Cidade
Fiscalização do Cremers na Santa Casa ocorre após série de manifestações sobre atendimento obstétrico
por Melissa Louçan
A visita realizada pelo Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers) à Santa Casa de Caridade de Bagé nesta quinta-feira, 14, foi motivada pelo cenário de forte repercussão envolvendo a instituição nos últimos meses, especialmente após manifestações públicas, denúncias relacionadas ao atendimento obstétrico e casos de mortes de bebês e parturientes que geraram mobilização na cidade. A ação foi conduzida pelo Departamento de Fiscalização (Defis) do conselho e contou com a participação do conselheiro Thiago Dal Bosco, da delegada regional do Cremers, Júlia Xavier Castilho, e de médicos fiscais do órgão.
Em entrevista, Dal Bosco afirmou que o Cremers acompanha o cenário local a partir de denúncias, manifestações e também por meio de busca ativa realizada pelo próprio conselho. Segundo ele, a preocupação levada ao órgão pela delegada regional contribuiu para a abertura da demanda de fiscalização. “Nos preocupou muito quando vimos postagens em redes sociais chamando a instituição de ‘matadouro’. A ideia não é destruir, é construir soluções”, afirma.
A vistoria ocorreu sem aviso prévio e teve como foco setores considerados estratégicos da Santa Casa, como centro obstétrico, UTI neonatal, UTI pediátrica e emergência. A equipe avaliou estrutura física, escalas médicas, fluxos de atendimento e condições de funcionamento da rede hospitalar. O relatório técnico deverá ser encaminhado à direção da instituição nos próximos dias, apontando eventuais irregularidades e recomendações.
Além da vistoria na Santa Casa, a agenda do Cremers em Bagé também incluiu reunião na Promotoria de Justiça. Dal Bosco comenta que a intenção é ampliar a discussão envolvendo diferentes setores ligados à saúde pública e construir encaminhamentos conjuntos para os problemas identificados na rede assistencial da região.
Segundo Dal Bosco, a situação enfrentada em Bagé não é vista pelo Cremers como um problema isolado, mas como reflexo das dificuldades estruturais da saúde pública na Metade Sul do Estado, envolvendo financiamento, falta de profissionais e fragilidade na organização da rede regional.
Segundo Dal Bosco, a situação enfrentada em Bagé não é vista pelo Cremers como um problema isolado, mas como reflexo das dificuldades estruturais da saúde pública na Metade Sul do Estado, envolvendo financiamento, falta de profissionais e fragilidade na organização da rede regional.
“O que a gente nota é que está um pouco difícil construir uma rede de atendimento. A discussão não pode ser apenas apontar culpados, mas pensar política pública e soluções para atender a população”, disse.
O conselheiro também defende que o debate sobre os problemas da instituição envolva diferentes setores da saúde e do poder público, incluindo hospital, municípios, Estado e Ministério Público.
Para Júlia Castilho, a situação da Santa Casa preocupa profissionais e usuários do sistema de saúde, principalmente pela importância regional da instituição. “A Santa Casa é a instituição que temos para atender a população. O que queremos é unir forças para o bem comum, que é um bom tratamento dos pacientes”, afirma.
A médica também destaca dificuldades enfrentadas pelos hospitais do interior para manutenção de equipes e composição de escalas médicas, além da necessidade de melhores condições estruturais para os profissionais de saúde.
Outro tema abordado pelo Cremers foi a discussão sobre a abertura de novos cursos de Medicina na região. Dal Bosco afirmou que o conselho vê com preocupação a ampliação da formação médica sem uma rede assistencial estruturada para absorver estudantes e profissionais. “Antes de interiorizar a faculdade de Medicina, precisamos interiorizar a Medicina e os seus recursos”, declara.
O Cremers informou que poderá retornar a Bagé conforme os desdobramentos da fiscalização e das discussões envolvendo a saúde regional. Segundo o conselho, a intenção é estimular a construção de um plano conjunto para enfrentamento dos problemas identificados na assistência hospitalar da Metade Sul.

