Saúde
Saúde mental no mundo contemporâneo: psiquiatra alerta para os perigos do prazer imediato
Palestra marcou a aula inaugural do curso de Psicologia da URCAMP
por Viviane Becker
A busca por recompensas rápidas e o impacto da hiperconectividade na saúde mental foram os temas centrais da aula inaugural do curso de Psicologia da Urcamp, realizada no dia 9 de abril, no salão da AABB. Mais de 150 pessoas acompanharam a palestra da médica psiquiatra Betina Sune Mattevi, que atende na cidade uma vez por mês.
Intitulada “Saúde Mental no Mundo Contemporâneo: da busca por prazer imediato à construção de um bem-estar duradouro”, a palestra explorou como a revolução tecnológica e as redes sociais têm transformado profundamente o comportamento humano, a atenção e o sofrimento psíquico.
De acordo com a psiquiatra, vivemos em um ambiente saturado de estímulos constantes: notificações, curtidas, vídeos curtos, conteúdos personalizados e compras instantâneas, que funcionam como recompensas rápidas e de baixo esforço. “Esses estímulos são amplificados por algoritmos e estratégias de neuromarketing que exploram vieses cognitivos e utilizam o reforço intermitente para criar dependência emocional”, explicou Betina.
A médica destacou o papel central da dopamina, neurotransmissor ligado não exatamente ao prazer, mas à motivação e à antecipação da recompensa. Quando o cérebro é hiperestimulado por esses estímulos digitais, ocorre uma dessensibilização: o limiar de satisfação sobe, exigindo cada vez mais intensidade para gerar o mesmo efeito.
“Com o tempo, instala-se um ciclo vicioso: uso → euforia → queda do prazer → fissura → recaída. A pessoa passa a buscar o estímulo não mais pelo prazer, mas para aliviar o desconforto”, alertou.
Essa dinâmica, segundo Betina, ajuda a explicar sintomas cada vez mais comuns, como dificuldade de concentração, procrastinação, anedonia (incapacidade de sentir prazer), insônia, relações interpessoais empobrecidas e perda de interesse por atividades que antes eram gratificantes.
A psiquiatra reconheceu, porém, que a tecnologia também trouxe avanços importantes, como agilidade na comunicação, trabalho remoto e economia de tempo. “Não se trata de ter tecnofobia, mas de adotar um uso consciente e intencional da tecnologia”, defendeu.
Estratégias para o bem-estar duradouro
Para contrabalançar os efeitos do imediatismo digital, Betina recomendou medidas práticas:
- Reduzir estímulos de alto impacto (limitar notificações e tempo de tela);
- Fortalecer recompensas naturais (atividade física, relações presenciais e aprendizado contínuo);
- Investir em autocuidado, especialmente sono e alimentação;
- Praticar mindfulness e buscar psicoterapia (TCC, psicanálise ou terapia analítica) para melhorar o autocontrole e a consciência emocional.
A médica enfatizou ainda a importância de resgatar experiências que exigem esforço e tolerância ao desconforto, como construir relações profundas, cultivar propósito de vida e investir no longo prazo.
“Em um mundo orientado pelo prazer instantâneo, o grande desafio contemporâneo é desenvolver consciência crítica e hábitos que favoreçam um bem-estar sustentável, baseado em significado, vínculos e equilíbrio emocional”, concluiu Betina.
LEGENDAS
Aula inaugural reuniu mais de 150 participantes na AABB
A coordenadora do Curso de Psicologia da Urcamp, Silvia Vargas e a Médica Psiquiatra Betina Sune
Betina: “Adote o uso consciente e intencional da tecnologia”

