de Crimes Ambientais, afirma que essa predominância não é exclusiva em Bagé.
“Eu diria que no país a grande maioria das protetoras são mulheres. Infelizmente são poucos homens que aderem à proteção”, afirma. Para ela, essa realidade pode estar relacionada a fatores culturais que historicamente associaram às mulheres o papel do cuidado.
“Talvez as mulheres tenham mais empatia, essa coisa do acolhimento. A sociedade sempre atribuiu à mulher essa função de cuidar, e isso acaba se estendendo também aos animais.”
A vereadora Beatriz Souza (PSB), também acredita que a predominância feminina na causa tem raízes sociais profundas. “O cuidado sempre foi atribuído às mulheres. Fomos educadas para cuidar das casas, das famílias e das pessoas, e isso se estende também aos animais. Muitas mulheres enxergam o sofrimento e não conseguem simplesmente ignorar.”
Entre as próprias protetoras, essa percepção também é recorrente. Para Lígia, a presença feminina predominante na causa está ligada à sensibilidade diante do sofrimento. “Talvez porque a mulher tenha mais sensibilidade, não só em relação aos animais, mas também ao sofrimento e ao abandono de seres indefesos.”
Ao mesmo tempo em que essa presença feminina demonstra força e mobilização, ela também evidencia uma sobrecarga. “É uma força porque mostra a capacidade de empatia e liderança feminina. Mas também é uma sobrecarga enorme, porque muitas protetoras acumulam responsabilidades, custos financeiros e desgaste emocional praticamente sozinhas”, afirma a vereadora.
Descredibilização e preconceito
Além das dificuldades práticas da proteção animal, muitas dessas mulheres enfrentam um obstáculo ainda maior: o preconceito. Durante anos, a causa animal foi tratada por parte da sociedade como algo menor ou irrelevante. Para quem atua na área, isso se traduz em comentários depreciativos, ridicularização e deslegitimação.
Patrícia Coradini relata que já enfrentou diversas situações desse tipo ao longo da sua trajetória. “Já sofri muito preconceito, não foi uma vez, foram várias. Inclusive no próprio ambiente de trabalho”, conta. Segundo ela, muitas pessoas ainda enxergam os animais como seres inferiores, o que contribui para que a luta por seus direitos seja desvalorizada. “Algumas pessoas consideram bobagem lutar pelos direitos dos animais. Os animais ainda são vistos como objetos por muita gente.”
Esse tipo de visão também influencia a forma como homens se posicionam em relação à causa. “Como é algo visto como ‘coisa de mulher’, muitos homens acabam se afastando porque sentem que isso pode diminuir a imagem deles”, explica.
No campo político, a descredibilização também aparece. Para a vereadora Beatriz Souza, defender a causa animal dentro do Legislativo exige firmeza constante. “Defender a causa animal já exige firmeza, porque ainda há quem tente diminuir a pauta. Sendo mulher, isso se soma à necessidade constante de mostrar que temos preparo, conhecimento técnico e capacidade política.”
Segundo ela, ainda existe uma visão ultrapassada de que a causa animal é menos importante que outras demandas sociais. “Quando falamos da causa animal, estamos falando de saúde pública, de combate aos maus-tratos e de responsabilidade do poder público.”
O peso emocional
Para quem está na linha de frente dos resgates, a rotina envolve lidar constantemente com situações de abandono, violência e sofrimento. Anaí conta que um dos momentos mais difíceis é quando não há condições de ajudar todos os animais. “Dói ver o abandono e muitas vezes não ter como ajudar.” Mesmo assim, ela afirma que nunca pensou em desistir. “A recompensa é quando resgato e eles demonstram gratidão.”
Lígia descreve sentimento semelhante diante dos casos de maus-tratos. “Me sinto muito frustrada e impotente quando não consigo ajudar como gostaria. É um trabalho que precisa de apoio.” Mas é nos finais felizes que ela encontra motivação para continuar. “A maior recompensa é quando consigo salvar essas vidas e encaminhá-las para bons lares.”
Com o tempo, quem atua na área precisa aprender a lidar com o impacto emocional das situações mais extremas. Patrícia Coradini lembra que, no início da trajetória, os casos de maus-tratos afetavam profundamente sua rotina. “Eu chorava muito, ficava dias pensando nas situações. Com o tempo, a gente acaba criando uma casca para conseguir seguir.”
Para ela, o trabalho na causa animal está ligado a um compromisso mais amplo com a sociedade. “A gente não está nesse mundo a passeio. Alguma coisa precisamos fazer para colaborar com o ambiente em que vivemos.”
Rede de apoio e resistência
Apesar das dificuldades, a proteção animal também é marcada por redes de solidariedade. A vereadora Beatriz destaca a importância do trabalho coletivo desenvolvido pelo Núcleo Bageense de Proteção aos Animais. Segundo ela, o espaço busca aproximar protetoras, poder público e sociedade civil para discutir soluções conjuntas e fortalecer políticas voltadas à causa.
Além da atuação institucional, muitas dessas mulheres constroem redes informais de apoio, compartilhando informações, recursos e ajuda emocional. Entre as próprias protetoras, essa solidariedade também se manifesta no cotidiano. “Sem essa união, seria impossível sustentar essa luta”, afirma.
Uma luta que salva vidas
Mesmo diante de dificuldades, preconceitos e limitações estruturais, as mulheres que atuam na proteção animal seguem firmes. Para elas, a causa não é apenas um trabalho voluntário, mas um propósito. “É a causa da minha vida”, afirma a vereadora Beatriz Souza.
Patrícia compartilha da mesma convicção. “Quem é capaz de ter empatia por um animal também tem empatia pelas pessoas. A gente está aqui para fazer a diferença.”
Para Lígia, essa escolha também representa uma missão. “Ser protetora é a maior missão que consegui cumprir.”
{AD-READ-3}Em Bagé, essa luta tem sido construída diariamente por mulheres que se recusam a ignorar o sofrimento daqueles que não têm voz e que, mesmo diante de críticas, sobrecarga e dificuldades, continuam transformando cuidado em resistência.
Mais do que resgatar animais, essas mulheres sustentam uma luta que desafia indiferenças e rompe silêncios. Entre resgates, campanhas, denúncias e noites sem descanso, elas reafirmam que empatia também é uma forma de coragem. Em cada vida salva, em cada animal que encontra um lar, permanece a certeza que move essa rede de protetoras: enquanto houver sofrimento, haverá mulheres dispostas a não desistir.

