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Entre o lixo e o abandono

Centenas de cães circulam soltos pela cidade, cerca de 200 só na área de transbordo de Bagé. Apesar das ações de castração e tratamento realizadas semanalmente, o abandono constante de animais mantém o problema ativo

Em 12/06/2026 às 13:05h
Érica Alvarenga

por Érica Alvarenga

Entre o lixo e o abandono | Cidade | Jornal Minuano | O jornal que Bagé gosta de ler
Os cães transitam livremente entre os resíduos. / Foto: Érica Alvarenga

Enquanto caminhões despejam diariamente cerca de 80 toneladas de resíduos na área de transbordo de Bagé, outra realidade se desenrola longe dos olhos da população. Entre montanhas de lixo, restos de alimentos, plástico, vidro, papelão e chorume, centenas de cães disputam espaço para sobreviver.

A situação voltou ao debate após uma publicação feita pelo Núcleo Bageense de Proteção aos Animais (NBPA) através das redes sociais, onde informa a realização de atendimentos semanais no local. A ação, desenvolvida em parceria com a Coordenadoria do Bem-Estar Animal (CBEA), envolve resgate de animais para tratamento, castrações, vermifugação e monitoramento dos cães que circulam pela área.

O principal fator que alimenta o problema é o abandono constante. Segundo o NBPA, a CBEA e trabalhadores da área de transbordo, é frequente o surgimento de novos cães no local, deixados por seus próprios tutores ou abandonados nas proximidades. Filhotes, cadelas prenhes e até animais doentes ou feridos passam a integrar a população que vive no local. Esse fluxo constante de abandono dificulta o controle populacional e faz com que o número de animais permaneça elevado, mesmo com as ações semanais de castração, tratamento e monitoramento realizadas no local.

A situação também evidencia uma questão recorrente enfrentada por protetores independentes e entidades de proteção animal: a posse responsável. Enquanto cães continuam sendo abandonados ou deixados para se reproduzir sem controle, o trabalho de castração, tratamento e resgate passa a atuar sobre as consequências de um problema que começa muito antes de os animais chegarem ao aterro. Embora o cenário encontrado na área de transbordo seja extremo, ele não está isolado da realidade do restante da cidade. A presença constante de cães abandonados em bairros, estradas e espaços públicos demonstra que o problema tem origem em uma cultura de abandono e reprodução sem controle que ultrapassa os limites do aterro e desafia há anos as entidades de proteção animal do município.

Segundo informações obtidas junto ao secretário municipal de Meio Ambiente e Proteção ao Bioma Pampa, Tibério Bassi, a presidente do NBPA, Patrícia Coradini, e trabalhadores que atuam diariamente no local, a população de cães que circula pela área é de aproximadamente 200 animais.

Os cães transitam livremente entre os resíduos. Alguns acompanham os catadores que trabalham na separação de materiais recicláveis. Outros foram abandonados ali ou nos arredores. Existem ainda os que nasceram no próprio local e cresceram sem nunca conhecer outra realidade.

Em meio ao lixo, disputam ossos, restos de comida e qualquer alimento descartado.

Distante da atenção da comunidade, a rotina desses animais acontece diariamente sem que a maior parte da população sequer saiba da sua existência.

Durante a visita, a reportagem observou diferentes formas de relação entre os recicladores e os cães. Alguns trabalhadores demonstravam carinho pelos animais, oferecendo o seu próprio alimento e interagindo de forma afetuosa. Outros pareciam encarar sua presença com naturalidade – e até um certo desdém – como parte da paisagem cotidiana construída ao longo dos anos.

Também foi testemunhada uma cena preocupante: ao tentar interromper uma briga entre dois cães, uma catadora agrediu um dos animais com tapas e chegou a pisar em suas costas. O episódio evidencia o ambiente de tensão constante vivido tanto pelos trabalhadores quanto pelos animais em um espaço marcado pela precariedade.

Falta de infraestrutura afeta diretamente os animais

Um dos recicladores entrevistados relatou que não existe abastecimento regular de água no local. Segundo ele, muitos animais acabam bebendo água acumulada em poças espalhadas pela área – cena também presenciada pela reportagem enquanto estava no local. "Esses cachorros estão sem água. Isso aí não é água. Um pouco pode ser água da chuva, mas o resto é chorume", afirmou.

Além disso, os trabalhadores relatam que frequentemente encontram animais mortos descartados junto ao lixo. Cães e gatos chegam ao local já sem vida ou gravemente feridos, exigindo acionamento de equipes de proteção animal, como o NBPA e CBEA.

Segundo Rodrigo Lima, reciclador que atua há cerca de 16 anos na área, os próprios trabalhadores costumam entrar em contato com os órgãos responsáveis quando encontram animais doentes ou feridos. "A gente cuida dos cachorros. Se aparece algum machucado ou doente, a gente liga para a proteção dos animais", contou.

Apesar da realidade encontrada, os responsáveis pelo trabalho de controle populacional afirmam que ações permanentes vêm sendo realizadas.

De acordo com a presidente do NBPA, Patrícia Coradini, uma veterinária e equipe visitam o local semanalmente para identificar animais que necessitam de tratamento ou castração. "Todos os animais que estão chegando são castrados, tem o pessoal lá do aterro que entra em contato com a veterinária, e toda semana ela vai buscar os bichinhos para atendimento", explicou.

Segundo ela, o principal desafio não está nos animais já conhecidos pelas equipes, mas na chegada constante de novos cães. "Todo dia chega animal novo. Muitas vezes os animais são abandonados lá. Tem cães que chegam com os catadores, outros que aparecem na área e acabam ficando. É um fluxo contínuo."

A presidente do núcleo afirma que os animais considerados fixos já estão, em sua maioria, castrados e são monitorados pela equipe durante as visitas semanais. O problema, segundo ela, é que o número de cães que circula pela área muda diariamente.

Prefeitura confirma a dificuldade

Em nota enviada à reportagem, a comunicação municipal informou que as equipes realizam vermifugação, controle de ectoparasitas, castrações e tratamento de animais com doenças como o Tumor Venéreo Transmissível (TVT). Também reconhece que o abandono de animais no local é frequente.

"Segundo relatos da equipe que atua no aterro, é frequente o descarte de animais no local, especialmente filhotes, muitas vezes deixados nos próprios contêineres de lixo", informou.

Esse fluxo constante ajuda a explicar por que, apesar dos atendimentos regulares e das castrações realizadas, a população animal continua elevada. A cada semana alguns cães são castrados, tratados ou retirados para recuperação. Mas, ao mesmo tempo, novos animais chegam, filhotes nascem e outros são abandonados.

O problema, portanto, não está na ausência de ações de controle populacional, mas em um ciclo contínuo de abandono que alimenta permanentemente a presença de cães na área.

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