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Cidade

“Coração da Rainha” propõe revitalização do centro e prevê mudanças que podem gerar debate em Bagé

Em 18/04/2026 às 08:30h
Érica Alvarenga

por Érica Alvarenga

“Coração da Rainha” propõe revitalização do centro e prevê mudanças que podem gerar debate em Bagé | Cidade | Jornal Minuano | O jornal que Bagé gosta de ler
Praça Carlos Telles / Foto: GEPLAN

Por Érica Alvarenga, acadêmica de Jornalismo


O projeto de revitalização do centro histórico de Bagé, ainda não lançado oficialmente, já projeta mudanças significativas em uma das áreas mais tradicionais da cidade. Intitulado “Coração da Rainha”, o plano propõe uma reconfiguração urbana por etapas, envolvendo desde a recuperação de prédios históricos até a reorganização de espaços públicos e do comércio informal.

A proposta foi apresentada de forma parcial durante reunião do Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente, realizada no Salão de Atos da Urcamp, na tarde do dia 14. O lançamento oficial, com todos os detalhes, deve ocorrer nas próximas semanas, ainda sem data confirmada.

De acordo com o coordenador de Patrimônio da Geplan, Márlon Lameira, o projeto nasce de uma constatação: o centro da cidade enfrenta há anos um processo de degradação. “Já faz pelo menos uma década que o centro está completamente esquecido. Sujeira, buraco, canteiro destruído, calçadas sem acessibilidade. A cidade é linda, mas o centro está abandonado”, afirma.

Patrimônio histórico como eixo central

O plano está estruturado em sete eixos, sendo o primeiro deles voltado ao patrimônio histórico – área que, segundo Lameira, já está em execução. A proposta inclui inventário atualizado dos imóveis, projetos de restauração e criação de incentivos para conservação, inclusive para proprietários privados.

Entre os principais pontos está o Clube Comercial, considerado um dos maiores desafios dentro do plano. O prédio passa por um processo dividido em duas etapas: uma intervenção emergencial, já com recursos garantidos, e a restauração completa, cujo projeto deve ser concluído até julho.

Segundo o coordenador, a situação atual do imóvel é crítica. “Quando entramos no prédio, foi um susto. O salão estava tomado pela água, o piso parecia uma piscina. Houve um abandono muito grande ao longo dos anos”, relata.

A elaboração dos projetos também está vinculada a prazos legais estabelecidos em acordo com o Ministério Público. Caso não sejam cumpridos, há risco de reversão do imóvel.

O projeto também se insere em um contexto mais amplo de reposicionamento do município. Recentemente, Bagé passou a ser reconhecida oficialmente como município de interesse turístico, o que amplia as possibilidades de captação de recursos e reforça a necessidade de qualificação dos espaços urbanos e históricos. Nesse cenário, a revitalização do centro ganha papel estratégico, tanto na preservação da identidade local quanto na atração de visitantes.

Apesar de concentrar as ações relacionadas à preservação histórica, o setor de patrimônio ainda não possui formalização administrativa dentro da estrutura oficial do município, atuando, até o momento, de forma vinculada à Secretaria de Gestão, Planejamento e Captação de Recursos (Geplan).

Calçadão e áreas centrais expõem abandono histórico

Outro ponto sensível do projeto envolve o calçadão, área central que, segundo a própria Geplan, nunca chegou a cumprir plenamente sua função urbana. “O calçadão é uma grande obra inacabada. Não se sabe se é praça, se é via. É um espaço sem definição, que nunca teve utilidade clara”, afirma Lameira.

O local enfrenta problemas recorrentes, como acúmulo de lixo, insegurança e a presença de uma estrutura inacabada, que há anos é alvo de disputa judicial. A Prefeitura busca a resolução do processo para viabilizar intervenções no espaço.

A situação atual, conforme o coordenador, reflete decisões urbanísticas anteriores, como a demolição do antigo Mercado Público, que não resultaram no desenvolvimento e modernização esperados para a área central.

Reorganização do comércio informal pode gerar impacto

Entre as propostas que devem gerar maior debate está a reorganização do uso do espaço público, incluindo a situação de ambulantes e trailers de lanche.

De acordo com Lameira, o objetivo não é simplesmente remover esses trabalhadores, mas criar alternativas que ordenem a ocupação da cidade. “A gente não quer fazer como em outras cidades e simplesmente retirar os trabalhadores. Queremos dar uma condição melhor, organizar o espaço. Hoje está muito desordenado”, explica.

Apesar disso, ele reconhece que as mudanças podem enfrentar resistência. “Existe uma dificuldade de aceitar transformações. Mas acreditamos que, com diálogo, isso pode ser construído.”

Plano envolve múltiplos setores e depende de articulação

Além das intervenções físicas, o projeto prevê atualização do Plano Diretor, revisão do Código de Obras, ações em mobilidade urbana, educação patrimonial e gestão compartilhada entre diferentes secretarias e entidades.

A proposta também inclui a criação de um fundo de incentivo para conservação de imóveis históricos, possibilitando que proprietários acessem recursos para reformas, especialmente em itens estruturais.

Segundo Lameira, o sucesso do plano depende do envolvimento coletivo. “Esse não é um projeto da Prefeitura, é um projeto da cidade. Se não for abraçado pelos comerciantes, pelas entidades e pela população, ele não vai funcionar”, reitera.

O lançamento oficial ainda não tem data definida

Embora parte das diretrizes já tenha sido apresentada a entidades e conselhos, o projeto completo do “Coração da Rainha” ainda será oficialmente divulgado em cerimônia prevista para os próximos dias. A expectativa da gestão é que, a partir da apresentação, as propostas avancem para fases mais concretas de execução e debate público.

Apesar dos desafios e das mudanças propostas, a expectativa da equipe envolvida é de que o projeto possa servir como ponto de partida para uma transformação mais ampla no centro da cidade. A ideia é que as primeiras intervenções funcionem como modelo para outras iniciativas, demonstrando, na prática, a viabilidade da recuperação dos espaços urbanos.

A avaliação é de que, embora exista resistência inicial, a concretização de ações já planejadas pode contribuir para mudar a percepção sobre o potencial da região central. A projeção, a médio prazo, é de um centro mais organizado, valorizado e integrado, desde que haja adesão de diferentes setores da comunidade.

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